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Segunda, 2 de março de 2009, 09h05 Atualizada às 19h34

Gilberto Gil: "Estou diante de nova inocência"

Claudio Leal/Terra Magazine
Quem estiver procurando um disco em Banda Larga Cordel, tá atrasado, provoca Gilberto Gil
"Quem estiver procurando um disco em Banda Larga Cordel, tá atrasado", provoca Gilberto Gil

Claudio Leal e Ceci Alves (especial)
De Salvador (BA)

Terra Magazine - Você aprofundou, chegou aonde pretendia com Panis Et Circensis (1968), no Tropicalismo? Na época, claro, houve um corte com a ditadura militar. E agora?
Gilberto Gil - Há essas novas possibilidades. Primeiro, do ponto de vista convencional, democrático, de uma institucionalidade democrática mais confortável, mais presente, mais ampla com governos e estados democráticos, garantias de direitos de expressão. Com todas essas coisas, efetivamente temos hoje condições melhores do que tínhamos no passado. Podemos falar de uma afirmação, de uma tese, de maneira muito mais evidente do que em outros momentos, como no de Panis Et Circensis. Acho que tem essa questão da afirmação nesse sentido. Por outro lado, também do ponto de vista dos instrumentos, de criação, de operação, de construção, de produção, de dimensão simbólica, de poesia no sentido grego.

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Eu acho que é um tempo muito mais favorável porque nós temos tecnologias abertas, libertárias, diria quase que anarquísticas, promovendo acessos rápidos violentos. Tem a questão das telecomunicações, da aceleração extraordinária do acesso popular a meios de interação, de comunicação, de participação, de criação, de produção, etc. Isso facilita muito a compreensão do significado do discurso que já vem sendo feito desde lá atrás, mas que agora tem dicionários mais abertos pra você interpretar, imediatamente. A capacidade de o discurso chegar à ponta com as várias interpretações, com a riqueza semântica possível, é muito maior hoje do que era naquela época. Hoje, eu faço uma canção como Banda Larga e digo tudo...

Mesmo o narcotráfico entrou em sua música.
Sim, "Os pais". Enfim, hoje você pode condensar. E mais ainda com um treinamento que houve na mente, na inteligência popular, com o Hip Hop, com os rappers, com tudo isso que vem produzindo discursos cada vez mais velozes, cada vez mais oceânicos, de imensas abrangências, e que têm sido cada vez mais absorvidos pelas massas. Também facilita. Hoje você fala de duas ou três coisas que eram incompreensíveis há dez, vinte anos, mas que todos sabem do que você está falando. Até avança na interpretação. Alguns microsignificados que você nem estava se dando conta que estão embutidos, lá na ponta da interpretação final eles já chegam decupados, compreendidos daquela maneira. O enriquecimento do mecanismo do discurso, a função mecânica do discurso, do leva-e-traz - do poeta para o povo, do povo para o poeta -, isso é hoje muito mais rápido, fácil. Hoje a Tropicália é boom!

Com Banda Larga, procurou não encerrar mais o disco no disco?
Procurei. Procurei dissolver a idéia de disco. Quem estiver procurando um disco aí, tá atrasado. Não tem. Não é minha intenção mais. Eu borrei, não tive faixa um, faixa dois, nada disso. Por quê? Não porque essas coisas não mereçam mais respeito, ou não tenham mais significado. Amanhã eu posso voltar a querer fazer de novo um disco clássico, com a conceitualidade de um disco. As coisas vão e voltam.

Não há uma perda de organicidade?
Não. Acho que não. Os meninos hoje estão acostumados, os jovens estão vivendo esse acesso fragmentário, aberto. Ouvem mil coisas ao mesmo tempo. Ouvem uma música do folclore popular, pra usar uma palavra clássica, de Pernambuco, e logo em seguida ouvem um rock metálico qualquer. Ouvem tudo junto, não estão mais desejosos dessas linearidades, compartimentações, territorializações... Querem assim, querem tudo solto no ar. E eles vão pegando... É a isso que a cultura do século XX nos levou, nos trouxe. Estamos diante disso. Aí, de novo: "Ah, mas essa é uma leitura muito generosa...". É! Eu quero ser generoso mesmo! (risos) As outras leituras os outros fazem... Leituras...

Ressentidas?
Ressentidas, resguardadas, desconfiadas... fazem os outros. Meu papel é ser visionário, meu papel é jogar a bola pra frente.

E criar o problema.
Esse é que é o problema: Quem vai pro gol? (risos) Nesses sistemas fechados, quem é que julga essa defesa?

Falando em seu papel de ser visionário, você tem abordado a fragmentação desde "Parabolicamará", depois aprofundou em "Quanta", atualizou Donga em "Pelo telefone"...
É, pra fazer essas pontes entre os momentos de quebra, de ruptura, de ousadias ao longo da história, pra dar sentido a esse momento de agora. Esse momento não é nada novo, é uma repetição de tantos outros momentos em que a sociedade humana, que o ser humano precisou investir na mudança.

