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Quinta, 12 de fevereiro de 2009, 08h00

O livro Pedro Páramo, de Juan Rulfo

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro

Nenhum silêncio foi mais enigmático que o do mexicano Juan Rulfo. Seu primeiro livro, o conjunto de contos A planície em chamas, data de 1953; Pedro Páramo, seu único romance, é de 1955. Depois disso, Rulfo cometeu o luxo de sobreviver à sua magra e absolutamente pessoal literatura por 31 anos até que a morte, que tanta presença possui em suas belas páginas, lhe brindou com a ironia de uma mais que saudável vida póstuma.

Ernesto Sabato, justificando sua parca produção literária, afirmou que tudo que tinha para dizer estava em seus três romances; mas, em contrapartida, criou uma obra ensaística vasta e interessante que foi capaz de o ocupar até que graves problemas de visão o afastassem definitivamente do universo das letras. Rulfo, porém, não possui álibi algum senão sua própria vontade: seu envolvimento com o silêncio é um dos casos de amor mais radicais de que se tem notícia.

O universo literário de Rulfo é uma síntese perfeita entre ética e estética. Sem escapar de um gênero de denúncia social contemporânea ao momento em que escreveu Pedro Páramo, Rulfo redimensiona o alcance do seu texto para além da mera reprodução das condições sociais do compesinato mexicano pré-revolucionário. Todo o sofrimento alcança uma amplitude mais universal em suas páginas porque Rulfo escreve com uma linguagem carregada de grande vitalidade - não há palavra em Rulfo que não tenha em si uma justificativa emocional e estética.

Desse modo, Rulfo, junto com Borges, são os autores mais "escritos" da América Latina de expressão espanhola. Uma enorme economia de recursos retóricos e uma máxima significação textual são encontráveis em ambos; porém, o que ocasionalmente excede em artificialidade nos contos de Borges, sobra em vida e paixão nas narrativas de Rulfo - em duas frases estamos dentro de seu universo; em mais duas ou três, já nos tornamos uma personagem como outra qualquer.

Pedro Páramo é um romance para se ler e reler; e mesmo sendo breve tem leituras intermináveis. Juan Rulfo propõe o romance como signo. O texto começa realista e com um tom mais neutro e descritivo; com o passar dos episódios, a linguagem vai se tornando mais poética e os narradores vão se multiplicando e se contradizendo até que, por fim, o romance se torna fantástico.

A busca de Juan Preciado por seu pai Pedro Páramo, motivo central da narrativa, acaba se tornando mais uma entre dezenas de buscas de um romance onde todos buscam algo que não sabem onde encontrar, e que talvez nem mesmo tenham real consciência do que seja, agindo como que por inércia em um ambiente desolado e triste.

A construção do romance é bastante sutil e as mudanças de realidade são feitas lentamente. Não há precipitação alguma por parte de Rulfo; A transição e comunicação entre o real e sobrenatural, entre sonho e vigília, entre memória e recriação é sempre feita de modo a não dispersar a atenção do leitor da narrativa.

Como em um imenso quebra-cabeça, o texto de Juan Rulfo exige uma leitura atenta porque nada em seu universo se explica, e uma frase ou palavra de determinada página pode esclarecer ou cerrar a sugestão de dezenas de páginas anteriores.

Ao final da leitura, o leitor teve uma experiência única: tem-se a impressão de se ter atravessado um épico de 900 páginas e não escassas 130; e isso se deve ao fato de que o leitor é instigado as interpretar constantemente. E desde a primeira página.

Outra coisa curiosa: o livro não tem trama, roçando com o sutil universo do romance lírico. Começa-se acompanhando Juan Preciado; por um longo momento se vislumbra a infância de Páramo; fragmentos nos contam estórias de vários habitantes de participação episódica na trama; vozes são escutadas por Preciado, que passa a organizar o passado de várias das personagens; há um levante revolucionário; tem-se Suzana, que domina o final do romance. Desse modo, o que condensa e dá unidade ao romance é também uma busca: quem é Pedro Páramo?

Cada leitor termina com uma imagem diferente dele, porque só se tem acesso a fragmentos do que Páramo seja, ou diálogos onde ele fala geralmente o que não sente. Juan Rulfo foi um escritor comedido que só soube caminhar superlativamente, e suas escassas páginas são um dos maiores monumentos que a literatura latino-americana contemporânea legou ao mundo.


Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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O romance, mesmo sendo breve, tem leituras intermináveis

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