Roberto de Soua Causo
De São Paulo
Benicio: Um Perfil do Mestre das Pin-Ups e dos Cartazes de Cinema, Gonçalo Junior. São Paulo: CLUQ, Coleção Via Brasil, 2006, 223 páginas. Capa de Benicio. Prefácio de Paulo Duarte. Ilustrado. Para adquirir, escreva para cluq@terra.com.br.
Certamente, no mundo da literatura popular o ilustrador também possui o seu status de Cult, e José Luiz Benicio da Fonseca é um dos heróis brasileiros desse campo, homenageado com esse volume assinado por Gonçalo Junior, que em 2008 nos deu O Dicionário de Monstros (Ediouro), e em 2004 o seu mais famoso A Guerra dos Quadrinhos (Companhia das Letras).
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Nascido em dezembro de 1936, em Rio Pardo, RS, Benicio viria a ser "o mais influente artista gráfico brasileiro das três últimas décadas do século 20", em mais de 50 anos de carreira, segundo o autor, que prossegue afirmando que "Não é possível falar em iconografia e design gráfico brasileiro na segunda metade do século 20 sem fazer referência ao seu traço e às interferências que impôs no cinema e no mercado de livros - para bancas e livrarias".
De fato, aqueles que, como eu, foram adolescentes na década de 70, seria impossível não registrar o impacto desse ilustrador. Eu costumava comprar a coleção ZZ7 e os livros de ficção militar de HH e alguns de faroeste, da Editora Monterrey do Rio de Janeiro, todos com as capas - e às vezes com ilustrações de frontispício - assinadas por Benicio, um artista que ajudou a definir a atmosfera dos anos 70 no Brasil, particularmente quanto à sexualidade da minha e de outras gerações que assistiram aos filmes de pornochanchada (eu raramente conseguia entrar no cinema pulando o muro para ver esses filmes) ou liam os livros estrelados pela espiã Brigitte Montfort.
E são justamente essas digitais de Benicio na superfície do zeitgeist (para usar essa palavra tão em moda) que interessa a Gonçalo Junior. Seu livro é uma pesquisa muito bem realizada não apenas da vida de Benicio, mas das raízes e da evolução das áreas da cultura brasileira em que ele atuou. Curiosamente, o artista gaúcho começou a vida como pianista em festinhas, assumindo logo depois um programa de rádio em Porto Alegre, antes de ir para o Rio de Janeiro e adotar de vez a carreira de ilustrador.
No ínterim, Benicio teve passagens pela ilustração publicitária e pelo retoque e produção de histórias em quadrinhos junto à saudosa RGE, numa época em que artistas nacionais tinham que ampliar (mantendo o traço original) as imagens dos quadrinhos estrangeiros, para fazê-los caber no formato das revistas brasileiras.
Caracterizado pela beleza e glamour das mulheres que representa (ele é certamente um artista de pin-ups e de glamour, que é como chamam as pin-ups bem vestidas, quando vestidas), Benicio começou deixando sua marca no mercado das revistas femininas, que nas décadas de 40 e 50 publicavam contos ilustrados, ou matérias de moda que, trazendo ilustrações, economizavam nos direitos estrangeiros de fotografias. Revistas como Querida, Radiolândia (onde foi também cartunista), e, principalmente, Cinderela. Publicações que também exploraram sua grande habilidade de retratista, com imagens de celebridades nacionais e estrangeiras.
Para mim, o capítulo 3 é um dos mais interessantes, por tratar da ligação dele com a Editora Monterrey, criada em 1956 por dois espanhóis, Luis de Benito e Juan Fernandes Salmeron, que publicavam a revista O Coyote, do herói pulp de faroeste nomeado no título, criado na Espanha. Segundo Gonçalo Junior, "a série O Coyote marcou o início da publicação de livros de bolso no país". Em 1961, com a entrada de outras editoras nesse segmento - a Bruguera e a Tecnoprint -, a Monterrey variou os gêneros, lançando a série FBI. Em 1963 a editora foi remodelada pelo jornalista pernambucano José Alberto Gueiros, que recuperou um folhetim publicado originalmente em 1948, as pseudo-memórias de uma espiã francesa: Giselle: A Espiã Nua que Abalou Paris, de autoria de David Mansur & Jean Manzon. Gueiros comprou os direitos e reescreveu boa parte do livro (com uma ajudinha do seu tio, o famoso poeta Augusto Schmidt). O sucesso nas bancas foi tanto, que, perante o fato da heroína ter morrido no fim do livro, foi preciso inventar uma "filha", Brigitte Montfort, para capitalizar o sucesso da "mãe". Giselle era uma agente da resistência francesa, enquanto Brigitte era uma 007 se saias, a serviço da CIA americana. Gueiros teria escrito os primeiros 50 volumes, e então a série foi terceirizada para aqueles sweat-shops espanhóis, embora se saiba que o prolífico brasileiro Hélio do Soveral também tenha trabalhado nas aventuras de Brigitte Montfort. Gueiros, de qualquer modo, metia o dedo criativo em muitos dos originais.
