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Sexta, 20 de fevereiro de 2009, 07h48

Sobre a sorte e o azar

Tony Monti
De São Paulo

Eu não quero brindes. Não me agrada trabalhar para pagar o copo que vem junto com o refrigerante que eu compro. Quero pagar menos e não receber o copo. Quando sorteiam automóveis na televisão, eu imagino que, em algum lugar, de algum modo, o sorteio faz o dinheiro do mundo se acumular em vez de ser distribuído. A sorte é parte da ilusão que mantém sob controle os que nunca terão muita coisa.

Na semana passada, em vez de uma casa, em vez de dinheiro, estavam sorteando trabalho. Remunerado, é verdade. A apresentadora do programa disse "inscrevam-se, nós vamos sortear um emprego por semana", e sorriu depois de chamar o intervalo comercial.

Um dos primeiros contos que li do Borges chama-se "A loteria na Babilônia". O narrador conta como tudo neste lugar fictício era sorteado, como os destinos humanos eram determinados por sorteios feitos pela Companhia, uma espécie de Estado que controla tudo, apesar de nunca mostrar sua face. Talvez nem existisse. Um homem podia acordar rei ou escravo, podia ser condenado à morte e ter a sentença suspensa por um grito segundos antes de a guilhotina ser solta, embora pudesse morrer se sorteassem uma pessoa surda para operar a guilhotina, pois o grito não seria ouvido. Surda em virtude, talvez, de algum outro sorteio. Nesta sociedade, não era estranho que sorteassem empregos.

Esta Babilônia é ficção. Uma das características da ficção, que a faz diferente dos outros textos da sociedade, é a de apresentar uma ilusão que se assume desde sempre como ilusão. Não é preciso desmontar o conto do Borges e apontar impossibilidades na sociedade descrita, mostrar talvez que é difícil sobreviver sem acordos e comprometimentos que não estejam sujeitos à sorte. O conto não pretende ser real ou verdadeiro, sua eficácia não depende disso.

Por outro lado, o absurdo da especulação de Borges, quando levada a este ponto extremo, não me permite assistir televisão sem achar estranho que sorteiem empregos. O estranhamento às vezes é um desagrado, às vezes é até o prazer de estabelecer uma ordem que relaciona dois fatos (a televisão e o conto, por exemplo).

A sensação do absurdo, que pode ser facilitada por determinados textos, é, de certo modo, oposta à passividade de quem acha que a sorte é uma maneira razoável de ter mais prazer. Falta, na sorte, um projeto (embora exista um projeto na confecção de uma ilusão em forma de sorte).

Sorte e azar me lembram da minha insignificância em um mundo quase indiferente aos indivíduos. Não mais. A expectativa da sorte é potência humana desperdiçada, é abrir mão da possibilidade de produzir significados.

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

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