Dá pra voltar até mais, com "Lunik 9" (1966).
Claro! Lá atrás, e ali em "Lunik 9" ainda com as reservas: o que será...

Era nostálgico.
Um discurso nostálgico, reticente, reservado em relação às inovações, mas já dizendo: elas estão aí, não tem jeito.

A cultura do MP4 pulverizou as coisas, a internet veio e acabou com vários monopólios, mas, e a linguagem? E a poética? Mudou também como contar uma história?
Acho que sim. Mudou e, num determinado grau, é um desafio que se nos coloca. Porque a gente não sabe. Estou agora, para compor, para pensar em música, diante de uma nova infância, quase. Estou de novo sem certezas, sem fórmulas, sem instrumentos já propriamente construídos...

Sem régua e compasso?
Sem régua e compasso. Sem régua e compasso! (risos) A Bahia me deu régua e compasso, mas o mundo já me tirou! (risos)

Isso é bom ou ruim, estar ao léu?
As duas coisas ao mesmo tempo. É trágico. É trágico. Você tem que encarar como uma tragédia, ou como os chineses dizem: crise. Que é o veículo do pesar, traz uma coisa pesarosa, faz você seguir diante de perdas, de impossibilidades, de bloqueios. Você vinha até aqui caminhando, livremente, numa determinada direção, e de repente isso tudo é um bloqueio, um precipício que se coloca à sua frente. Mas, ao mesmo tempo, é isso, é você diante de uma nova inocência. E agora? Que é que eu faço? Como eu dou esse salto? Qual é a minha capacidade ainda de produzir esse salto? Minhas pernas, ainda tenho força pra isso ou não? O que também requer uma nova humildade, quer dizer, uma maior humildade, uma maior aceitação dos limites. Ajuda muito a você sair do pedestal, onde você tenha eventualmente se instalado ou sido instalado. É bom, eu gosto. Gosto de me sentir desse jeito aberto, com uma grande interrogação. E mais ainda: diante de uma poética que só pode ser construída pluralmente, pluralísticamente. Não pode ser mais - até pode, se quiser -, mas ela não corresponderá às exigências do momento se ela for solipsista, reduzida ao seu mundo, insistindo na vertente do indivíduo, do hiperindividualismo. Não pode.

É aquilo que Milton Santos dizia: "Nós entramos definitivamente na fase popular da história". Estamos na fase popular da história. Tudo é a cidade que produz, tudo é uma produção cívica. Depois dos nazismos, dessas coisas todas que foram e que ainda estão aí, e são ameaças possíveis, a sociedade conta hoje com mecanismos de alerta, de vigilância. As sociedades são mais democráticas, não no sentido clássico, mas no sentido de que caminha-se para mais democracia. A produção de tudo que se faz - material, simbólica, espiritual - é toda ela no sentido de empoderamento dos indivíduos, mas de indivíduos numa perspectiva cada vez mais coletiva. Porque essa é a exigência. A ecologia exige assim, a economia... Não dá mais. O próprio capitalismo está em choque. Ele que se arvorou a poder tomar conta de tudo, o mercado poderia tomar conta de tudo, sozinho, autônomo, interpretando à sua livre e espontânea vontade os desejos da humanidade. Não pode. Tem uma regulação toda nova que precisa ser feita e que é toda ela democrática, coletiva.

Virá uma reconstrução de valores?
Reconstrução de valores que vai ter que ser feita por todo mundo. É uma nova ética universal que precisa ser construída, uma ética pluralista, onde os individualismos contam, mas não podem mais contar daquela forma. Nesse sentido, o poeta não é mais aquela figura do visionário solitário que vai apontar. Não tem muito o que apontar ali adiante, onde ainda não se viu, onde o sistema ainda não viu. Porque tudo já vai estar apontado lá adiante, para além do horizonte.

No Banda Larga, com tudo isso, você ainda retoma uma espiritualidade, um tom meditativo de outro momento de sua vida?
Mas esse é o conceito de espiritualidade que é uma coisa confinada. Confinada aos espaços individuais, às auto-leituras, às auto-referências: "Ah, a minha alma!", "Ah, o meu corpo!", "Ah, a minha individualidade!", "Ah, minha relação com Deus!"...

Ai de mim...
Ou "Ai de mim" e essas coisas todas. Eu não vejo mais assim, mesmo que você ainda possa encontrar elementos disso nesse disco, no discurso, na hermenêutica do disco, das canções. O que já se quer ali é romper com isso, ver como todo mundo tá sentindo uma coisa que não pode ser denominada a partir de sua vontade de denominar. Não sei. Não acho assim.

Continuação:
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