
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
A revista ISTOÉ de 18/02/2009 faz reportagem sobre os 50 anos de vida artística de Roberto Carlos. Mas fala também de outras coisas, pouco ligadas à sua música, digamos. A chamada diz que ele agora prefere "ficar" do que namorar. Não, não vou falar das insinuações da reportagem sobre sua vida sexual (que Priapo o abençoe!). Nem dos sentidos de "ficar". O tema é mesmo "preferir".
A construção citada pode fazer ranger os dentes dos cultores de manuaizinhos de língua portuguesa (Não erre mais et caterva). Mas os fatos não mentem: essa construção, isto é, essa regência é cada vez mais comum. Tanto que aparece numa revista de prestígio, e a autora do texto (Renata Cabral) certamente não imagina que poderia ser alvo de uma inquisição gramatical na redação - se alguém notasse!
Já vi gente boa (tão professores quanto os que trazem o amor de volta) dizendo que não se deve dizer "preferir (mais) do que" porque "preferir" já quer dizer 'gostar mais'. Assim, haveria redundância, e este seria o pecado.
É uma grande bobagem: em língua, tudo é questão de "é assim e pronto", ou seja, não há motivações naturais para as estruturas (nesse nível, bem entendido). O que pode haver são motivações históricas e sociais, mas elas não têm nada a ver com a suposta função das línguas de serem diretas ou não redundantes.
Voltando ao começo: não há nada de motivado nas estruturas linguísticas. Isto quer dizer, por exemplo, que, do ponto de vista do sentido, tanto faz se a estrutura é "acho que" ou "acho de que" (preferir X a Y ou preferir X do que Y, no caso). O que não impede que, havendo duas formas disponíveis (com e sem preposição), a escolha de uma delas possa dever-se a uma razão social ou pragmática.
Há estudos mostrando - ou alegando - que, quanto menos seguro está alguém em relação a uma posição ideológica, política etc., mais usa regências com preposição. Dia desses, por exemplo, FHC, um sábio notório, bem educado, em um debate sobre drogas, falou da necessidade de discutir a descriminalização da maconha, e acrescentou: "não estou afirmando de que...".
Sim senhor! Os fãs dele e críticos da gramática de Lula podem pedir a fita na Globo. Está lá. Mas não é um erro! Um bom analista diria que FHC emitia uma opinião discutível, em relação à qual estava um tanto titubeante, e isso explica seu "de" (quem quer ver mais dados desse tipo leia (De) que falamos?, de Maria Cecília Molicca, Rio: Tempo Brasileiro. Há exemplos em várias línguas, do português ao holandês).
Quase ia esquecendo que o assunto é a regência do verbo "preferir". Volto a ela. Não faço muito isso, mas fui ao Houaiss, para ver o que ele dizia. E vejam o que encontrei, ao pé da página eletrônica:
"O uso, embora freq(uente) no Brasil, de preferir seguido de do que (prov(avelmente) por influência da construção comparativa mais ... (do) que (gosto mais deste do que daquele; prefiro este do que aquele)) não é aceito pela norma culta da língua, embora se abone em escritores como Mário de Andrade, Cecília Meireles e Oswald de Andrade e mesmo em clássicos como Manuel Bernardes, Garrett e Camilo, como o registra Antenor Nascentes em O Problema da Regência, 3ª ed., 1967; o mesmo quanto a preferir antes, construção de expressividade pleonástica, mas que se abona em Camilo, Eça de Queirós, Euclides da Cunha etc."
Observação, antes que um aventureiro etc.: Houaiss não diz que "preferir" significa "gostar mais", mas que a regência não padrão decorre provavelmente de analogia com a regência de "gostar", o que é bem diferente.
O que me impressionou foi a lista de autores consagrados que usaram a regência considerada errada - pelos paupérrimos manuais dos Ronaldo Esper da língua. É uma lista tão interessante que, acho, vou mudar de ares e ficar na companhia deles. Até porque do lado em que estou normalmente (neste caso - acho!) estão muitos chatos, especialmente os que nem escrevem nada de interessante nem sabem explicar direito os casos de gramática que decidem analisar.
Na verdade, o caso de "preferir" apenas ilustra o que é muito comum nas línguas. Para cada caso que se pensa (que os "nossos" Esper pensam...) que é uma novidade, sintoma de decadência da juventude ou da cultura, é fácil mostrar que se trata de caso antigo. Menciono dois exemplos: as orações adjetivas e o emprego não locativo de "onde".
Muita gente pensa que relativas do tipo "A casa que eu moro" ou "A casa que eu moro nela" são construções recentes, dos pobres. Mas Tarallo mostrou que existem desde sempre. E ele pesquisou seus dados no português escrito, óbvio! Quero dizer: imagine-se como a coisa não era na fala! (ver A pesquisa sociolinguística, S. Paulo: Ática, para um resumo).
Muita gente também arrota que dizer coisas como "Fui falar com o chefe onde me disse..." é coisa de funcionário iletrado ou de jogador de futebol. Pura ignorância.
Já contei aqui que recebi há algum tempo um cartão de Portugal que era a capa de um livro dos 1600, cujo título era A PRIMEIRA PARTE DA CRONICA DO EMPERADOR CLARIMVNDO, DONDE OS REYS DE PORTVGAL DESCENDEM.
Não há nada de novo sob o sol. Podem crer.
Terra Magazine
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Reprodução
Segunda revista, Roberto Carlos "agora prefere 'ficar' do que namorar"
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