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Segunda, 2 de março de 2009, 08h05

Por enquanto um ajuste, não uma recuperação

Júlio Gomes de Almeida
De São Paulo

Segundo algumas interpretações já existiriam sinais de recuperação da economia brasileira após o tombo do último trimestre do ano passado. O setor impulsionador de um desempenho certamente negativo do PIB nesse período, a indústria, teve sua produção reduzida em 20% entre o auge de seu dinamismo alcançado em setembro e o mês final de 2008. Reside nesse mesmo setor a expectativa alimentada por alguns analistas de que "o pior passou" e que o crescimento está voltando.

A projeção da FGV/Eletropaulo para o estado de São Paulo é de um aumento de 5,7% da produção industrial em janeiro frente a dezembro na série com ajuste sazonal, interrompendo uma série de fortes e crescentes recuos que levou a uma redução acumulada de 19,2% no trimestre anterior.

Outro motivo da esperança vem do segmento líder da crise industrial, o automobilístico, que também na comparação de janeiro com o mês anterior a partir de dados da Anfavea ajustados sazonalmente, teve acréscimo de sua produção em nada menos do que 80%. No trimestre final do ano passado as reduções haviam sido muito altas: 10,5%, 27,9% e 42,3%, respectivamente. Mesmo com uma melhora tão acentuada, a produção de autoveículos de janeiro do corrente ano ainda é 27% inferior à do mesmo mês de 2008.

Duas questões devem ser tratadas: a) A maior produção projetada para janeiro é sinal de recuperação ou simplesmente reflete um ajuste de produção da indústria? b) Como estão os indicadores desse início de ano para outros setores da economia e da economia brasileira como um todo?

Sobre o primeiro ponto, uma resposta adequada deve partir da inflexão que as decisões de produzir no setor industrial sofreram após o agravamento da crise internacional. Caracteriza essas decisões empresariais o fato de que na maioria das vezes elas são rotineiras e repetitivas na condição de que os mercados compradores não sofram variações súbitas. São tomadas a partir de avaliações que os empresários enquanto produtores precisam fazer sobre o comportamento a curto prazo do seu mercado consumidor. Salvo situações especiais, o suposto básico que as presidem é que os mercados devam ter um comportamento mais ou menos regular. Tentativa e erro, seguindo a acumulação/desacumulação de estoques indesejados, é o guia das expectativas empresariais de curto prazo e constitui o meio através do qual os equívocos são corrigidos.

Não é por erros eventualmente cometidos nessas decisões que uma economia se projeta em uma crise. Tais erros acontecem a todo o momento, gerando ciclos de estoques numa direção ou em outra que tendem a ser compensados entre os setores e que se nada mais acontecer serão rapidamente corrigidos.

Desde setembro quando a crise internacional se aprofundou e afetou de maneira tão adversa o crescimento da economia mundial e, aqui dentro, comprometeu a evolução do crédito e levou a um verdadeiro colapso das expectativas de consumidores e empresários, apresentou-se de forma quase generalizada uma muito significativa e imediata perspectiva de retração dos mercados compradores decorrente do recuo das exportações, do consumo e do investimento privado.

O processo se revestiu de tamanha intensidade que certamente todos os empresários dele tiveram pronto conhecimento ou em pouco tempo passaram a sentir diretamente os seus efeitos, o que os levou a mudanças em suas expectativas de curto prazo que, por seu turno, redefiniram suas decisões de produção. Mas, uma coisa é ter consciência de que os mercados consumidores iriam cair ou já estavam caindo; outra é antecipar corretamente a magnitude da queda para não errar na nova decisão de produzir.

O que estamos retratando nada mais é do que o principio da demanda efetiva, segundo o qual as decisões de produzir dos empresários não buscam outra coisa senão antecipar os montantes que serão capazes de vender de sua produção. Entre os meses de outubro e dezembro, quando a demanda desabou, abrangendo, virtualmente, todos os mercados da produção industrial, essas decisões perderam suas bases rotineiras de definição.

Pior: como o declínio da demanda foi muito forte e sem apresentar horizonte de reversão, uma avaliação empresarial incorreta nesse momento que subestimasse a contração dos mercados poderia levar a uma produção excedente vultosa, correspondente acumulação de estoques de produtos não vendidos e grandes prejuízos aos produtores. Segue-se que diante das dificuldades de avaliação e do próprio risco agora muito maior de subestimativa da contração dos mercados, a opção empresarial recaiu por programar a produção pela pior expectativa de vendas, levando a super-estimativas de queda da demanda.

Se no primeiro caso - o de estimativa para menos da redução da demanda - a decorrência de uma decisão de produção equivocada poderia ser a super acumulação de estoques e a geração de perdas talvez irrecuperáveis, no segundo caso um eventual erro de avaliação por super-estimativa da queda dos mercados compradores resultaria em uma redução excessiva de estoques de bens finais, a esta altura um mal menor e passível de rápida correção. Restringir ao máximo a produção também concorreria para reduzir estoques de matérias primas e produtos intermediários, um fator que aprofundou a queda da produção nos ramos produtores desses bens.

