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Quinta, 12 de fevereiro de 2009, 07h59 Atualizada às 08h30

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Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Dizem que é pelo dedo que se conhece o gigante. Mais ou menos na direção do ditado, Ginsburg tornou célebre uma teoria do conhecimento alternativa, boa especialmente para as ciências humanas, que chamou de paradigma indiciário (ver "Sinais: raízes de um paradigma indiciário", em Mitos, emblemas, sinais. Cia. das Letras. Não leu? Quem mandou preferir livrinhos de respostas!).

Uma de suas referências é um tal Morelli, notável por sua capacidade de autenticar obras de arte prestando particular atenção aos "pormenores mais negligenciáveis". Se ele tivesse analisado os quadros de van Meegeren, ninguém os teria comprado como se fossem de Vermeer.

Freud conhecia sua obra, e não seria estranho que dela tivesse recebido influências: afinal, trechos de sonhos são sintomas, e atos falhos, outros tantos. Se você ler o artigo e gostar, corra logo para O signo dos três, coletânea organizada por Sebeok e Eco (da Editora Perspectiva).

Do título (óbvia alusão ao Signo dos quatro, de Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, já que os detetives têm tudo a ver com considerar indícios) à análise de diversos da validade dos insights abdutivos.

Pois bem, às vezes, a ideia que alguém tem do que seja uma língua se revela num detalhe. Pode parecer que não, mas ele é tudo - sabendo ouvir! Por exemplo: o novo apresentador do Globo Esporte anuncia todo dia um site (não lembro mais qual é, vejam só) cujo nome inclui um final com "ão" (como se fosse "ação", mas sei que a palavra não é essa). Ele o repete assim, para que entendamos direito: |akao|, isto é, não produz um ditongo nasal, e acrescenta "sem cedilha e sem acento".

Há dois sintomas aqui: ele fala "lendo as letras", e dá uma informação errada sobre a classificação do til (til não é um acento). Indícios de quê, afinal? No que importa: de uma concepção de língua que seria bem representada pela escrita, e a ideia de que a escrita - a grafia - é o ponto de partida da leitura. Ora...

Outro exemplo, bastante diferente, aliás. Ronaldo, o fenômeno (pelo menos de mídia), está fazendo um trabalho de recuperação, visando, entre outras coisas, ao equilíbrio da musculatura das duas pernas, cuja diferença é de 20% (tudo isso eu ouvi no mesmo programa). Entra um repórter: "Uma delas está com a musculatura mais forte".

Não, por Zeus! Uma delas está com a musculatura mais fraca! Mas se a musculatura de uma perna está mais forte, a da outra está mais fraca, dirá um idiota da objetividade (o que lembra a "incorretíssima" lei da compensação, de Millôr Fernandes: "se alguém tem uma perna mais curta, em compensação tem a outra mais comprida"... argh!).

Acontece que, do ponto de vista da relevância, a perna não lesionada de Ronaldo não importa (a gente nem lembra que ele tem duas). Só importa a que sofreu a lesão, e ela está mais fraca e é sua recuperação ou não que decidirá o futuro dele no futebol. Além do mais, o equilíbrio não se fará diminuindo a força da perna boa, mas fortalecendo a da perna lesionada.

Sintoma de quê? De uma concepção "logicista" da língua, segundo a qual nada parecido com contexto ou universo de discurso importa, mas só a frase, em si, nua e crua! Ora, ninguém lê, fala ou ouve assim...

Há outros sintomas: se você acha simplesmente que dizer "menas gente" é um erro, sem considerar pelo menos que "gente" é uma palavra feminina, isto é, sem qualificar a questão adequadamente, eis um sintoma de que você acha que uma língua cabe numa listinha de erros. Seria como pensar que alguém é especialista em agricultura porque leu no Almanaque Biotônico Fontoura sobre quais são as luas boas para plantar rabanete.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Ronaldo da perna. A musculatura está mais fraca!, nota Possenti

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