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Segunda, 2 de março de 2009, 09h02 Atualizada às 19h09

Gil: "O mundo me tirou a régua e o compasso"

Claudio Leal/Terra Magazine
O compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil em sua casa, em Salvador: A Bahia me deu régua e compasso, mas o mundo já me tirou!
O compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil em sua casa, em Salvador: "A Bahia me deu régua e compasso, mas o mundo já me tirou!"

Claudio Leal e Ceci Alves (especial)
De Salvador (BA)

Na segunda-feira de Carnaval, 23, em Salvador, Gilberto Gil termina de sorver um chá. Sentado num banquinho de sua casa baiana, refaz-se da noite passada na "varanda elétrica" do Camarote Expresso 2222, organizado pela mulher, Flora Gil. Encostara no travesseiro às cinco horas da matina; olhos pregados, mesmo, às 6h. Ao meio-dia, despertou para receber amigos e convidados.

Na tarde carnavalesca, o tom de voz reflexivo é gradualmente substituído por um ritmo mais acelerado, como se as idéias passassem por carvão em sua locomotiva.

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Depois da despedida do Ministério da Cultura, em 2008, o compositor ganhou tempo para dedicar-se à música e, bem além, a reflexões e cogitações humanas. Recupera a voz e o ânimo para debates.

E segue a discutir com os amigos Jorge Mautner, Caetano Veloso e Hermano Vianna, entre os mais próximos. "No papo eu me safo", brinca Gil. "Caetano sempre diz que no papo eu sou insuperável. Se deixarem, eu fico horas conversando...".

Não delimita uma zona de interesses. Antes de o gravador ser acionado, já aponta a interligação entre a política e o mundo digital - uma mistura que só aprofunda as experiências democráticas.

Gilberto Gil acredita que o exemplo da campanha de Barack Obama nos Estados Unidos vai se espraiar na política brasileira. "Em 2010, os candidatos não vão poder desprezar a mobilização que Obama fez na internet. Vai ser completamente diferente da última eleição. A inclusão digital no Brasil é cada vez mais veloz. E ainda vem aí um computador de dez dólares...".

Nesta entrevista a Terra Magazine, Gil expõe suas idéias sobre política, cultura e novas tecnologias. Novamente: sem impor fronteiras a esses campos. Mas se torna impossível iniciar a conversa sem refletir as transformações do Carnaval que corre além-muro.

- O Carnaval da Bahia não é o carnaval da Bahia. O Carnaval da Bahia é um momento importante de manifestação das grandes transformações por que passa a sociedade humana no mundo.

Gil rebate os que veem na folia baiana uma tendência elitista, sem abertura para as classes populares. Faz uma leitura na contracorrente: nunca o Carnaval foi tão democrático.

- Qual é o aspecto da questão democrática que é mais ausente ou mais presente hoje do que foi no passado?

O músico baiano critica a visão "atrasada" do prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro (PMDB). Em entrevista à Agência Brasil, Carneiro afirmou, em tom zangado, que "deixa de pagar a merenda escolar e a compra de remédios para garantir o carnaval". O ex-ministro da Cultura comenta:

- Eu acho que é um equívoco. A festa é parte da merenda, e parte importante... É parte da alimentação básica.

Gil revela ainda seu instante poético: vê-se numa nova inocência na hora de compor. "Sem certezas, sem fórmulas, sem instrumentos já propriamente construídos." Provocado, atualiza os versos de "Aquele abraço":

- A Bahia me deu régua e compasso, mas o mundo já me tirou!

Muito cuidado! Caetano Veloso contou ao Pasquim: o tropicalista Rogério Duarte afirma que essa é uma concessão exclusiva da Bahia a Gilberto Gil: não costuma dar régua e compasso a ninguém.

Confira a entrevista.

