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Sábado, 28 de fevereiro de 2009, 07h46

Resenha: Os judeus da neve

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), Michael Chabon. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 472 páginas. Tradução de Luiz Antonio de Araújo.

Michael Chabon, o multipremiado autor judeu-americano, já foi discutido nesta coluna um par de vezes (leia aqui e aqui) por conta de sua guinada do mainstream literário para a ficção científica e fantasia. Não é todo dia que um ganhador do Pulitzer (com As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay) passa não apenas a praticar literatura de gênero, mas a defendê-la em suas especificidades.

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A transição de Chabon para o campo da FC e fantasia foi perfeita e sem sobressaltos: Associação Judaica de Polícia recebeu os prêmios Hugo, Nebula e Locus para Melhor Romance de 2007.

É uma história alternativa: imagina um desvio em relação à história como a conhecemos, e a partir daí constroi um "presente alternativo": os Estados Unidos teriam estabelecido no Alasca, em 1941, uma colônia de refugiados judeus. A colônia se localizaria na Ilha de Sitka, no sudoeste do Alasca, originalmente habitada pelos índios tinglit que no século dezenove haviam expulsado dali colonizadores russos, antes do Alasca ser vendido pela Rússia aos Estados Unidos.

Em nosso "continuum temporal", o projeto de instalar os refugiados judeus em Sitka realmente existiu, mas foi derrubado pelo deputado Anthony Dimond, do Alasca. Na linha temporal alternativa proposta por Chabon, Dimond teria sido morto, ironicamente atropelado por um táxi ao perseguir um sem-teto na rua, deixando livre a votação do santuário judeu (a França chegou a propor projeto semelhante para alojar refugiados judeus na Amazônia brasileira).

Há outros detalhes, aqui e ali, que reforçam as diferenças entre uma linha temporal e outra: a Alemanha teria dominado a União Soviética em 1942, e Berlim teria recebido a bomba atômica americana em 1946. Portanto, a II Guerra Mundial durou um ano a mais. O Estado de Israel foi fundado em 1948, como de fato ocorreu aqui, mas os judeus teriam sido subsequentemente expulsos da Palestina pelos árabes.

O presente dos judeus em Sitka nada tem de utópico - sua metrópole erguida na ilha é suja, fria e lúgubre. Por essa paisagem se move o detetive Meyer Landsman, divorciado e decadente, alcoólatra de tendências suicidas morando num hotel vagabundo e sem grandes perspectivas de futuro, nesse momento em que Sitka passa pela Reversão - depois de 60 anos no lugar, os judeus terão de devolvê-lo ao Estado do Alasca, e partir. Alguns obtiveram o visto para trabalhar e viver nos EUA, outros terão de emigrar para outras partes do mundo.

A Reversão impõe uma aura apocalíptica sobre tudo o que acontece no romance, aura que repercute em vários outros aspectos, entre eles a determinação, do Governo Americano, de que a polícia de Sitka seja desmantelada com todos os casos encerrados - inclusive aquele que Landsman investiga. Mas especialmente no fato de que uma vítima de assassinato, identificada como Mendel Shpilman, é o melhor candidato de Sitka ao Messias da tradição judaica.

Um conceito que me arrepiou muito mais do que aqueles relativos aos desvios históricos. Ao longo do romance, Shpilman, de quem se suspeita ter sido viciado em heroína e gênio do xadrez, além de homossexual, cresce como uma figura por si mesma misteriosa e intrigante.

A intriga policial começa quando Landsman é chamado para investigar o assassinato de Shpilman, hóspede vizinho no mesmo hotel. As investigações associam a vítima a o maior rabino hassídico do lugar - e incidentalmente o cabeça da principal organização criminosa da cidade. Esse sujeito é descrito como um obeso gigantesco, semelhante ao Rei do Crime das aventuras do Demolidor e do Homem-Aranha nas HQs de super-herói, mas sem suas qualidades atléticas.

Chabon certamente faz do grotesco uma das marcas do romance: o sidekick do herói, seu primo Berko Shemets, é um mestiço de índio tiglit, com dois metros de altura e um martelo de batalha como arma intimidadora. Outros personagens são um anão, vários velhos decrépitos e figuras do submundo. Mesmo a ex do protagonista, Bina Gelbfish (agora sua rígida superior hierárquica na polícia), é descrita como uma mulher de meia-idade acima do peso e com celulite. Contudo, o autor parece desconfiar mais de quem tem aparência saudável - os soldados do sionismo radical e os agentes da CIA que os manipulam é que são tratados de rosados, saudáveis e bonitões.

Um aspecto interessante é como Chabon escreve um romance hard-boiled sem se apoiar na tradição, iniciada por Dashiel Hammett (1894-1961) e Raymond Chandler (1888-1959), de detetives auto-suficientes, de diálogos ríspidos cheios de wisecracking, de símiles inesperadas e faiscantes, do controle do passo narrativo.

Chabon tem o seu próprio estilo e maneira de caracterizar os tipos; suas metáforas são contorcidas e às vezes obscuras, o texto é verborrágico, a narrativa marcha aos solavancos, e ele mantém seu cacoete de ensanduichar linhas e mais linhas de descrição ou de reflexão dos personagens, entre duas brevíssimas falas de um personagem.

Neste livro, há uma sanha inventiva de combinar o inglês com o iídiche falado nas ruas e nos clubes de xadrez, fazendo-o lembrar um tanto a sanha semelhante de Anthony Burgess (1917-1993), com o inglês e o russo, em Laranja Mecânica (1962).

Ou seja, o interesse de Chabon pela literatura de gênero não implica abandonar o que ele estabeleceu para si como autor, escrevendo ficção literária. Especialmente a caracterização sorumbática de personagens judeus, marcados sempre pela ameaça do exílio e de um novo round da diáspora milenar de um povo (como neste romance).

Da metade para a frente, Associação Judaica de Polícia começa a assumir os contornos de uma história de intriga internacional, mas igualmente diversa do que escreveria, por exemplo, John le Carré. Em tudo, uma intriga do sionismo radical para retornar à Terra Santa - com posse do Messias ou não - com atos de terrorismo e de infiltração. Elementos do governo americano patrocinam a empreitada, e nisso o romance ganha não só uma face de crítica aos grupos judeus radicais, mas também da estranha ligação entre os sionistas americanos e os evangélicos americanos. Associação que raramente é abordada pelos meios de comunicação ou pelos analistas de política internacional, mas que à boca-pequena se diz que explicaria não apenas o apoio irrestrito a Israel pelos EUA, mas até mesmo a invasão do Iraque - já que tanto a formação de Israel quanto um Armageddon iniciado no Oriente Médio seriam passos obrigatórios para uma segunda vinda do Messias da tradição cristã...

Ousadia de Michael Chabon, escrever um romance que poderia ser chamado de anti-semita - se não fosse escrito por um autor judeu-americano consagrado. O que certamente aumenta o interesse e a importância de Associação Judaica de Polícia.

Não obstante, lá pela página 70 eu já me perguntava - de maneira completamente injusta para com Chabon - o que Martin Cruz Smith faria com o mesmo material. Pois o autor de Parque Gorki (1981) é um mestre em evocar culturas distantes do mainstream americano - seja a Rússia pré- e pós-Perestroika, a Cuba castrista, o Japão às vésperas de Pearl Harbour.

Em Smith, que trabalha na tradição chandleriana, tudo é mais sutil, inclusive a reação dos personagens a eventos globais tão acima deles. Teria feito maravilhas com a Sitka de Chabon, que falha em dar solidez e personalidade a uma ambientação tão original; e o mesmo com sua galeria de personagens excêntricos que, em Chabon, ficam sempre um tantinho aquém de ganharem vida própria, de nos impressionarem com uma excentricidade que não apenas diverte ou choca pelo grotesco, mas que define as costuras do sujeito com o seu tempo e o seu lugar - mesmo que imaginários.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
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Associação Judaica de Polícia é uma "hitória alternativa", diz Causo

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