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Quarta, 25 de fevereiro de 2009, 08h30

Retrofoguetes, Lazzo, Gerônimo e a baianidade

Paquito
De Salvador

É divertido encontrar os Retrofoguetes, banda de rock instrumental baiana de que já falei aqui em Terra Magazine, por conta de Morotó, seu guitarrista, ter recebido no ano passado o Troféu Dodô e Osmar - prêmio dado aos melhores do carnaval da Bahia - de melhor instrumentista. Há um espírito anárquico presente quando eles se juntam que faz com que a gente se sinta participando de um programa como Os trapalhões.

Com certeza foram contaminados pelo Aedes Bonfinensis, mosquito que transmite o vírus da molequeira - pra usar uma expressão bem baiana - e habita, há tempos imemoriais, o bairro do Bonfim, onde nasceram e foram criados Morotó e Rex, o baterista. A eles se juntou CH, baixista, um pouquinho mais compenetrado, afinal, ele é da Pituba, outro bairro daqui de Salvador, lá pros lados da parte mais nova da cidade.

Estive com os Retrofoguetes, participando do Retrofolia, uma espécie de baile com música de carnaval de outros tempos, que eles apresentam um pouco antes do período da festa propriamente dita. Tentando ser fiel a esse espírito da banda, e tendo sido mordido também pelo mosquito, escolhi cantar Mata o papai, cujo refrão reproduz uma maneira também baiana de assumir o Complexo de Édipo: "ai, mata o papai, mainha/ já que tá gostoso, deixa mamãe".

Participaram também do show: Ronei Jorge, tranqüilo e feliz incorporando Sílvio Santos em A pipa do vovô não sobe mais; Nancyta, feito uma melindrosa em Mamãe eu quero; e mais Roberto Barreto, dos Lampirônicos, Júlio Caldas e Júlio Argentino, todos os três tocando a guitarra baiana, invenção de Dodô. Pra fechar a festa com brilho, os próprios filhos de Osmar, também do trio: Armandinho e Aroldo nas "guitarrinhas", mais André, cantando.

Banda de rock baiana fazendo show com música de carnaval seria considerado um sacrilégio há dez anos, graças ao cisma provocado e consolidado por Marcelo Nova e seus órfãos. Os tempos, porém, são outros, ainda bem, e tudo começou, eu me lembro, há alguns anos, numa festa na casa de Sora Maia, fotógrafa e agitadora cultural do underground soteropolitano. Os Retrofoguetes levaram os instrumentos pra casa de Sora e começaram a tocar, de farra, sucessos já também históricos da axé-music e lambada, coisas consideradas vulgares: Chupa toda, Fricote etc. Foi uma espécie de libertação, com os convivas cantando em alto e bom som as canções que todos sabiam e muitos amavam odiar. Plantada a idéia, os Retrofoguetes já realizam há um bom par de anos a Retrofolia.

O que possibilita aos Retrofoguetes a capacidade de fazer esse tipo de show, sem que pareça algo no estilo "Recordar é viver", é o astral e humor provocado pelo supracitado vírus da molequeira: Além de serem excelentes músicos e da pegada roqueira, eles não fazem força pra fazer graça, a graça é a sua força, nada se leva a sério e tudo é possível. Só eles, impossíveis.

Escrevo estas linhas, exilado da confusão e burburinho do carnaval, e não posso deixar de mencionar quão justa é a nomeação de Gerônimo para Rei Momo deste ano de 2009. Gerônimo, assim como seu antecessor, Clarindo Silva, vive a vida da cidade, com o que há de melhor disto que se chama baianidade. Além do mais, ele é o autor de dois hinos de Salvador: É d'Oxum, com Vevé Calazans, e Eu sou negão, uma canção com estrutura dramática, cujo refrão não deixa de ser um mini-hino, "eu sou negão /meu coração é a liberdade!"

A minha mulher é paulista, e mora em Salvador há cinco anos. Há três anos, período em que a conheci, fiz questão de apresentá-la a Gerônimo em um dos ensaios do Cortejo Afro, evento coordenado por Alberto Pita, outro que foi mordido pelo Aedes Bonfinensis, apesar de fazer pose de sério. Com o som da percussão em alto volume, Anna, minha mulher, e o próprio Gerônimo não conseguiam ouvir claramente o que eu dizia. Quando nos afastamos, ela perguntou: "esse é o Lazzo?". Não pude deixar de rir, pois, pra quem é de Salvador, Lazzo e Gerônimo são figuras tão fortes, ícones mesmo, quanto fisicamente bem diferentes. Pra quem é de outro estado do país, eles provavelmente representam a Bahia num amálgama entre outros tantos nomes, o que não diminui seu vigor, só os põe sob a sombra da mesma árvore que deu abrigo a Caymmi, Gilberto Gil etc.

Há cerca de cinco dias, passei por Lazzo numa rua do bairro do Politeama, e fui cumprimentá-lo. Como ele é grande e afetuoso, dá gosto receber seu abraço de urso amigo, e não amigo urso; abraço tão vasto e doce que possibilita o repouso, mesmo que por segundos, no meio de uma avenida movimentada num dia quente de verão. Lazzo me convidou pra assistir a seu show no Café Portela, e eu lhe contei a história em que foi confundido com Gerônimo, à guisa de relatar um fato divertido. Ele só me disse, ao final: "diga a ela que tá tudo certo. Eu também tenho Gerônimo no meu nome!"

Pois bem, Anna estava certa: Lazzo também é Gerônimo e eu voto nos Retrofoguetes para serem três Reis Momos e Magos do carnaval de 2.010. Bonfim na cabeça!


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

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Myspace Retrofoguetes/Divulgação
Show da banda Retrofoguetes, de Salvador

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