Terra Magazine

 

Terça, 24 de fevereiro de 2009, 10h05

A farmácia da floresta

Marina Silva
De Brasília (DF)

A defesa das florestas é ainda muitas vezes criticada, com base no surrado argumento de que é preciso derrubá-las para beneficiar os seres humanos. Ultimamente, essa falsa dicotomia - florestas X gente - tem sido discutida principalmente do ponto de vista econômico, com demonstrações cada vez mais definitivas de que é possível uma economia dinâmica com base na existência da floresta e não na sua destruição. Também está na ordem do dia o papel das florestas no contexto das mudanças climáticas globais. Mas tem ficado menos visível o debate sobre o enorme potencial da biodiversidade para gerar conhecimentos e produtos úteis à humanidade.

No Brasil, o investimento em pesquisa e aproveitamento dos recursos naturais é ínfimo, enquanto a biopirataria avança e permanecemos sem um adequado marco legal. Quando cheguei ao Congresso Nacional, em 1995, uma de minhas primeiras iniciativas foi apresentar projeto de lei para regulamentar o acesso à nossa biodiversidade e garantir às populações tradicionais os direitos decorrentes dos conhecimentos a ela associados. Treze anos depois, o projeto continua tramitando.

Nas lembranças de minha infância, na floresta amazônica, é muita nítida a presença dos conhecimentos tradicionais no dia-a-dia e ainda hoje eles são, muitas vezes, a diferença entre a vida e a morte para populações mais isoladas. Imagino como seriam úteis se pudessem ser apropriados, de maneira justa, por toda a sociedade, e não mais ficassem à deriva, presas fáceis de interesses comerciais que, por ironia, acabam nos cobrando royalties por sua utilização.

No seringal, a gente aprendeu com os antigos, que diziam ter aprendido com os índios, que quando algum animal era mordido por cobra, o melhor antídoto era um pedaço de um dado tubérculo que todo seringueiro procurava de antemão identificar por perto de sua casa. Uma beberagem feita com água e raspas da planta deveria ser ministrada o mais rápido possível, antes que o bicho começasse a ter espasmos e a trancar os dentes, o que o impediria de ingerir.

Esse tubérculo é enorme e mesmo tendo pequenos pedaços cortados, sempre se regenera. As narrativas de como tinha sido descoberto o seu poder curativo sempre o associavam à observação dos hábitos de um tipo de calango grande, que chamávamos de tejo ou camaleão. Quando mordido de cobra, o tejo saía em desabalada carreira, só parando ao encontrar o tubérculo. Cavava um pouco, comia um pedacinho e ia embora tranquilamente.

Quando meu pai foi picado pela primeira vez por uma jararacuçu venenosíssima, ele conseguiu resistir bem, mas foi motivo de muita preocupação. Um homem logo partiu pelo longo trajeto para trazer o antídoto do barracão, que era uma espécie de entreposto onde se fazia a compra e a venda da borracha e onde também se encontravam os remédios mais corriqueiros: antídoto para veneno de cobra, medicamento para leishmaniose, biotônico Fontoura, óleo de fígado de bacalhau, quinino para combater malária.

O problema é que, como vivíamos no que se chamava de seringal de terra firme, muito longe da beirada do rio, onde ficava o barracão, só para chegar lá eram quase doze horas de caminhada. Enquanto isso, fazíamos todo o ritual recomendado para mordedura de cobra e confiávamos na capacidade de meu pai, de aguentar firme até chegar o antídoto.

Segundo o costume, mulher grávida não podia tocar na pessoa mordida nem se dirigir a ela ou fazer-lhe a comida. Se houvesse mulher menstruada por perto, teria que ser retirada porque o doente não poderia sequer lhe ouvir a voz sem ter seu estado muito agravado. E assim foi. Minha mãe, que estava grávida, foi levada para outro cômodo. Minha avó e vizinhos vieram cuidar de meu pai.

A espera era angustiante. Esse episódio foi muito marcante para mim porque essa aflição aconteceu outra vez, quando peguei leishmaniose e ela se manifestou no nariz, onde tenho até hoje a marca. Minha mãe ficou desesperada porque conhecíamos muitos casos de pessoas que morreram ou ficaram deformadas, corroídas pela doença. A minha chance era ter o remédio o mais rápido possível. Meu pai correu até o barracão e, sem interrupção, andou 24 horas na mata. Quando voltou, entregou para minha mãe o embrulho com as injeções e deitou de costas no chão, extenuado. E eu pensei que ele estava morrendo, tamanho era o cansaço.

Mas, voltando à história da cobra, enquanto esperávamos o antídoto, eu não entendia porque não davam ao meu pai o chá da batata do tejo. Perguntei ao meu tio Pedro Mendes, que foi o primeiro a me ensinar como cuidar dos animais picados de cobra. Ele me explicou que os índios diziam que esse era um remédio que só se dava a bicho, não a gente. Nunca soube a razão, mas os índios certamente sabem.

A floresta sempre foi o nosso médico e nossa farmácia nas adversidades. Para chegar a Rio Branco, levavam-se semanas. Se o caso era de corte, raspava-se a entrecasca de uma certa árvore e com ela se fazia um emplastro que tinha propriedades cicatrizantes. Ou se mastigava uma erva coagulante e ela era colocava sobre a ferida.

Quando as crianças começavam a ficar meio barrigudinhas, o remédio eram as sementes de mamão. Tinham que ser ligeiramente mastigadas antes de engolir. Ruim demais, a boca ficava ardendo. Mas fazia efeito; os vermes saíam. De onde vem esse conhecimento, eu nunca soube.

Sem falar nos óleos poderosos: de copaíba, de andiroba, para espantar mosquito, e tantos outros. Nossas florestas estão aí, à espera de uma inteligência social e institucional que as entenda, procure conhecê-las melhor e delas retire uma incrível riqueza, em benefício de todos.

Em tempo, e antes que alguém pergunte: pra ressaca de carnaval, nunca ouvi falar de nenhum remédio da floresta. Meu pai deve saber de algum, mas eu nunca perguntei...


Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

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