Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Roberto Sousa Causo

Sábado, 14 de fevereiro de 2009, 07h54

Mais de mil livros, mais ainda a escrever

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Rubens Francisco Lucchetti: O Homem de 1000 Livros, R. F. Lucchetti & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Com-Arte, 2008, 158 páginas. Ilustrado.

A ficção científica e fantasia brasileira (e outros gêneros populares) têm poucos herois, ícones ou referências obrigatórias. Acabamos buscando nossos herois e referências no exterior. Como resultado, consciente ou inconscientemente aceitamos que os argumentos quanto ao valor e à importância, às tendências e aos objetivos desses gêneros também tenham que vir de fora - problema de que o mainstream literário brasileiro certamente não padece (ou não na mesma proporção).

Leia também:
» Resenha: O rei das pin-ups tupiniquins
» DROPS

Rubens Francisco Lucchetti é um heroi da literatura popular no Brasil, sendo o decano dos nossos autores de ficção pulp, pioneiro dos quadrinhos e do cinema de horror. Ele já havia recebido uma homenagem do fandom, por meio do livro amador compilado por Edgar Guimarães, Rubens Lucchetti Nico Rosso (1994). Esse livro trouxe quadrinhos produzidos pela dupla, mas também textos de Marco Aurélio Lucchetti (filho de Rubens), Fábio Santoro, Reinaldo de Oliveira, Vasco Granja, Paulo Lerosi, Edson Rontari, Rudolf Piper, Jaime Rodrigues, André Setaro, Ivan Cardoso, Gonçalo Junior, Fernando Mojica, A. Carvalhaes, Luciano Ramos, e da própria Jerusa Pires Ferreira, pesquisadora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, que conduziu a entrevista com R. F. Lucchetti compilada em O Homem dos 1000 Livros.

Trata-se de um livro produzido pela COM-ARTE ( http://www.eca.usp.br/comarte), editora-laboratório do Curso de Editoração da ECA/USP, editado por Andréia Moroni & Magali Oliveira Fernandez, com um grupo grande alunos que participou da transcrição das fitas. O livro abre justamente com um depoimento coletivo de treze alunos envolvidos no projeto, com suas reações a ele - seguido então de introdução Magali Oliveira Fernandes (que aparece com "z" na página de rosto), discutindo um pouco mais o trabalho com os alunos, na empreitada conduzida no segundo semestre de 2002. Deixam claro que o trabalho foi interessante e que consideram o livro uma homenagem - agora a partir do ambiente acadêmico - a R. F. Lucchetti.

Há outros participantes da entrevista; além da Prof.ª Jerusa, o conhecido Prof. Boris Schnaiderman, e Marco Aurélio Lucchetti. O livro é esse bate-papo no qual predomina a voz de Rubens, contando de como foram os seus primeiros passos como leitor e autor de literatura pulp (termo que faz parte do seu vocabulário pessoal), nas ruas da Lapa, em São Paulo. Cedo ele não apenas publicou textos no jornal do bairro, mas envolveu-se com o rádio e revela que estava sendo preparado por Octávio Gabus Mendes para ser um autor de radionovelas, quando sua família teve de se mudar de São Paulo para Ribeirão Preto, no interior. Lucchetti não gostou nada da mudança, e preferiu ir morar com tios em Santa Rita do Passa Quatro, onde também vivia um avô caixeiro viajante e inventor "meio maluco", de quem Lucchetti acreditar ter herdado algo de sua própria maluquice. Passado um tempo, acabou se unindo à família em Ribeirão Preto.

Já um autor publicado nas pulp magazines da época - títulos que ele enumera: Detective, Suplemento Policial, Contos Magazine, X-9, Meia-Noite, A Novela, etc. -, Lucchetti não encontrou problema em ser cooptado para trabalhar no jornal Diário da Manhã, numa revista chamada América e na rádio de Ribeirão Preto. Trabalhou no seriado O Escorpião Escarlate, que fazia concorrência direta com outro herói pulp nacional, O Anjo, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Mais tarde os dois rivais estariam juntos num filme dirigido por Ivan Cardoso, com script de Lucchetti - que também escreveu os roteiros (ainda que às vezes sem crédito) de todos os filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e de outras produções de Cardoso.

Ele já escrevia sob pseudônimos anglos como "Frank Luke" e "Theodore Field", e ao longo de sua carreira seria autor de centenas de contos e livros populares de banca de revista usando esses e outros pseudônimos, alguns com a sua própria biografia, retratos e estranhos casos de vida, o que levou Jerusa Pires a tratá-los como heterônimos. O mais complexo deles é o do "tradutor" da maioria dos outros pseudônimos, "T. G. Novais", modelado a partir de incidentes da vida do romancista francês André Malreaux e de episódios da pulp fiction envolvendo O Sombra e outros heróis pulp. A essa altura, Lucchetti declara: "Me chamar de escritor é como colocar um elevador num alpendre. Não combina. Prefiro ficcionista."

A declaração é ambígua - por um lado, sugere que ele vai além da atividade de escrever, ao circundar o ato da escrita com um contexto ficcional, inventado; por outro, é um modo de admitir que, em sua atividade de escritor profissional de anônimos livrinhos populares ou de livros sob encomenda sobre horóscopo, sonhos e esoterismo, não é possível lhe atribuir um status de artista literário.

