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Quinta, 26 de fevereiro de 2009, 08h00

Handicap, descrédito

Agência Brasil
Entrevista de Tarso ao El Pais produziu cascata de comentários
Entrevista de Tarso ao El Pais produziu cascata de comentários

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Há alguns dias, a publicação de uma entrevista do ministro Tarso Genro pelo jornal espanhol El País produziu uma cascata de comentários "especializados". Resumindo: Tarso disse que Dilma é uma boa candidata e que tem um handicap: o apoio de Lula. El País traduziu handicap como problema (cito livremente). Tarso retificou sua declaração, "informando" que no Brasil handicap tem conotação positiva.

Todos os blogs comentaram. Dos políticos aos esportivos, dos amadores aos profissionais. Vários citaram trechos de dicionários, do Houaiss e de alguns do inglês. Alguns só citaram seu dicionário pessoal, o "ouvi dizer". Mas todos concluíram que Tarso deu bobeira. O mais duro com ele foi um blogueiro que "apostou" que Tarso deu sua entrevista em um espanhol pouco proficiente, o que ajudou na confusão, e que, assim, ele se revelou analfabeto em três línguas: falou mal o espanhol (segundo sua aposta!), desconhece o inglês, pelo menos o sentido de handicap, e também o português, como mostra sua defesa da má tradução da palavra em questão. Ah, sim, falou-se em tradução de handicap por ... handicap. O país só tem gênios!

O que eu sabia sobre handicap antes dessa barafunda? Não mais do que sabia ou sei sobre tantas outras palavras, algumas estrangeiras e outras nossas, especialmente em sua acepção mais corrente no Brasil. Em suma: pouco. Na verdade, o que mais sei é que as coisas nunca são pão pão, queijo queijo. Mais especificamente, sabia, porque ouço rádio, ouço e vejo TV, leio jornais e revistas, que, entre nós, handicap ora conota defeito ou problema (mais raramente, aposto!), ora qualidade ou vantagem.

Tenho mesmo a impressão de já ter lido ou ouvido jornalistas criticando a tradução mais comum por "vantagem", especialmente com base em um fato do inglês: o adjetivo handicapped nunca significa "com vantagem", aplicando-se, aliás, mais comumente, a portadores de alguma "deficiência" física (ou deveria escrever "necessidade especial"?). Mas não se chega a dizer que são "handicapados", talvez porque a palavra pode parecer composta, não derivada...

Um parêntese: etimologicamente, a palavra tem alguma coisa a ver com mão (hand): espero que não digam, que, portanto, um paraplégico não é handicapped, porque, afinal, seu "problema" não está nas mãos. Mas nunca se sabe... Parêntese fechado.

Não acho estranha essa dupla significação, esse duplo emprego, até contraditório, porque sei que fatos assim são comuns nas línguas. Escrevi aqui, há tempos, sobre o sentido de "credibilidade", tanto em declarações de cidadãos ditos comuns, quanto de políticos e de jornalistas. Com base em informações de dicionários, credibilidade é a qualidade daquele que merece crédito (um político com credibilidade é aquele no qual você confia, acredita).

Mas as declarações são freqüentemente do tipo "o povo perdeu a credibilidade nos políticos", "a torcida está perdendo a credibilidade no time". Ou seja: é a credibilidade deixando de ser predicado de quem é merecedor de crédito e passando a ser predicado de quem dá crédito. É uma mudança de perspectiva, para expressar, no fundo, o mesmo fenômeno (com muitas aspas em "mesmo").

Dou exemplo mais recente: a deputada Rita Camata, que foi candidata a vice de Serra em 2002, publicou artigo na Folha de S. Paulo no dia 23/02, apoiando as declarações de Jarbas Vasconcelos sobre o PMDB, e situando-se, claro, entre os políticos que não se corrompem, que querem outro país etc. E disse: "Soma-se a esse fato o descrédito da população para com o (grifo meu) Congresso Nacional, perpetuando a tese de que todos os políticos são iguais e legitimando as práticas vigentes".

