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Terça, 3 de março de 2009, 07h51 Atualizada às 12h18

O pior Oscar de todos os tempos

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Estatuetas milionárias.  Premiação a Danny Boyle visa mercado indiano, ataca André Setaro
Estatuetas milionárias. Premiação a Danny Boyle visa mercado indiano, ataca André Setaro

André Setaro
De Salvador (BA)

Não resta a menor dúvida: os Oscars conquistados pelo medíocre Quem quer ser um milionário? (Slumdog millionaire), de Danny Boyle, estão ligados à estratégia de Hollywood conquistar o mercado indiano. Caso contrário, não haveria outra explicação plausível para a enxurrada de estatuetas que o filme recebeu, a considerar ser uma obra de baixo nível, mal construída, oportunista tematicamente, aliás como é da característica de Boyle, um cineasta arrivista, limitado às suas circunstâncias e esperto observador dos assuntos que podem lhe render fama.

A Índia, na visão de Boyle, é um pardieiro, um lugar miserável (é verdade que existem muitos bolsões de miséria, mas há, também, centros avançados). Mas o país, sob as lentes desse cineasta, é uma espécie de África. Neste lodaçal, Jamal K. Malik (Dev Patel) é um jovem que trabalha servindo chá em uma empresa de telemarketing. Infância difícil, a comer o pão que o diabo amassou, batalhou muito para que pudesse chegar ao emprego que conquistou. Um belo dia, ele se inscreve num popular programa televisivo de perguntas e respostas. Desacreditado a princípio, aos poucos, porém, tem uma ascensão rápida, porque encontra, nos fatos de sua vida difícil e amarga, as respostas das perguntas feitas.

Boyle corta rápido demais, destruindo, com isso, qualquer possibilidade de visibilidade do espetáculo. Seu cinema é um cinema que pisa no acelerador do timing, destruindo este. Mas, de qualquer forma e de qualquer maneira, os Oscars abiscoitados (como gosta de dizer a imprensa e certos críticos) por Slumdog millionaire sempre servem para tomar o pulso da indústria cinematográfica hollywoodiana.

O outro indicado, que se pensava com muitas probabilidades de ser devidamente oscarizado, O curioso caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), de David Fincher, realizador muito festejado depois que fez Zodíaco (filme de investigação cujo tema se estabelece no próprio processo da investigação com mise-en-scène inteligente sem cair em fórmulas gastas da proposição de resolução do mistério. Trata-se de uma tentativa de decifrar o enigma), e do qual se esperaria muito mais (a considerar, também, na sua filmografia, o intrigante Seven, com Morgan Freeman, e descartar, completamente, Vidas em jogo, ainda que com o beneplácito ao terceiro Alien), O curioso caso de Benjamim Button é uma adaptação de F. Scott Fitzgerald moldada, com a pretensão devida, a ser uma reflexão sobre a finitude da vida e do tempo que passa, mas sem o brilho dos citados filmes anteriores do realizador e muito distante da graça da pena de Fitzgerald, da dicção deste, já que uma adaptação faz com que o estilo do escritor vá por água abaixo.

Creio que Fincher se dá melhor com a fabulação de investigação (como Zodíaco, como Seven) do que quando se aventura na educação sentimental. Penso que O curioso caso de Benjamin Button seria um ótimo filme se dirigido, se vivo estivesse, por um cineasta da verve, do humor, da propensão satírica, de Preston Sturges. O que resta do processo de adaptação em imagens é uma obra à cata de um capricho que acaba por se revelar insosso.

Em Nova Orleans, 1918, o personagem que dá título ao filme nasce com as doenças degenerativas próprias da velhice, isto é: nasceu velho. Com o passar do tempo, entretanto, o processo se inverte: ao invés de envelhecer, Benjamin se torna cada vez mais jovem. Quando ainda criança, ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver. Brad Pitt é Benjamim Button e o filme tem seu maior mérito no artista do make up.

Quanto a O leitor (The reader), de Stephen Daldry (cineasta da sensibilidade à flor da pele: Billie Elliot), há o maravilhoso desempenho de Kate Winslet, que abiscoitou merecido Oscar de melhor atriz, além de atores do primeiro time como Ralph Fiennes e Bruno Ganz (intérprete soberbo, que fez, há poucos anos, um Hitler impressionante, e tem em sua ficha trabalhos inesquecíveis como em Nosferatu, de Werner Herzog, O amigo americano, de Wim Wenders). O problema de The reader é que parece filme de televisão, ainda que, não se pode negar, o rigor da construção. Mas é o caso de se dizer: o objeto está bem montado, mas não excede, não emerge, dele, uma poética cinematográfica.

Kate Winslet (11 anos depois de Titanic) é uma mulher que, finda a Segunda Guerra Mundial, envolve-se com um rapaz que tem a metade de sua idade. Apesar da diferença temporal entre eles, há, durante uma certa passagem de suas vidas, o estabelecimento de um love story. Mas Kate desaparece e, oito anos depois, ele, já estudante de direito, vem a conhecer certas facetas horripilantes do comportamento da mulher em relação aos nazistas.

Dos outros filmes, não posso me manifestar, pois não os vi. Mas, pelo que li por aí, Frost/Nixon, de Ron Howard, tem uma interpretação muito convincente de Frank Langella como o presidente do caso Watergate. O filme é sobre uma polêmica entrevista entre Nixon e David Frost num programa de televisão. Howard é um diretor superficial, embora bom artesão. E Milk - A voz da igualdade, de Gus Van Sant (cujo remake de Psicose se constituiu em verdadeiro assassinato ao filme original de Hitchcock) foi o filme que deu o segundo Oscar a Sean Penn (o primeiro: Sobre meninos e lobos, de Clint Eastwood). Mas quem deveria ter abiscoitado (vai novamente o termo) o Oscar de melhor ator seria Mickey Rourke por sua performance em O lutador.

O grande Jerry Lewis, que nunca ganhou nenhum Oscar pela sua inestimável contribuição para a comediografia mundial e para a evolução da linguagem cinematográfica, recebeu um Oscar humanitário por causa de sua batalha em favor daqueles que sofrem uma espécie de paralisia degenerativa (que acometeu um de seus filhos). Jerry, zangado, mas educado, disse que nunca pensou que iria ganhar um prêmio por esta causa, porque a benemerência não deve ser premiada. Uma patuleia constituída de gente politicamente correta fez protesto contra a entrega da estatueta a Jerry Lewis por este ter dito que uma pessoa condenada à uma cadeira de rodas está condenada a ficar numa prisão a vida inteira. A gandaia não gostou do dito.

Que tempos!!


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

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