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Quinta, 19 de fevereiro de 2009, 10h28

De jeito nenhum, de forma nenhuma, aqui não

Thomas L. Friedman
Do The New York Times

NOVA DÉLI, Índia - Há nove corpos - todos de homens jovens - no necrotério de um hospital em Mumbai desde 29 de novembro. Eles estão jogados lá por um tempo, porque nenhuma instituição de caridade muçulmana local concorda em enterrá-los no seu cemitério. Esta é uma boa notícia.

Os nove corpos pertencem a terroristas muçulmanos paquistaneses que participaram de uma carnificina insana em Mumbai em 26 de novembro - o equivalente na Índia aos ataques de 11 de setembro - atirando em mais de 170 pessoas, incluindo 33 muçulmanos, dezenas de hindus, bem como cristãos e judeus. Mataram por matar. Eles nem mesmo deixaram uma mensagem.

Todos os nove ainda estão no necrotério porque a liderança da comunidade muçulmana na Índia resolveu chamá-los pela sua verdadeira alcunha - "assassinos" e não "mártires" - e está se negando a permitir que eles sejam enterrados no cemitério muçulmano principal de Mumbai, o Bada Kabrastan, com 7,5 acres, administrado pela Associação Muçulmana Jama Masjid.

"As pessoas que cometeram este crime hediondo não podem ser chamadas de muçulmanos", disse um porta-voz da associação, Hanif Nalkhande, ao The Times de Londres. Presume-se que em algum momento eles terão de ser enterrados, mas os muçulmanos de Mumbai mantêm sua postura desafiadora.

"Os muçulmanos indianos se orgulham de ser tanto indianos quanto muçulmanos, e o terrorismo em Mumbai foi uma guerra tanto contra a Índia quanto ao Islã", explicou M.J. Akbar, o editor indiano muçulmano da publicação Covert, um periódico investigativo indiano. "Não há lugar para o terrorismo na doutrina islâmica. O termo no Corão para a morte de inocentes é 'fasad'. Os terroristas são fasadistas, não jihadistas. Em um belo verso, o Corão diz que matar inocentes é quase o mesmo que matar toda uma comunidade. Já que os (...) terroristas não são nem indianos e nem verdadeiros muçulmanos, eles não têm direito a um enterro islâmico em um cemitério muçulmano indiano."

Por certo os muçulmanos de Mumbai são uma minoria vulnerável em um país predominantemente hindu. No entanto, sua provocação aberta aos terroristas islâmicos é algo que se destaca. Destaca-se contra uma paisagem nefasta de assassinos suicidas muçulmanos predominantemente sunitas que atacam civis em mesquitas e mercados - do Iraque ao Paquistão e Afeganistão - que são tratados pela mídia árabe, em veículos como a Al Jazeera, ou por líderes espirituais extremistas islâmicos e sites da internet, como "mártires" cujas ações merecem elogio.

Exaltar ou justificar os militantes suicidas como "mártires" só fez difundir ainda mais este fenômeno medonho - onde homens e mulheres jovens muçulmanos são recrutados para matarem a si mesmos e aos outros. O que começou de forma isolada no Líbano e em Israel agora proliferou para se tornar uma ocorrência quase diária no Iraque, Afeganistão e Paquistão.

É uma ameaça a qualquer sociedade aberta porque, quando as pessoas transformam o próprio corpo em bombas, elas não podem ser detidas, e as medidas necessárias para contê-las exigem suspeitar e revistar todos em qualquer evento público. E estes indivíduos são uma ameaça em particular para as comunidades muçulmanas. Não é possível construir uma sociedade saudável com homens-bomba, cujo único objetivo é provocar o caos, matando exclusiva e indiscriminadamente o maior número possível de civis.

Se um assassinato-suicida for considerado legítimo por uma comunidade para atacar seus "inimigos" no exterior, logo ele será utilizado como uma tática contra os "inimigos" em casa, e é exatamente isto que tem acontecido no Iraque, Afeganistão e Paquistão.

A única maneira eficaz de impedir esta tendência é se "a aldeia" - a própria comunidade muçulmana - disser "basta" Quando uma cultura e uma comunidade religiosa abertamente destituem a legitimidade deste tipo de comportamento, de forma aberta, clara e consistente, é mais importante do que detectores de metal ou policiamento reforçado. Religião e cultura são as fontes mais fundamentais de coibição em uma sociedade.

É por isto que os muçulmanos da Índia, que são a segunda maior comunidade muçulmana no mundo, atrás apenas da Indonésia, e com a mais profunda tradição democrática, prestam um grande serviço ao Islã ao retirar a legitimidade dos assassinos-suicidas recusando-se a enterrar seus corpos. Isso não deterá esta tendência do dia para a noite, mas ajudará aos poucos.

"Os muçulmanos de Bombaim merecem ser parabenizados por terem tomado esta importante decisão", disse Raashid Alvi, membro muçulmano do Parlamento da Índia pelo Partido do Congresso. "O Islã diz que se você comete suicídio, então será punido mesmo após a morte."

O fato de os muçulmanos indianos tomarem esta posição certamente se deve, em parte, ao fato de viverem, serem produto e se sentirem autorizados por uma sociedade democrática e pluralista. Eles não se sentem intimidados por líderes religiosos extremistas e não têm medo de se manifestar contra o extremismo religioso em seu meio.

É por isto que há muito poucos, se houver, muçulmanos indianos integrando a Al Qaeda. E é por isto também que, por mais incrivelmente caro e por mais incerto que seja o resultado, tentar construir sociedades decentes e pluralistas em locais como o Iraque não é algo tão louco quanto parece. É preciso que se comece de algum lugar e, sem a existência de sociedades árabes muçulmanas em que seus membros se sintam no controle de suas vidas e autorizados para lidar com seus próprios extremistas - militar e ideologicamente - esta tendência não vai desaparecer.


Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Reuters
O Corão diz que matar inocentes é quase o mesmo que matar toda uma comunidade, diz Friedman

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