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Reprodução
A secretária de Cultura do município do Rio de Janeiro, Jandira Feghali, e Adriana Rattes
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Deolinda Vilhena
Do Rio de Janeiro
Desde que voltei ao Brasil, após cinco anos e meio de um doce e voluntário exílio parisiense, sofro com a dificuldade de readaptação. Ora me assusto com o embrutecimento das pessoas, com a falta de educação básica - por favor, obrigada, desculpe, são palavras definitivamente palavras riscadas da língua pátria. Ora tenho todos os problemas do mundo por conta do excessivo barulho das gentes dessa terra. Meu sonho de consumo é um quarto com tratamento acústico onde, meus ouvidos e eu estejamos protegidos do trio elétrico permanente que se instalou no cérebro da população desse país. Mas isso apenas me incomoda.
O que me angustia mesmo é ver a situação da cultura no meu país. Mais particularmente do teatro. Vira e mexe ouço umas sandices, diariamente leio outras, e confesso que venho adiando minha volta ao teatro na tentativa de entender o que se passa, para só então ser capaz de escolher de que lado me posicionar. Não passei uma década estudando o modelo de produção do Théâtre du Soleil, onde ética e estética andam de mãos dadas, para chegar aqui e embarcar na primeira canoa furada.
Há muito queria escrever algo sobre a maneira de administrar o teatro público no Brasil - ou o que restou dele - e de repente ao ver a situação do Rio de Janeiro, o meu eterno balneário amado, a cada dia mais falido, não pude mais calar, mesmo consciente de que arrumarei novos desafetos...
Mas como calar ao ver a secretária de Cultura do Estado do Rio de Janeiro proclamando que vai "terceirizar a gestão da cultura" como anunciava a manchete do jornal O Globo datado de 13 de fevereiro? Como calar ao ler as belíssimas cartas de Aderbal Freire Filho e Camilla Amado alertando sobre os mandos e desmandos "feudais" da secretária de Cultura do Município do Rio de Janeiro, Jandira Feghali. E pensar que votei nela em três eleições. Quanta decepção camarada/companheira. Bons tempos quando existia ideologia. Não por acaso hoje prefiro os ideais.
Pois é, nunca na história desse país tão poucos fizeram tanto mal em tão pouco tempo... E quem quiser que vista a carapuça!
Vivemos numa sociedade na qual é quase impossível delimitar a tênue linha entre o que é arte e o que é produto de mercado, afinal o contexto mundial prega a mercantilização da cultura como grande solução, até porque o mercado nunca aceitou aquilo que ele não pode controlar.
Há anos tento entender como os que fazem teatro nesse país ainda não compreenderam que a salvaguarda da livre criação artística ou cultural - numa democracia, bien sûr - passa obrigatoriamente por um financiamento institucional. Só assim é possível manter a superioridade estética sobre o econômico, mas para isso o poder político deve estar pronto para suportar o custo artístico.
Há dois anos acompanho um arremedo de discussão sobre os benefícios, e malefícios, da lei Rouanet. Não me canso de repetir que enquanto a classe artística - ou o que sobrou dela - bate boca sobre esse 'detalhe', o Governo aproveita para se desengajar mais e mais de suas obrigações.
Digo e repito: leis de incentivo não podem ser o único mecanismo de financiamento da cultura, senão há uma perversão, empresas têm uma lógica guiada por marketing, somente no dia em que o Estado assumir plenamente suas funções, poderá sem complexo voltar-se para o mecenato do setor privado e manter com ele relações adultas e serenas.
É público e notório que a existência de políticas públicas em qualquer área depende de algo chamado voluntarismo político e, a bem da verdade, o Estado brasileiro, assim como os representantes do povo - em tempos de democracia ou de ditadura - jamais demonstraram o menor interesse pela cultura. Teatro então, nem pensar. Quantas vezes um de vocês já encontrou vosso ilustre presidente numa sala de espetáculos?
Uso como exemplo a França, porque lá vivi e lá estudei - fiz até uma tese sobre e na Sorbonne, o que não é pouca coisa - o sistema de produção, que se não é perfeito, é o mais próximo da perfeição.
Não por acaso a França é o país que mais investe em cultura por habitante no planeta. Mas o teatro, espremido entre exigências artísticas e comerciais, pena a encontrar seu ponto de equilíbrio e desde sempre se viu obrigado à buscar apoios financeiros externos. Desde as origens na Grécia. A democracia ateniense previa um financiamento público e cidadão do teatro, considerado elemento central do sistema político.
