
Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)
Quem achava que a transferência do parque fabril têxtil mundial para a Ásia significava o fim das pesquisas no ocidente pode ter se enganado. Uma notícia já repercute no meio industrial relacionado às cadeias de moda, vestuário e tecidos desde o começo deste mês: foi anunciada a implantação de um centro de tecnologia e inovação têxtil na região da Galícia, noroeste da Espanha.
O projeto nasce de um projeto de parceria pública e privada, na qual incluem a administração local, três universidades e significativas empresas do setor, que tem orçamento inicial de 336 mil euros (cerca de 1 milhão de reais) e previsão de estar em pleno funcionamento até o final de 2010.
A proposta é respaldada no fato de que as indústrias têxtis e de confecções na Galícia representam cerca de 10% da indústria de transformação, é responsável por 17 mil empregos e de 30% das exportações da cadeia têxtil espanhola. Vale lembrar que em época de crise econômica mundial e anúncio oficial de recessão na zona do Euro, esse tipo de iniciativa é um bom sinal.
O Centro Tecnológico Têxtil congregará as funções de consultoria para as empresas, de formação para a melhoria da qualificação profissional dos recursos humanos e de promoção por meio de contato com os agentes do setor.
Além disso, o instituto tem como missão ser referência internacional na pesquisa e desenvolvimento, com o intuito de aplicar novas tecnologias para esta indústria e se tornar responsável pela criação e certificação de um padrão galego para os produtos e serviços do seu pólo produtivo, onde sejam reconhecidas suas vantagens competitivas relacionadas com qualidade e custos.
Até o momento, dentre as empresas anunciadas como envolvidas no projeto, está incluído o grupo Inditex, um dos maiores do mundo, criador do sistema fast-fashion, e detentor das marcas Zara, Zara Home, Pull and Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho e Uterqüe. Há ainda o envolvimento da cadeia de varejo Cortefiel, do grupo Adolfo Domínguez, além Sociedad Textil Lonia, da Roberto Verino, Pikolinos, Caramelo e Bimba & Lola.
Do lado acadêmico, as universidades envolvidas são a Escuela Superior de Diseño y Moda de Galicia, a Universidad de Vigo e a Universidad de A Coruña, sendo que esta última sediará o Parque Tecnológico no seu campus de Elviña. Vale lembrar que todos os parceiros frisam que a proposta está aberta para todas as empresas que queiram se tornar colaboradoras da iniciativa.
Como já é unanimidade entre especialistas, momento de crise é momento de ajustes e de oportunidades. A Espanha já sinalizou que resolveu priorizar uma indústria de mão de obra intensiva, e pretende em médio prazo competir ferozmente pelo mercado mundial de roupas. Há pelo menos uma certeza, de que a Europa deverá dar preferência a produtos manufaturados na Comunidade Européia.
Em janeiro passado, no Brasil, foi anunciada a criação do Sistema Nacional de Moda, numa articulação de entidades representativas dos elos da cadeia produtiva de moda (ABEST, ABIT, Assintecal, Abicalçados, IBGM, Abihpec e CICB) com instituições governamentais como o Ministério da Indústria e Desenvolvimento, Apex-Brasil, BNDES, Ministério do Turismo, Ministério da Cultura, SECOM e o Sebrae.
A proposta nacional, também lançada em momento de crise, visa alinhar objetivos estratégicos e articular fornecedores e compradores da cadeia, desde o curtume até o calçado, desde a exploração do minério até a jóia acabada, desde o fio até a roupa. Sente-se no ar muitas outras propostas inovadoras e promissoras, que em breve deverão ser anunciadas.
Como o ano só termina com o carnaval, parece que já se respira boas novas.
Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br
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