Paquito
De Salvador (BA)
Escrever sobre música é uma loucura: às vezes me vêm a sensação de que estou só querendo convencer o leitor de que o que eu gosto é que é bom. Dá meio um desânimo, que toma conta e fica inteiro. Os dias de sol têm sido gritantemente bonitos, tão gritantemente que se acrescenta ao desânimo um desfalecimento quase morte, um abandonar-se aos dias quentes que só se tornam melhores com a chegada da brisa da tardinha. Aí se avista a estrela Vésper languescente, que basta somente para os bardos inspirar, e tudo fica quieto de bom, sem que se leve a sério a música, a poesia, a política ou qualquer coisa. Ou melhor, que venha a música como um assovio, suspiro do vento, sem nada a dizer, feito os versos do poeta pagão Alberto Caeiro.
Carmen Miranda, cuja perfomance leve e up não levava as coisas a sério, faria cem anos na segunda que passou. Por trás do ícone tão forte quanto corriqueiro, uma intérprete e tanto. Quando Carmen foi para os EUA, já tinha gravado o melhor do seu repertório no Brasil. O público norte-americano ficou com a figura, o símbolo, a ponta do iceberg.
A qualidade de tudo que ela fez não era um acontecimento isolado. Na verdade, ela fazia parte de um universo riquíssimo, o da música brasileira das décadas de 30 e 40, impulsionada pelo florescimento do rádio. Carmen trazia nos seus requebros e maneiras os compositores Ary, João de Barro, Assis Valente, Noel, Ismael, Caymmi e, por que não, Aracy, Mário Reis, Chico Alves e Orlando Silva, intérpretes como ela? Essa capacidade de representação faz parte do seu gênio.
Falando de períodos de florescimento, está pra sair o Cd de versões, feitas por Carlos Rennó, de canções americanas de compositores judeus, um projeto do próprio Rennó e Jacques Morelebaum. Ouvi Encantada (Bewitched, bothered and bewildered), de Rodgers e Hart, com Maria Rita, e Tão fundo é o mar (How deep is the ocean), de Irving Berlin, com Moreno Veloso. As duas versões estão lindas, mas a de Berlin me tocou mais. Em primeira mão:
Por dia quantas vezes em ti penso eu?
Em quantas rosas orvalho choveu?
Quão longe eu iria
Pra estar onde estás?
Quão longe é a jornada
Pra estrela lilás?
Se eu te perder um dia,
Quanto eu vou chorar?
Quão alto é o céu?
Quão fundo é o mar?"
Descendo de carro pela Avenida Contorno de Salvador, vê-se a Baía de Todos os Santos em sua magnitude. A visão do mar, fundo, parece impulsionar o carro pra que este levante vôo, por sobre a Cidade Baixa. Mas ao redor, out-doors sem fim represam a ânsia de amplitude, prenunciando o apocalipse de verão: o Carnaval, opressor e estridente. É por isso, claro, que estou melancólico.
Aldri da Anunciação é um nome apocalíptico, e é também como se chama um ator baiano que mora no Rio de Janeiro, amigo de um amigo meu, Lucci Ferreira, outro ator baiano, que era da turma que frequentava o Porto da Barra, mas também se mandou pro Rio. Aliás, essa turma do Porto está morrendo também, como tudo que um dia vicejou.
Aldri me contou um episódio que aconteceu consigo no Rio de Janeiro já tem alguns anos, que vou tentar reproduzir, não com a graça que lhe é peculiar, o que sei ser impossível, mas com um minimozinho de encanto.
Aldri tomou um ônibus que ia pelo Leblon num belo dia de outono, a estação mais bonita do Rio de Janeiro, quando maio invade com doçura e vagar. O ônibus vinha naquela velocidade típica das ruas do Rio, com a qual os cariocas estão acostumados, mas que dá medo ao baiano noviço, inocente puro e besta.
O ônibus vinha e de repente viu-se um homem de bicicleta de um lado da rua, querendo atravessar para o outro lado. Parece que ele calculou errado e atravessou na iminência do ônibus atingi-lo. Todos que estavam no veículo ficaram assustados, inclusive o motorista, que conseguiu desviar a tempo de não atropelar o ciclista que, quando viu do que se livrou, pareceu respirar aliviado.
Os passageiros, irmanados pelo fato de estarem no coletivo, começaram a gritar para o ciclista coisas como:
- Você é maluco?
- O senhor quer morrer?
naquele misto de indignação e satisfação de apontar o erro do semelhante. Aldri também se indignou e principiou a engrossar o coro quando, num relance, reconheceu o homem da bicicleta: Chico Buarque.
A vontade que deu foi a de falar pra pessoas: "gente, é o Chico! Com o Chico, não!", mas as palavras não saíam da sua boca, apesar dele não se conformar com o pito dado ao nosso amado compositor. Aparentemente, ninguém mais se deu conta da identidade do imprudente ciclista, e Aldri desceu no próximo ponto. Ponto final.
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Carmen. "Essa capacidade de representação faz parte do seu gênio", diz Paquito
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