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Quarta, 18 de fevereiro de 2009, 08h05

O Fotógrafo

Amilcar Bettega
De Paris

O fotógrafo pensou que estava sozinho e sentou-se. Um imenso janelão de vidro encardido pela maresia filtrava a luz um tanto baça do sol que descia na praia. Ele pousou a câmera na mesa. Seu olhar buscou o mar rapidamente, não se detivera em nada mais desde sua entrada no café. Fazia frio lá fora e ventava um pouco, mas o céu estava ainda muito azul. As tonalidades se alteravam depressa, mas o céu ainda estava muito azul. No interior do café a luz era quente e pastosa. Talvez a natureza do vidro, ou a própria maresia agarrada à sua pele, falseasse um pouco o tom amarelado que preenchia cada centímetro cúbico daquele aquário à beira-mar. O fotógrafo estava ali, sentado. À espera.

O fotógrafo levou a mão à câmera e a acariciou como um pai a uma filha. Depois deixou a mão pousada sobre o aparelho, como se a esquecesse ali. O barulho das ondas, assim como o do vento, permaneciam lá fora. Chegavam apenas através de um murmúrio surdo contra o vidro. O fotógrafo continuava olhando para o mar, a mão descansando sobre a câmera, que também parecia olhar para o mar, com sua objetiva apontada para a espuma branca das ondas rebentando na areia entre pontos brilhantres de luz e de sal.

Depois de algum tempo naquela posição, fixo, a figura recortada contra o grande janelão de vidro que se voltava para o mar, o fotógrafo levantou e dirigiu-se à porta. Ergueu a gola do casaco e saiu. A sua câmera ficara ali, pousada sobre a mesa, as lentes apontadas para o mar, o tiracolo espalhado sobre a superfície da mesa feito uma cobra adormecida.

O fotógrafo contornou o café, desceu os degraus que o levavam até a praia. Parecia caminhar com dificuldade na areia fofa demais. Não havia ninguém na praia e suas pegadas eram a única marca na superfície lisa da areia. Ele agora estava próximo de onde as ondas chegavam. Certamente seus sapatos já estavam molhados e seus pés esfriavam-se. O fotógrafo parou, com as mão enfiadas nos bolsos dos casaco, de frente para o mar. Ele olhava.

Passados alguns instantes ele começou a caminhar ao longo da praia. Ainda com as mãos nos bolsos, o olhar sempre fixo no horizonte, ele afastou-se tomando um rumo à direita do café. Rapidamente a sua silhueta perdeu-se no lusco-fusco do entardecer. Mas não tardou a aparecer de novo, agora bem mais perto, a uns cinco metros à frente do janelão do café. Ele veio e parou outra vez, no espaço em branco entre o mar e aqui.

A janela o enquadrava perfeitamente. As abas do casaco e os cabelos se agitavam no vento. A figura comprida, de costas, as mãos na cintura, se impunha contra o mar ao fundo, cujas ondas já não tinham mais em sua espuma os pontos fulgurantes.

O interior do café submergia em uma penumbra quieta. Estava escuro e quase já não se via mais nada.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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