Pois é: descrédito da população para com o Congresso Nacional, ela disse. Se handicap fosse só problema, nunca vantagem, então o descrédito seria sempre do Congresso (se você tem crédito no Banco, o gerente empresta uma grana; se você tem crédito no boteco, ele faz fiado. Se o boteco que tem crédito, você come a coxinha sem medo etc.). O que fez Rita Camata? Seguiu o rumo da torcida do Flamengo, que não está mudando propriamente o sentido de "descrédido" (ou de crédito, ou de credibilidade), mas apenas descolando-se de sua base: não mais o Congresso, mas a população - no exemplo.

O que isso tem a ver com handicap? Tudo, como se pode ver nas notinhas seguintes. Desconfiado das soluções simples (no caso, a solução simples era dizer em inglês é o contrário do que Tarso mandou dizer a El País), dei uma olhada num dicionário do inglês, um modesto MacMillan. Pois ele informa três acepções de handicap:

1. race or contest in which opponents of unequal ability are given certain advantages or disavanatages in an attempt to equalize the competition;

2. advantage or disadvantage given in such a contest;

3. anything that places a person at a disadvantage and hampers his achievement, especially a physical disability.

Observe-se que as acepções 1. e 2. registram vantagem ou desvantagem. Só a 3 menciona apenas desvantagem. Ou seja: o conhecimento de inglês (sobre handicap) dos que criticaram Tarso é igual ao conhecimento que ele exibiu do português (também em relação a handicap). Seria como ler Rita Camata com o dicionário na mão. Mas só um pedaço dele, um minidicionário. A gente vai achar que ela disse o contrário do que queria dizer. Ora, o que ela disse foi exatamente o que ela quis dizer. O texto todo mostra isso. Ocorre que empregou uma palavra com o sentido que ela está tendo nos usos da rua (de onde vem a língua, no final das contas), e os dicionários ainda não registraram. Mas um dia registrarão, aposto, se os dicionaristas não forem esses blogueiros.

O caso de handicap é bem curioso. O termo nasceu no turfe, a partir de situações como a seguinte: para que valesse a pena fazer uma aposta, mesmo que um dos cavalos tivesse óbvias vantagens, colocava-se nele um peso extra. A esse peso se chamou handicap. É claro que, considerado apenas este cavalo, ele agora tem uma desvantagem em relação a si mesmo antes de lhe colocarem o peso extra. Mas a corrida fica mais equilibrada. Daí se passa a dizer que os outros cavalos (os mais lentos) agora têm um handicap, ou seja, uma vantagem em relação às possibilidades que eles tinham antes que se colocasse um handicap nas costas do outro cavalo. Desvantagem para um, vantagem para outros. Tudo é handicap...

Do peso posto sobre o cavalo passa-se, por extensão, a uma lesão do cavalo: o cavalo lesionado tem um handicap: tem mais dificuldades de correr do que quando estava são ou do que têm os sãos. Em vez de um peso, uma lesão. Do peso e da lesão passa-se, por exemplo, a um sentido metafórico, em outro campo: um candidato tem um handicap, se tiver que carregar outro nas costas (ele não o carrega literalmente, se bem que alguns deviam fazer isso - de quatro! -, tanto por eles mesmos quanto pelos outros, que devem carregar).

Mas também se fez o movimento interpretativo inverso - como no turfe: passa-se a dizer que tem um handicap aquele político (ou time de futebol etc.) que não tem que carregar um peso (extra) nas costas, mas, pelo contrário, é como se tivesse asas nas patas (ou como se o peso que carrega tivesse o efeito de diminuir o seu...).

Ou seja, é sempre a mesma coisa, de diversos pontos de vista. Como ocorre com credibilidade e com descrédito, para ficar com o exemplo da deputada e esposa de senador Rita Camata...

Tarso errou? Acertou? Acertou e errou. Mas erraram mais feio do que ele os blogueiros que acharam que dicionário bilíngüe é uma lista de palavras com uma em negrito e outra sem, traduzida univocamente. Esse é o handicap deles. Em geral, isso tem sentido de vantagem. Porque é assim que parecem sábios e ganham o seu. Às vezes, penso que deveriam ir mesmo para o turfe. Não como jóqueis, claro, apesar de leves. rsrsrsrs.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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