Na França, o mecenato privado ou real assegura a sobrevivência do teatro desde Charles IX em 1572, mas foi Louis XIV, em 1682 o primeiro a oficializar um apoio financeiro público regular, sob a forma de uma renda anual, à Comédie-Française. Desde então, seja ele liberal ou socialista, é sempre na direção do Estado que se volta o teatro francês.
O uso político da cultura pode marcar uma mudança de regime. A cultura, beneficiando-se de uma imagem positiva no corpo social, frequentemente assimilada ao divertimento, age como uma câmara de eco de "uma arte de governar diferentemente". Foi o slogan adotado pela dupla François Mitterrand e Jack Lang, quando o primeiro, em maio de 1981, ganhou as eleições presidenciais e escolheu o segundo como o primeiro socialista a ocupar o posto de ministro da Cultura. Com Lang e Mitterrand, projeto político e projeto cultural são inseparáveis: a cultura torna-se uma ambição nacional.
Parente pobre do orçamento, sub-equipado e sub-administrado, o teatro era o patinho feio do Estado francês até a ascensão de Mitterrand, graças ao voluntarismo político do Presidente, plenamente incentivado pelo Primeiro Ministro e pelo Ministro do Orçamento, transformou-se em exemplo para o mundo ao ver multiplicado por dois, em francos constantes, o orçamento do Ministério da Cultura em um mesmo exercício fiscal. Foi a primeira e única vez na história da França que um ministério teve esse privilégio e tudo indica que nunca mais venha a acontecer algo parecido. Vale então o registro.
Vem da França também o meu exemplo de como sobreviver entre duas lógicas econômicas em tudo antagônicas, a privada e a pública: apesar da recusa de qualquer ingerência dos poderes públicos o Théâtre du Soleil faz do Estado um parceiro e não um adversário, e ainda que preserve a sua posição geográfica, artística e administrativa autônoma e ferozmente independente, não esquece suas obrigações e nem de prestar contas do dinheiro público recebido.
Conhecido por sua capacidade de pesquisa, pela sua relação constante com a história, pela sua preocupação de criação original e contemporânea, pela sua reflexão do mundo e, sobretudo por sua busca permanente de público, lembrando que um dos efeitos nefastos da subvenção é que a quase totalidade dos teatros subvencionados conforma-se e não procura novos públicos.
O Théâtre du Soleil é também conhecido pela insistência de Mnouchkine em se recusar a usar o patrocínio:
- Primeiro, não é verdade que as grandes empresas comerciais se interessem pelo teatro. E não tenho vontade de, por alguns trocados, me transformar em mulher-sanduíche para iogurtes, marcas de aperitivo ou companhias de aviação. A ideia do patrocínio é apenas um meio para o Estado desobrigar-se de suas funções, o que é uma vergonha...
Mais que um sinal de desengajamento do Estado no domínio cultural, Mnouchkine teme que se instale na França, como aconteceu nos Estados Unidos e no Brasil, "uma cultura de empresa" no lugar de uma política pública da cultura. Recusar o patrocínio, para Mnouchkine e o seu Théâtre du Soleil é uma maneira de mostrar que, pelo menos para os integrantes da companhia, a ética da arte permanece definitivamente um ponto de honra: o artístico não depende e não se vende ao econômico.
Claro que isso tudo tem um preço. Atitudes como essa são para poucos. É preciso coragem e disposição para ganhar aos 70 anos de idade e 50 de profissão - sendo um dos maiores gênios que o teatro mundial já produziu - 1.677 euros por mês, mais ou menos o que ganha um professor primário na França. Mas Mnouchkine tem - como sempre - a deixa certa: porque um ator deveria ganhar mais do que um professor primário?
Impossível não pensar na frase - infeliz ! - de Adriana Rattes, expondo Ana Botafogo, ao dizer que "a terceirização da cultura permitiria ao Estado pagar a nossa primeira bailarina um cachê digno da estrela que ela é". Onde está escrito que cabe ao Estado bancar cachê de estrelas? Por que diabos deveria o Estado pagar a qualquer artista mais do que paga a um professor primário? Entenderam a diferença de raciocínio e mentalidade? Pois é, sexta que vem tem mais...aguardem!
Até lá bom carnaval e, na sequência, feliz ano novo...
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
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