Terra Magazine - Como você tem visto as transformações do Carnaval de Salvador?
Gilberto Gil - É uma festa muito grande, que extrapola o campo da diversão, do entretenimento. Tem uma dimensão econômica enorme. Uma dimensão de trabalho, de ocupação, de organização, de normatização dos fluxos sociais. Aproximação de modos de vida, de grupos, de classes sociais que, no resto do ano, não se aproximam. Há mecanismos de aproximação clássicos, que vão dar nas mesmas coisas. Quer dizer, pessoas que se relacionam nos espaços públicos das cidades, nos trabalhos convencionais, nas situações convencionais de trabalho. Mas essa situação da festa que joga, de repente, pelo menos um terço de uma cidade de quase três milhões de habitantes... Um terço vai pras ruas e mais um outro terço de gente vem de fora, do Brasil, do mundo, durante uma semana. Isso cria um mundo inteiro de relações novas, de oportunidades novas, de diálogo, de construção de parcerias pro futuro. Então, é uma festa com uma dimensão política profunda nesse sentido, uma dimensão econômica irrecusável.

O Carnaval tem uma dimensão social fantástica. No sentido sócio-antropológico, é uma coisa incrível, um momento de novas interações, de quebra de parâmetros de comportamento, de respeito, de territorialidade de classes, etc. etc. etc. Essas coisas todas o Carnaval passa por cima. E quando a cidade sai do Carnaval, ela sai com uma outra proposta de vida, ainda que inconsciente. As sedimentações no campo consciente vão se dando aos poucos. A cada quatro, cinco anos, você percebe uma mudança. Mas é efetiva a carga de transformação de uma festa dessa. Ela é um operador social, humano, de alta potência. Com um poder extraordinário no campo político, econômico, simbólico, cultural, sócio-antropológico. É uma coisa que assusta. Assusta porque o modelo de civilização ao qual nós aderimos, ao qual todo o mundo aderiu, é um modelo que quer manter uma racionalidade outra...

Ainda européia?
Européia, grega... Um pouco grega, um pouco medieval. Veem o Estado, a sociedade e as classes sociais de um modo muito estanque, com hierarquias muito rígidas nessa construção. Numa festa como essa, a gente está falando de um modo de ser que já permeia a vida de uma nação como a brasileira. Isso desemboca na festa, mas isso borbulha o tempo todo, o ano todo, na vida das cidades. Então, é uma coisa muito perigosa. E aí estou falando mesmo no sentido do status quo. Quando a gente pensa assim: "os americanos não entendem direito uma festa como o Carnaval da Bahia", não é só que eles não entendam, eles têm medo.

Medo de outra sociabilidade?
Eles têm medo da possibilidade repentina de desorganização de um modelo, com a proposta de organização de um outro. Só que nós, no Brasil, já não precisamos ter esse medo porque nós temos sido a base experimental disso. Nós vivemos experimentando isso. São carnavais e carnavais! (risos) São muitos carnavais que já fizemos e estamos continuando a fazer. Não recuamos no ímpeto de investir nisso. Ao contrário, fomos investir cada vez mais. Aí o envolvimento do Estado é que foi acanhado, a princípio, e que foi... como poderia dizer? A partir de um plano de cima, vendo de cima, como tem sido o papel do Estado normalmente. Agora não, as instituições públicas vêm pro Carnaval compartilhar, fazer, ouvir...

O Carnaval transformou o Estado?
É! Sem dúvida! Aí quando o prefeito (de Salvador, João Henrique Carneiro) diz: "Ah, mas a gente tá tirando o dinheiro da merenda pra isso e pra aquilo..." Não procede essa visão. Não tá tirando dinheiro da merenda. Tá investindo...

Na merenda?
Na merenda... (risos) Claro, como está investindo na saúde pública. Há exemplos de melhoria de comportamento da comunidade em relação à questão sanitária, o Carnaval tem dado a possibilidade de aparecer. Esse exercício que o Carnaval possibilita ser feito é uma coisa importantíssima. Na área da saúde, educação... O que se educa durante um Carnaval! Estão pensando que educação é só escola? Não é. As pessoas se educam muitíssimo. Na questão do trato, do relacionamento, dos fluxos humanos, do respeito ao estrangeiro, ao turista... A cidade é invadida, de uma certa forma. A inteligência governamental, a inteligência pública que não pensar nesses termos, ultimamente, tá defasada, tá pensando atrasado, porque não é assim.

Porque nós estamos vivendo a fase da biopolítica, do biopoder. Os corpos estão envolvidos. A dimensão individual física, do empenho absoluto dos indíviduos naquilo com seus corpos, suas almas, sua vida espiritual, sua cultura, etc., é um empenho total. O Estado é isso, é a representação ampla desse conjunto. Um conjunto que é velozmente transitório, transita por várias conformações. A sociedade não é uma coisa só o tempo todo, nem nas suas partes, nem no seu todo. As suas partes estão submetidas a modificações muito grandes. Os setores reprimidos da sociedade são assim, mas também se manifestam com capacidade de protagonismo em muitos outros setores. Os setores dirigentes, as classes dirigentes, têm que ceder espaço a todo instante.

No Carnaval, a periferia se torna centro e o centro, periferia?
Exatamente. Exatamente. É tudo o que a ciência, a intuição e o conhecimento vêm interpretando. Essas formações e neoformações da sociedade estão sendo interpretadas desde o final da Guerra, desde que chegaram as novas formas de interpretação, seja com a psicanálise, seja com as culturas alternativas, seja com a nova ciência, seja com a neurociência, seja com a física e a química, as grandes transformações que o mundo tá vivendo. E todas as transformações que essas interpretações têm possibilitado a esses agentes interpretadores. Se a gestão pública, o governo, o representante do poder público não compreende isso, é um atraso.

Em relação à gestão pública, tem sido muito questionado o modelo do Carnaval baiano. Há várias correntes. Uma delas é de que o carnaval está capenga, defasado, precisa de um novo modelo e abrir mais para as classes populares. Denuncia um carnaval elitizado. Várias correntes rezam isso, acham que o carnaval de 2009 ficou esvaziado. Esse modelo está em transformação, deve ser trocado, está elitizado?
Não acho. Analisar a questão a partir da conformação da leitura ao Carnaval da Bahia é pouco. Não pode. O Carnaval da Bahia não é o carnaval da Bahia. O Carnaval da Bahia é um momento importante de manifestação das grandes transformações por que passa a sociedade humana no mundo. A gente estava falando aqui antes exatamente disso: ele está submetido a forças muito grandes, provenientes de muitas fontes diferentes. E quando alguém diz assim: "ah, mas está ficando muito elitizado!" Elitizado, como? Qual é a prova que você me dá de que hoje o Carnaval da Bahia é mais elitizado do que ele foi em qualquer momento do passado? Não vejo.

Houve a era dos clubes fechados.
Oxente! Em todo lugar. Onde era que você tinha a quantidade incrível de mulheres na rua? Apenas pra você pegar a questão feminista. Onde você tinha a quantidade de adolescentes e crianças com seus pais? Mas há quem diga: "tem criança abandonada, que vai pras ruas...". Mas com a monitoração da sociedade, dos pais, das famílias, dos órgãos públicos, com a vigilância normal, com o olho social sobre aquilo. Você tem uma quantidade enorme de meninos jovens. Está democratizado nesse sentido. Então, tem todo um universo infanto-juvenil que acessou, está nas ruas, vai e brinca, pula e grita, dança e toca... Toma sorvete, refrigerante, que isso, aquilo e aquilo outro.

E você vem sempre alegar: "mas tem os desvios..." Sempre tem. Não estou falando de sociedade de situações ideais, onde tudo está perfeito. Tô falando de processos onde as dificuldades também caminham juntas. Se você vai pra questão da renda, setores enormes de baixa renda foram incluídos, vem pra festa, estão nas ruas, cantam, defendem, escolhem aquela música do Psirico, aquela outra do (Carlinhos) Brown... O que há vinte ou trinta anos atrás era mais democrático? Como era mais democrático? Primeiro, se o próprio acesso ao conjunto e à produção carnavalesca, aos vários produtos criados pelo Carnaval, era um acesso muito menor? Não tinha tanto rádio como se tem hoje, não tinha tanto trio elétrico, tanta proliferação de conjuntos de bairros...

