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Segunda, 16 de fevereiro de 2009, 07h54

Castelos e tesouros

Salette Garcia - Portal SJ Online/Terra Magazine
Vista do castelo do deputado Edmar Moreira, em São João Nepomuceno (MG)
Vista do castelo do deputado Edmar Moreira, em São João Nepomuceno (MG)

Cláudio Lembo
De São Paulo

Os castelos possuem inúmeras vertentes simbólicas. Podem indicar um local seguro, onde os inimigos não conseguem penetrar. O espaço próprio dos contos de fada na espera da chegada da princesa. Como também a suprema demonstração de prestígio e força.

A Europa é marcada por castelos. Todos os países europeus possuem castelos de formas diferentes, mas sempre destinados a preservar a intimidade e as riquezas da aristocracia. Foram construídos durantes séculos e se mantém ao longo dos séculos.

Por aqui, os castelos não marcam a nossa geografia. Às vezes, algum excêntrico edifica um exemplar. Todos olham - podem até admirar - mas sentem-se desconfortáveis com o artificialismo da construção. Não tem nada a haver com nossa cultura, clima e tradições.

Apesar destas evidências, nas últimas semanas, encontramos nas páginas dos jornais, nos sites da internet e nos noticiários das televisões a estranha figura de um castelo lançado em plena zona agrícola.

Na sua grandeza, perturbava a imaginação dos mais equilibrados seres humanos. As explicações foram muitas. A mais plausível é sua construção no aguardo da abertura dos jogos de azar. Estes permitidos o inusitado edifício se tornaria um cassino.

O jogo - apesar de praticado por toda a parte - continua proibido e, assim, o castelo tornou-se um imenso símbolo das fantasias nacionais. Sempre se age mediante a malícia de alguns e a fragilidade moral de muitos.

O castelo sem história, tradição, finalidade - pela ausência da legalização dos jogos de azar - transformou-se em símbolo perfeito da vida política contemporânea. Aqui e em toda a parte. Vale aparecer. Ser notado. Esbanjar aparência de riqueza.

Levar vantagem em tudo. Tornou-se mote orientador da existência de muitos. Não importam os meios para alcançar a ostentação. O importante é demonstrar poder. Real ou meramente aparente.

A observação vale para políticos e empresários. Dos políticos exige-se transparência plena. Nem assim em alguns casos a cupidez conhece limites. Muitos empresários não são diferentes. Até parecem piores.

A crise financeira norte-americana é símbolo desta realidade. Dirigentes de instituições financeiras, titulares de altos vencimentos, sem qualquer escrúpulo, fraudaram confianças e romperam valores estabelecidos.

Milhares de pessoas que confiaram nos administradores de seus patrimônios, muitas vezes amealhados em anos de trabalho idôneo, viram-se conduzidos à miséria graças às artimanhas financeiras.

Se as autoridades estadunidenses não agirem contra os petulantes dirigentes de seus bancos insolventes, não haverá condições para se restabelecer o conceito de truste, a tão decantada confiança.

Sem confiança torna-se impossível a preservação de laços entre as pessoas. Surge a inevitável fragilidade ética nas relações e, a partir desta, toda a sociedade é contagiada.

Não bastam os pacotes milionários aprovados pelo Congresso americano. Podem preencher vazios contábeis. No entanto, não fazem renovar a confiança perdida.

Esta só ressurgirá se autoridades judiciais dos Estados Unidos agirem com firmeza e destemor. A passividade até agora demonstrada indica uma ausência de vontade de punir.

Sem punição a fé do cidadão comum na República não se restaurará. Novos fatos acontecerão. Dizem os espanhóis, com sabedoria, que o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra.

Os Estados Unidos sempre se apresentaram com repositório de valores e princípio. Os últimos acontecimentos demonstram a fragilidade das instituições fiscalizadores do país.

Trata-se de episódios extremamente graves para serem considerados como normais - vale o mesmo para o Brasil. Devem ser examinados com o rigor da lei penal.

Até o momento, o presidente Obama, esperança de todos os povos, exerceu sua ascendência apenas como financiador de instituições insolventes. Tudo bem. O sistema deve voltar a funcionar com normalidade.

Falta agora agir contra os operadores de má-fé, inidôneos e inescrupulosos. Caso contrário, seu patrimônio de credibilidade ruirá. Será mau para os americanos e para todos os povos.

Espera-se do presidente dos Estados Unidos fortes ações contra aqueles que, mediante artifícios virtuais, criaram falsa imagem de pujança financeira e apropriaram-se de riquezas honestamente acumuladas.

A pedra está à frente. Só o homem é capaz de tropeçar duas vezes na mesma pedra.


Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

Fale com Cláudio Lembo: claudio.lembo@terra.com.br

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