O que estamos assistindo na indústria é precisamente o processo "de volta" das decisões de curto prazo dos empresários, que após terem incorrido em "erro" para mais na avaliação do encolhimento da demanda, agora estão sendo revistas. Portanto, o anunciado crescimento industrial de janeiro não se confunde com um início de recuperação, mas, pelo menos por enquanto, deve ser concebido como parte de uma mera readequação da produção e dos estoques de matérias primas, bens intermediários e bens finais à demanda.

Sintomas efetivos de reativação da indústria e da economia surgiriam não de movimentos decorrentes de revisões das expectativas empresariais de curto prazo e das decisões de produzir, mas de mudanças em variáveis e fatores capazes de contribuir para o aumento das exportações, para a reativação do crédito doméstico, para a melhora das expectativas empresariais de longo prazo e das decisões de investimento e para a interrupção do progresso do desemprego aliada a uma maior disposição de compra de bens duráveis financiados por parte das famílias. Até agora não há qualquer indício nessas direções, pelo contrário. Em janeiro, segundo os últimos dados do Banco Central e do Ministério do Desenvolvimento, o crédito e as exportações tiveram o seu pior desempenho desde o início da crise e dados para fevereiro dão conta de que as expectativas dos empresários e dos consumidores continuaram caindo.

O que foi descrito acima para as decisões de produção de curto prazo constitui o caso mais geral, mas é possível que outros condicionantes tenham aprofundado o recuo da produção no último trimestre de 2008 para além do que seria determinado pelas dúvidas empresariais. Em setores muito afetados negativamente pela crise internacional e onde há um amplo domínio de empresas internacionais, o corte de produção local pode ter sido potencializado por ordens gerais das matrizes. Interrupção parcial de atividades e concessão de férias coletivas podem ter ajudado alguns segmentos na mobilização de crédito público e obtenção de reduções de impostos que facilitaram e baratearam a desova de estoques. Nesses casos o ajuste da produção tende a ser agora maior.

Ajuste, não propriamente uma recuperação da atividade industrial é, em suma, o resultado da revisão que os empresários passaram a promover em seus planos de produção após uma redução que, "ex-post", revelou-se exagerada.

Não se deve perder de vista que estão por vir desdobramentos da retração da indústria sobre outros setores. São os efeitos secundários da redução da produção industrial sobre a demanda por emprego e por serviços, o que, mais à frente pode deprimir ainda mais os mercados consumidores por bens industriais, além dos bens produzidos pelos setores agrícolas e serviços.

Vários índices mostram que no mesmo mês em que a indústria deve ter voltado a crescer, ou seja, em janeiro, não foram favoráveis os desempenhos para outros setores e para a economia como um todo. No comércio varejista, o indicador de vendas à vista da Associação Comercial de São Paulo caiu 9% com relação a dezembro a partir de dados com ajuste sazonal e o indicador de vendas a prazo registrou redução de 4,6% na mesma comparação.

O consumo de energia caiu em janeiro 4% frente a janeiro de 2008, com destaque para a região mais desenvolvida do país, o sudeste (-5,2%). Já o fluxo de veículos pesados nas estradas brasileiras, que serve para avaliar o ritmo da atividade geral da economia, retrocedeu 2,9% em janeiro contra dezembro com dados ajustados. Com relação a janeiro do ano passado, o recuo de 9,1% foi o maior desde o início da série em 1999, de acordo com os dados da Associação Brasileira das Concessionárias e Rodovias (ABCR).

Quanto ao emprego, as últimas pesquisas mostram um aumento na taxa de desocupação nas grandes regiões metropolitanas em janeiro e um grande número de dispensas líquidas de trabalhadores formais nos meses de dezembro e janeiro últimos. Tendo sequência, o agravamento da situação do emprego levará a uma piora adicional do quadro da demanda interna que passará a afetar mesmo os itens mais básicos e menos dependentes do crédito do consumo da população brasileira.

Portanto, a melhora da produção industrial não deve ser tomada como indicativo de recuperação da economia. A melhor interpretação do momento vivido pela economia brasileira na atualidade é que se desenvolve um processo de difusão de uma crise que no início (entre os meses de outubro a dezembro de 2008) foi uma retração industrial, mas que pela via da contração do emprego e das poderosas inter-relações da indústria com o setor de serviços, tende nesse início de 2009 a contaminar outros setores e a agravar a retração dos mercados para além dos bens industriais.

Diante desse quadro, as medidas mais recomendadas de política econômica continuam sendo a redução mais rápida da taxa de juros, tentativas de recompor e baratear o crédito, maior incentivo ao investimento privado e promoção do investimento público em infra-estrutura e habitação.


Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Fale com Júlio Gomes de Almeida: jgomesalmeida@terra.com.br

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