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A expo Boule & Bill, no Festival de Angoulême
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Claudio Martini
De Campinas (SP)
Se existir um paraíso para quem gosta, lê ou trabalha com quadrinhos ele deve ser muito parecido com o Festival International de la Bande Dessinée de Angoulême, que acontece toda última semana de janeiro na pequena cidade do sudoeste da França.
A cidade, que tem suas origens no século XIII, é tomada durante quatro dias por uma infinidade de eventos, exposições e atividades ligadas aos quadrinhos e é invadida por autores, editores e fãs de toda a Europa.
A cada ano Angoulême sintetiza e evidencia o que de melhor as histórias em quadrinhos mundiais podem oferecer. Ali, o aspecto cultural é colocado em destaque e, apesar do grande apelo comercial dos lançamentos, é o aspecto artístico e pessoal do trabalho do quadrinhista que recebem a maior atenção.
Este ano, o grande acontecimento foi a presença maciça de autores independentes de língua inglesa: Chris Ware (Jimmy Corrigan), Daniel Clowes (Ghost World), Adrien Tomine (Shortcomings), Posy Simmonds (que foi premiada este ano por Tamara Drewe), Melinda Gebbie (Lost Girls), James Kochalka, Conrad Botes e outros.

O quadrinista Chris Ware
Em que outro lugar poderíamos encontrar, lado-a-lado, Ware, Clowes e Tomine em sessões diárias de autógrafos? Quando durante uma entrevista perguntaram a Tomine quais eram suas impressões sobre a França, ele respondeu que não tivera muito tempo para observar a vida francesa, pois sua viagem estava sendo uma maratona de autógrafos, e até o momento o melhor havia sido uma visita à casa de Robert Crumb, que mora no sul da França, onde tinham comido um spaghetti juntos.
Apesar da atenção que despertam os grandes astros dos quadrinhos mundiais, nada se compara às grandes filas para se conseguir uma "dedicace" de um autor francês. As grandes editoras presentes dividem seus stands - montados dentro de grandes pavilhões chamados "bulles" (balões) - em dois: a parte onde estão os álbuns para serem examinados e adquiridos e uma grande bancada com uma dúzia ou mais autores autografando os livros. Durante todo o período do festival e a qualquer momento do dia há sempre uma centena de autores autografando livros nas dezenas de stands. E a "dedicace" em Angoulême (e em toda a Europa) não se resume a uma simples assinatura. Geralmente são trabalhos elaborados, que ocupam a página de rosto do livro, primeiro esboçados e depois pintados, com aquarela ou nanquim.
Além do pavilhão das grandes editoras, havia também o das editoras independentes e menores e o Espaço Para-BD, onde estavam sendo vendidos posters, toys etc. Nas editoras menores, podíamos encontrar em pequenos stands autores como os mestres da HQ erótica Franco Saudelli e Erich Von Gotha ou o jovem autor alemão Jens Harder, que lançou em Angoulême o excelente Alpha... Directions, primeiro livro de uma trilogia, que reconta nessas 350 páginas iniciais a história da evolução da vida na Terra. Este autor, aliás, já é presença confirmada no 6º FIQ de Belo Horizonte, que ocorre em outubro deste ano.
Dentre as duas dezenas de exposições que se espalhavam por vários locais na cidade, algumas chamavam mais atenção:
- Winshluss (que conquistou o prêmio mais importante do festival com o álbum Pinocchio): Com uma retrospectiva de sua excelente obra ambientada em um cenário que reproduzia um cemitério, e onde as tumbas traziam os nomes do autor e seus parceiros nos trabalhos. Além dos quadrinhos, o autor trabalha também com cinema e foi responsável, junto com Marjane Satrapi, pelo roteiro e direção de Persépolis, que levou a premiada HQ para o cinema. Ali também foi exibido o mais recente filme do autor: Villemolle 81. Um divertidíssimo filme que começa como um documentário sobre uma pequena cidade francesa e seu festival medieval, mas que se transforma em um sangrento filme de terror quando germes alienígenas transformam os habitantes da região em zumbis.
- Shigeru Mizuki e Hiroshi Hirata: Dois dos grandes mestres japoneses em destaque no festival, com belos exemplos da obra de Mizuki, que se destaca pelas histórias de terror com os Yokai (fantasmas, monstros e espíritos do folclore japonês), e da obra de Hirata, que desenha violentas e tradicionais histórias de samurais.
- Lucien: O personagem de Frank Margerin que nos anos 1980 era um dos destaques da revista Metal Hurlant ganhou uma excelente retrospectiva no teatro da cidade. A mostra muito divertida apresentava para uma nova geração de leitores seus personagens irreverentes.
- Bittercomix: Mostra sobre a nova HQ alternativa da África do Sul e que quase sofreu censura em Angoulême por causa de quadrinhos que traziam cenas de sexo.
- HQ Flamenga: Os autores belgas da região de Flandres protagonizaram esta ótima exposição, onde cada quadrinhista recebeu um cenário especial para sua obra.
- Além dessas, havia também a exposição sobre os 50 Anos de Boule e Bill, a retrospectiva de Dupuy & Berberian, a japonesa Kiriko Nananan e várias outras que ocupavam até hotéis, bares e igrejas.

A expo Dupuy & Berberian
Outro grande evento são as apresentações musicais mescladas com desenhos. Este ano Christophe Blain, Nix e Johan de Moor, Dupuy e Berberian dividiram o palco com os músicos franceses e belgas Arthur H, Arno, Rodolphe Burger.
Há também os vídeos, as entrevistas, exibição de filmes e animações, performances de rua e tantas atividades que o desejo é ser um super-herói que conseguisse se multiplicar para poder acompanhar todos os eventos.
O Festival de Angoulême que este ano começou incerto, com alerta de inundações na região e greve de transportes programada para o dia de abertura do evento, mostrou mais uma vez a importância econômica e cultural que os quadrinhos ocupam na Europa e especialmente na França. Um evento único no mundo e que serve de exemplo e inspiração para outros realizados pelo globo, inclusive para o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, que este ano vai convidar uma dezena de autores de língua francesa, como parte do ano da França no Brasil.
Para quem quiser saber mais, o site www.bdangouleme.com traz muitas informações e dezenas de vídeos do evento e entrevistas com os autores que estiveram presentes no festival.
Terra Magazine