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Segunda, 23 de fevereiro de 2009, 08h01 Atualizada às 10h37

Mídia acrítica contribuiu com agravamento da crise

AP
Para Drummond, a imprensa norte-americana também é responsável por crise
Para Drummond, a imprensa norte-americana também é responsável por crise

Carlos Drummond
De Campinas (SP)

A imprensa americana, com poucas exceções, contribuiu para que a crise atual atingisse grandes proporções. Ao divulgar sem crítica previsões otimistas sobre o mercado de títulos subprime, enaltecer o brilhantismo do maestro Alan Greenspan, ex-presidente do Fed e fazer a apologia dos investidores audaciosos de Wall Street, a mídia reforçou a ficção de que a prosperidade continuaria indefinidamente. As falcatruas no mercado de hipotecas aumentavam mês a mês, mas recebiam pouca atenção por parte dos veículos de comunicação.

Poucos jornalistas alertaram a tempo para o que de fato estava acontecendo no mercado de hipotecas. Carol Lloyd, do San Francisco Chronicle, é uma dessas exceções. Ela escreveu em 2006 um detalhado artigo sobre o caráter envolvente das operações fraudulentas e ruinosas, nas quais, com frequência, a vítima é não só cúmplice como coautora.

No intrincado e multifacetado mundo das fraudes com hipotecas, algumas vezes é difícil separar a vítima do criminoso e o crime de um negócio legal e corriqueiro, observava a jornalista. A explicação é que nos anos de valorização e de taxas de juros baixas o imóvel tornou-se uma obsessão nacional, que conduziu a práticas insanas como estas:

. Avaliadores concordavam em inflar os valores das propriedades (conforme mencionado acima) na expectativa de que o mercado em alta os validasse no mês seguinte.
. Agentes faziam ofertas de imóveis brindando o comprador com quantidades crescentes de dinheiro vivo, a título de estímulo.
. Corretores de hipotecas praticamente empurravam empréstimos para pessoas de baixa renda que, de outro modo, nunca conseguiriam comprar as suas casas.

A advogada Rachel Dollar, representante de clientes em casos de fraude com hipotecas e criadora de um blog sobre fraudes com hipotecas muito visitado, afirma haver um espectro amplo de pessoas envolvidas nesses crimes, desde proprietários ignorantes até criminosos organizados.

Há diferentes níveis de criminalidade, declarou a advogada. Algumas pessoas alegam não saberem ser ilegal o que estavam fazendo. Outras já foram condenadas por fraudes com ações e outros ativos e são profissionais.

Rachel Dollar classifica as fraudes conforme a intenção, de obter a propriedade de um imóvel ou de obter lucro. No primeiro caso, tomadores mentem ao preencher o cadastro para obter um empréstimo ao qual, de outro modo, não teriam acesso. Inflacionando a sua renda, por exemplo, podem obter financiamento para comprar uma casa mais cara do que os seus proventos e o seu patrimônio comportariam. Usando o retorno em dinheiro vivo entregue pelo corretor como entrada, podem parecer compradores merecedores de taxas de juros mais baixas. Nessa situação, são típicos tomadores subprime, mas não planejam o não pagamento da sua dívida. Como investidores ou proprietários, a sua intenção não é fugir com o dinheiro, mas conseguir um teto.

Esse tipo de comprador com frequência não sabe que está violando leis federais ou fraudando emprestadores. Em alguns casos, agentes ou corretores de hipotecas os induziam a solicitar o financiamento não de acordo com a sua realidade patrimonial e de renda, mas conforme o que os bancos queriam.

Já a fraude que visa lucro costuma ser mais complicada e mais explicitamente criminosa. Tipicamente, envolve um número maior de profissionais que conspiram para inflacionar o preço de uma residência. A gangue pode envolver um avaliador desonesto, um corretor de hipotecas, um investidor e um comprador "laranja", isto é, alguém que vende a sua identidade e boa ficha de crédito para a realização de uma transação que o beneficie. Do mesmo modo que no Brasil, há nos Estados Unidos os "laranjas" involuntários, pessoas cujas identidades são roubadas para a aplicação de um golpe. Algumas quadrilhas incluem notários, corretores de imóveis, informantes infiltrados nas empresas e até nas instituições financeiras.

Um aspecto chocante é que muitas dessas práticas eram ensinadas em seminários para pessoas interessadas em enriquecer rapidamente, às quais se ensinava como encontrar "laranjas", por exemplo. Alguns sites da internet procuravam publicamente por "laranjas". Enquanto o mercado estava em alta, todos estavam ganhando dinheiro. As investigações e as punições só começaram a aumentar quando o mercado afundou.

Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp.

Fale com Carlos Drummond: carlos_drummond@terra.com.br

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