E de fato, assim como outros autores de ficção de gênero, despretensiosos em termos literários, Lucchetti exprime alguma desconfiança com respeito ao intelectualismo literário. Chega a ser divertido enxergá-lo escorregando para longe das questões mais intelectuais da Prof.ª Jerusa, sempre retornando a títulos de livros e revistas, nomes de autores, editores e outras personalidades, e idéias para histórias - ou seja, para a lida prática, concreta apesar de toda a sua ficcionalização da atividade da escrita.

Isso não vem sem um preço. O preço a pagar por se tornar uma presença tão difundida num campo que precisa de heróis e ícones, de escrever centenas de textos perecíveis num meio em que impera o anonimato autoral, é justamente o risco de se perder dos seus próprios projetos pessoais. "Isso é terrível", ele disse, "porque enquanto estou escrevendo - eu passo semanas, meses, anos escrevendo esse tipo de livro - está em detrimento daquilo que eu queria escrever..." Seu livro O Crime da Gaiola Dourada, de 1979 (o único livro do autor citado na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de 2001), é considerado uma referência dentro do romance brasileiro de mistério, e aparentemente Lucchetti ainda não teve a chance de escrever (ou de publicar) mais obras semelhantes.

Não é à toa, portanto, que O Homem dos 1000 Livros trate tanto de obras inacabadas ou inéditas, como o seu elaborado romance com Sherlock Holmes, um dos seus personagens preferidos, como protagonista, e que teria sido submetido à Companhia das Letras na mesma época em que saiu O Xangô de Baker Street (1995), de Jô Soares. Essas discussões de trabalhos inéditos acabam por ilustrar um pouco mais do processo criativo de Lucchetti, de como suas idéias iniciais são transformadas em contos e romances.

Boa parte das atividades de Lucchetti no campo da ficção popular foram como editor. Cheguei a trabalhar para ele num projeto junto à Editora Fittipaldi, por volta de 1994, e gostaria que O Homem dos 1000 Livros tivesse dado mais atenção a esse lado. Não obstante, há muitas anedotas e depoimentos que denotam o quanto a vida de um escritor profissional é cercada de amadorismo - e de pilantragem. Lucchetti reclama, por exemplo, da insistência de uma editora carioca que foi uma das líderes do segmento de livros populares durante a década de 1970, em empregar house names (pseudônimos usados pela editora) que exploravam a confusão com autores americanos best-sellers.

Essa editora publicava pseudotraduções do inglês produzidas na verdade por autores espanhóis, em regime de linha de produção. Quando surgiu a idéia de usa escritores brasileiros em sistema semelhante, também surgiu o argumento de que o brasileiro não tinha a disciplina necessária. Lucchetti e outros provaram o contrário.

Há no livro, com certeza, informações ricas para quem se interessa por essa face da indústria editorial e da atividade do escritor brasileiro tão pouco notada por pesquisadores e críticos. Emerge do volume a figura de um malabarista da escrita, homem que deixou sua marca também nos campos dos quadrinhos, do cinema, do rádio e da cultura popular nacional como um todo. Lucchetti admite que sua escrita tem pouco a ver com a realidade brasileira. Ele mesmo se imagina um inglês vitoriano acidentalmente reencarnado nos trópicos. Ficou para um cruzamento da ficção de crime e do mainstream literário, liderado por Rubem Fonseca, a tarefa de explorá-la - e menos na linha do romance inglês do crime cerebral que Lucchetti prioriza, e mais na linha do hard-boiled americano - e mostrar o potencial do gênero para a literatura brasileira.

Lucchetti é portanto menos um herói da ficção de gênero nacional por abrir caminhos para a sua absorção pelo nosso contexto, e mais por oferecer, por sua história de vida, um ethos alternativo àquele que impera na ficção literária - o do artista burguês, inspirado, elitista, irônico e distanciado das preocupações populares. Lucchetti oferece como antídoto o ethos do escritor popular, prolífico, entusiasmado por tudo o que se refere ao seu ofício e sempre disposto a engajar o leitor e abstraí-lo da opressão cotidiana. E sem com isso deixar de incorporar reflexões e circunstâncias do escritor e da literatura no século 20.

O livro teria ainda mais interesse e solidez se não se atirasse diretamente no formato entrevista, fornecendo mais informações contextualizadoras da vida de Lucchetti e das suas áreas de atuação. Fica claro, porém, que o afã dos idealizadores do livro é o de dar voz a um autor que dificilmente teria chances de falar (ou escrever) para o ambiente universitário. Nesse sentido, este volume, enriquecido com raras imagens de livros e revistas populares do passado, e com uma sessão com citações salteadas do próprio Lucchetti, cumpre com excelência a sua proposta.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Reprodução
Lucchetti conta como foram os seus primeiros passos como leitor e autor de literatura pulp

Exibir mapa ampliado

Mais de Roberto de Sousa Causo

» Cheiro de predador

» DROPS

» DROPS

O que Roberto de Sousa Causo vê na Web

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol