
Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)
Durante este carnaval, uma coleção, não de moda mas de arte, foi o grande destaque de toda a mídia francesa: o leilão das inúmeras obras de arte da coleção particular de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé.
Numa iniciativa inédita, as obras ficaram expostas para o público em geral, e não somente aos interessados em adquiri-las. O resultado foi a formação de uma fila quilométrica na porta do magnífico Grand Palais em Paris, para admirar peças nunca antes expostas ao grande público e expostas gratuitamente pelo período de sábado a segunda de carnaval.
Muitas pessoas declararam estar na fila para ver, mesmo que por tempo limitado, obras inacessíveis fora do círculo de amizades de seus proprietários. Outras pessoas declararam que tinham interesse em tentar desvendar o universo, o gosto e a inspiração de um dos maiores criadores de moda da história: Yves Saint Laurent, falecido em junho de 2008.
O fato das obras pertencerem a uma dupla infinitamente famosa, fez com que o interesse a respeito da coleção fosse incrementado, seja pela possibilidade de entrar na vida privada de celebridades, seja pelo significado simbólico de seus proprietários. Para muita gente, a chance de sentir a atmosfera do famoso domicílio parisiense da dupla na rue Babylone, no 7ème, é ímpar.
Vale lembrar que durante a maior parte de suas vidas, o relacionamento entre Yves Saint Laurent e Pierre Bergé foi além dos negócios, e que durante cerca de cinqüenta anos, tudo foi partilhado a dois. Em suas diversas empresas, enquanto YSL era o mentor intelectual da criação, PB era a retaguarda segura nos investimentos.
Embora o leilão ainda esteja em curso, já é possível perceber que a origem estrelada das peças teve uma correlação direta com o aumento do preço de venda. Da mesma forma, a famosa a empresa de leilões Christie's, responsável pelas vendas, teve que enfrentar muitos questionamentos e ameaças de embargo.
Várias instituições francesas tentaram transformar as obras da coleção YSL/PB em ¿tesouro nacional¿, o que as obrigaria a permanecer em território francês. Mas, como a maioria das peças foram adquiridas em período inferior a 50 anos, a legislação não se adequou ao caso. De qualquer forma, o Estado Francês, por meio de um de seus museus, demonstrou interesse em adquirir alguma peça da coleção, mesmo tendo que pagar o preço de um colecionador internacional.
Há outra famosa controvérsia envolvendo duas estátuas chinesas, que de acordo com especialistas, foram saqueadas pelos franceses e ingleses há mais de 150 anos, durante a segunda guerra do ópio, do Palácio de Verão do imperador Qianlong (1735-1795), situado ao noroeste de Pequim. O governo chinês solicitou a devolução das obras, alegando roubo, e Pierre Bergé anunciou publicamente que entregaria as obras ao governo de Pequim, se o mesmo reconhecesse a declaração dos direitos do Homem.
Como isso não aconteceu até o momento, é mais provável que as duas estátuas, que representam o rato e o lobo no calendário chinês, sejam adquiridas por algum bilionário chinês e que as peças retornem ao território de origem por mãos privadas.
A tão esperada venda do século, que inclui ainda uma coleção magnífica de peças Art Déco e obras consagradas de Picasso, Matisse, Léger, Mondrian e Brancusi, dentre outros, pretende arrecadar pelo menos 250 milhões de euros (cerca de 750 milhões de reais) para obras da Fondation Pierre Bergé-Yves Saint Laurent e para pesquisas médicas relacionadas com a luta contra a Aids.
Para que a moda não ficasse de fora do momento, um grupo de proprietários particulares de roupas e acessórios YSL se juntou à casa Drouot Richelieu de Paris, e propõem um leilão nas próximas quinta e sexta (26 e 27), com mais de 800 peças. A venda inclui modelos alta costura, prèt-a-porter, peles, jóias e acessórios assinados, com preços variando de 50 a 5 mil euros (150 a 15 mil reais) para início do pregão.
E que se bata o martelo!
Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br
Terra Magazine
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Fondation PB/YSL/Divulgação
Yves Saint Laurent à frente e Pierre Berge ao fundo
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