Benicio deu a cara da morena heroína de olhos azuis, baseando-se na fisionomia da socialite carioca Maria de Fátima Priolli. Gueiros funcionava como editor de arte, enviando cartas ao artista, que então retornara a Porto Alegre depois de uma carreira meteórica na publicidade. As cartas de Gueiros, com alguns parágrafos reproduzidos em Benício, eram hilariantes, complexas - e dificilmente representáveis nas dimensões das capas minúsculas de estrutura quase sempre monotemática: Brigitte aparecendo insinuante ou seminua, com uma arma na mão e um cenário esboçado ao fundo. Em função, certamente, da pressão dos prazos. Daí, de qualquer modo, a dificuldade de aceitar Benicio como "o Norman Rockwell brasileiro", como muitos o apontam; Rockwell pintava cenas complexas (e a óleo, e não gouache, como Benicio), e fazia a crônica da vida americana. Mesmo os cartazes de cinema de Benicio, mais complexos e ricos de elementos, pouco tinham de "rockwelliano". Imagens como a da capa de História de Tubarões (FBI), reproduzida na página 163, sugerem outros termos de comparação, como o também americano Robert McGuinnis, autor de capas sensuais de livros de hard-boiled, que também prima por uma economia temperada de muita atenção e bom gosto quanto a roupas e objetos. Benicio criou ainda uma identidade visual para os livros do herói hard-boiled K. O. Durban, que sempre aparecia com seu peito peludo (mais 007!) exposto.
Gonçalo Junior dá a entender que Benicio nunca precisou de empresários para sair de um setor e ir para outro, ou para alargar sua área de atuação. Sua arte sempre foi tão vistosa, perfeccionista e eficaz na comunicação com o leitor ou espectador, que ele era procurado espontaneamente seja por gente de publicidade, das editoras ou do cinema.
É o que teria acontecido com o diretor e produtor Adolfo Chadler em 1968, solicitando a elaboração do cartaz do filme Os Carrascos Estão entre Nós, um drama sobre nazistas escondidos na América Latina. Daí, Benicio estabeleceu colaboração duradoura com o produtor e distribuidor ítalo-brasileiro Oswaldo Massaini, criando cartazes para filmes como O Pagador de Promessa, A Madona de Cedro, Independência ou Morte, e dezenas de outras produções de Massaini e outros, entre os quais O Profeta da Fome, um dos primeiros filmes do Zé do Caixão. É com Zé do Caixão que Benicio e R. F. Lucchetti (que é citado no livro de Gonçalo Junior) cruzam pela primeira vez suas atuações, ainda que não em pessoa.
Fica claro que Benicio vai na direção oposta à de O Homem de 1000 Livros - aqui sobra contextualização, mas o leitor pode fechar o livro concluindo que conhece apenas traços da vida e da personalidade de Benicio, e pouco de sua técnica de ilustração. Daí inclusive a expressão "um perfil" no lugar de "uma biografia", no título. A vida de Benicio é apenas o fio condutor numa viagem pela vida cultural brasileira, especialmente nos anos da ditadura, nas décadas de 1960 e 70. O livro não se presta ao culto da personalidade, nem traz apenas anedotas obscuras do meio editorial ou cinematográfico - ele avalia e analisa, com rapidez mas também com profundidade e interesse.
O melhor fica para o fim, supõe-se, quando Gonçalo Junior discute as origens e a evolução da pornochanchada no cinema nacional, e o papel de Benicio com cartazes chamarizes de bilheteria. O autor dá ênfase a como espectadores e até mesmo atrizes reagiam ao modo como ele valorizava as figuras femininas nos cartazes - às vezes além do que seria visto na tela, mas sempre na corda bamba entre o aceitável pela censura e a necessidade de atrair o espectador. Gonçalo também nota a colaboração fiel de Benicio com cartazes dos filmes dos Trapalhões (entre os quais algumas paródias de FC e fantasia), observando que ele se destacou tanto no segmento de cinema adulto, quanto no de infanto-juvenil. Agora que toda a filmografia dos Trapalhões ressurge em DVD, as imagens de Benicio para essas comédias bem brasileiras tornam-se novamente acessíveis ao público.
Benicio é enriquecido por inúmeras ilustrações, desde os primeiros esboços da infância, até um caderno com 16 páginas de reproduções coloridas. Todos os segmentos da vida profissional do artista estão representados: ilustrações internas e capas, cartazes e peças publicitárias, capas da revista Veja, história em quadrinhos, caricaturas, e retratos e também fotos familiares e profissionais (com a turma da RGE, por exemplo). Há pouco no livro para quem é interessado exclusivamente em ficção científica e fantasia. Algumas imagens que contribuiriam para uma iconografia da FC/F no Brasil aparecem nas páginas 14 (Trapalhões) e 16 do caderno a cores, na página 139 (o cartaz de Elke Maravilha contra o Homem Atômico), 153, 163 (a capa do livro Ameaça de Outro Planeta, da Monterrey) e 205 (capa de Raio Hidro, da série ZZ7). Benicio certamente produziu muito mais exemplos.
Mas quem se interessa pela história dos livros populares e de gênero no Brasil, assim como pelo cinema nacional, história em quadrinhos, e até mesmo pelo rádio, pode encontrar elementos de interesse nesta grande viagem no tempo escrita por Gonçalo Junior e ilustrada por Benico. Não obstante probleminhas de revisão, é uma jóia de livro, que deveria ter aparecido bem antes, e que mostra, por sua simples existência, a falta que fazem explorações semelhantes da vida e da obra de outros heróis da cultura popular brasileira.
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Reprodução
Benicio é um dos heróis brasileiros no campo da ilustração de literatura popular
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