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Above and Below/Reprodução
Marca britânica criou sapatos feitos com o revestimento das cadeiras dos ônibus e metrô, couro 100% reciclado e solados com 33% de borracha de pneus usados
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Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)
O assunto parece recorrente, mas a cada dia, talvez por conta da quase onipresente fúria da natureza nos últimos tempos, há um reforço nas tendências de consumo que carreguem um apelo ecológico. Tudo que preserva, procura não agredir e trata o usuário e o seu entorno tem recebido o rótulo de atitude "verde". Com isso, já parece ser necessário separar o joio do trigo.
Com o agravamento da crise econômica mundial, e a recessão de consumo subsequente, a luta pelo consumidor se acirra, e ganha aquele que tiver o melhor desempenho. Nos tempos atuais, é preciso considerar que leva vantagem quem for mais "verde".
Vale lembrar que não se trata da cor propriamente dita, mas de tudo aquilo que pode simbolizar. Mas, por que não apostar numa cartela de cores onde o verde seja predominante? