
Atualizada às 09h23 Deolinda Vilhena
Do Rio de Janeiro
A platéia que lotou o Teatro Serrador no dia 28 de fevereiro de 1941 - destaco aqui as presenças de Antonio Callado e Austregésilo de Athayde - assistiu ao nascimento de uma estrela: Bibi Ferreira. Com apenas 18 anos Bibi era lançada pelo pai, Procópio Ferreira, interpretando Mirandolina, na peça "La Locandiera", de Goldoni. Ovacionada pelo público e pela crítica carioca, que saudou sua estreia como "a aparição da maior revelação de atriz brasileira de todos os tempos".
68 anos depois Bibi continua em cena. Felizmente. Pois ainda não há substituta à altura. Temos atrizes maravilhosas, mas Bibi continua sendo um caso à parte. Perguntem a Fernanda Montenegro.
Ver uma atriz, dessa envergadura, comemorar 68 anos de carreira é motivo suficiente para uma grande festa, coisa que muito a desagradaria. Bibi é avessa à badalação. Mas, fosse ela francesa e certamente seria condecorada com a Légion d'Honneur, em seu mais alto grau, em cerimônia no Palais de l'Elysée. Fosse ela inglesa e certamente seria condecorada pela Rainha Elizabeth II com o título de DAME, em cerimônia no Buckingham Palace.
Mas, Bibi nasceu no Brasil - sorte nossa e azar o dela ' e essa data deve passar em brancas nuvens num país sem memória onde a comemoração máxima é o número de capas das Playboys da vida feita por uma das nossas muitas "atrizes"... Aposto com vocês que nossas Excelências - o Presidente da República, o Ministro da Cultura, o Governador do Estado do Rio de Janeiro, o Prefeito da Cidade Maravilhosa - Bibi é carioca da gema -, as Madames Secretárias de Cultura do Estado e do Município não vão tomar conhecimento dessa data.
Sorte minha. Hóspede de Bibi há alguns dias, escrevendo essa coluna na biblioteca de Procópio, terei o privilégio de passar a data com ela e caberá a mim a honra de talvez, quem sabe, convencê-la a sair para comemorar esse aniversário em alguma boa mesa dessa cidade, apostando todas as fichas no lado gourmet/gourmande da minha Bi.
Detalhe importante, como especialista em Bibi Ferreira graças, na teoria, ao meu título de Mestre em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo fruto de uma dissertação intitulada "Bibi Ferreira, a trajetória solitária de uma atriz por seis décadas do teatro brasileiro" e na prática, por ter sido ao longo de quase 17 anos ora sua assessora de imprensa, ora administradora da sua companhia, ora sua produtora, ora sua secretária de frente, quando não era tudo ao mesmo tempo agora; discordo da data oficial da estreia de Bibi.
Para mim, sua verdadeira estreia aconteceu no Chile, quando ela tinha três anos, na companhia de Revista Espanhola Velasco, onde sua mãe, Aida Izquierdo, trabalhava como corista. Bibi participou de uma turnê por toda a América Latina, interpretando - vestida de pérola - ao final do espetáculo um pout-pourri da própria revista.
Mas sendo Bibi poderíamos decretar dois feriados nacionais, afinal, talentos como o dela são como animais em extinção, deveríamos preservar os que temos. Porque se a marola causada pela atual crise financeira é recente, a tsunami da falta de talentos e o culto das "celebrinutilidades" está na área há décadas...
Ainda que, como bem disse Macksen Luiz à época de "Piaf - A vida de uma estrela da canção", não se possa atribuir a força teatral de Bibi apenas a um talento brilhante, ela é sem sombra de dúvida uma atriz com uma preparação técnica que poucos atores brasileiros tem possibilidade de acumular.
Para os que não tiveram ainda a oportunidade de ver Bibi em cena deixo como dica o site criado por Angela Glavam, http://www.bibi-piaf.com, no qual em breve estará disponível a agenda 2009 da nossa primeira atriz. Se "Às favas com os escrúpulos" passar pela sua cidade não perca, há cenas de Bibi impagáveis e imperdíveis...
Cercada pelos livros de Procópio, olho a tela do meu computador, enquanto ouço o barulho da sala de televisão, Bibi assiste um filme - cinéfila que é - sem saber das bobagens que escrevo sobre ela, sem saber também da curiosidade que me invade nesse momento, quando tudo o que quero é saber que surpresa ela nos prepara para daqui a dois anos? Afinal em 2011 ela comemora 70 anos de palco. Jubileu de Vinho...no caso dela, melhor seria de Champagne.
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
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Deolinda Vilhena/Terra Magazine
Deolinda: ainda não há substituta à altura para Bibi Ferreira
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