O rock foi incorporado.
Nada dessas coisas. Qual é o aspecto da questão democrática que é mais ausente ou mais presente hoje do que foi no passado?

Ao falar da retirada do dinheiro da merenda, o subtexto do prefeito de Salvador é de que se gasta muito dinheiro numa festa que, do ponto de vista dele e de outras pessoas, não seria essencial.
Mas eu acho que é um equívoco. A festa é parte da merenda, e parte importante, eu só não diria a parte mais importante da merenda. É parte da alimentação básica.


Você se refere ao mercado informal?
E do ponto de vista simbólico, do ponto de vista da alma, da formação desse povo, do pão espiritual. O alimento e a saúde nesse sentido. Não pode ficar vendo o mundo de hoje através das lentes do mundo de ontem. Não é mais.

Do ponto de vista étnico, qual a mudança? Uma folclorista baiana, Hildegardes Viana, falava das separações entre os carnavais de negros e brancos em Salvador, no século passado. No bairro do Rio Vermelho, havia um carnaval de negros, e os brancos que o frequentavam eram chamados de "brancos perdidos". Como ficou essa convivência étnica?
Ninguém me mostrou ainda a presença desses territórios. Não existe mais. Os blocos afros foram a emergência desses carnavais, digamos, excluídos e territorializados nas particularidades menos evidentes, com menos poder na sociedade. Olodum, Ilê (Aiyê), Muzenza, etc. etc. etc., deram em quê? Deram em Candeal, em Timbalada, em Psirico, que deram numa série de coisas. Por sua vez, passaram a ser bases fornecedoras de material também para aqueles outros territórios chamados das elites, Chiclete (com Banana), (Asa de) Águia, Eva, Ivete (Sangalo)... Hoje eles vivem ali em comunhão necessária e absoluta. Ivete faz sucesso com a música do Brown, que por sua vez se utiliza do trio elétrico, que é uma invenção da classe média elitizada da Bahia.

E tem o star system que sempre foi do rádio.
É...

Existe uma retroalimentação?
O tempo todo. E uma interpenetração de territórios. Evidentemente, alguém há de dizer: "Mas essa é uma leitura generosa!". É... Não vou fazer a leitura amesquinhada. Não interessa. Posso até ter elementos pra sustentar uma leitura mesquinha: "o apartheid continua, a separação de território continua, a exclusão classista continua...". Claro, residualmente tudo continua! Porque não é uma coisa ideal. Vamos observar os processos. Vamos observar o sentido tendencial, pra onde as coisas estão caminhando. Qual é a melhor incidência de elementos determinantes dessa vetorialização? Pra onde é que aponta o vetor? O vetor não aponta para menos democracia, pelo contrário: aponta pra mais democracia. Não vejo de outra forma.

Essa leitura predominante, crítica do Carnaval, passa por uma visão histórica, no Brasil, de que a cultura é um bem secundário?
Essa leitura ainda interpreta isso dessa forma, ainda tributa a essa visão subalterna à lógica das elites, à lógica da classe dominante, ao eurocentrismo. É pré-Lula (risos) Lula já é presidente, pô! Já chegou lá, porra... (risos)

Vamos falar do Banda Larga Cordel...
Banda Larga é tudo isso.

Sim, é um pouco dessa cultura carnavalizada. Dentro de sua carreira, onde ele está e pra onde aponta?
Começando pela carreira. Eu acho que é consequência, desdobramento natural de minha carreira. É Tropicalismo. Da mesma maneira, é Antropofagia. São esses conceitos com os quais a gente vem trabalhando desde sempre. Democratização, protagonismos, o popular, universalismo, autonomia da dimensão simbólica diante da questão da racionalidade produtiva, do sistema racional do trabalho e do controle. É sempre o "libertariolismo", digamos assim, que a gente defendeu, propagou, que está na base do trabalho de minha geração quase toda - em particular, com mais ênfase, no movimento que nós fizemos, o Tropicalismo.

Continuação:
» Gilberto Gil: "Estou diante de uma nova inocência"

 

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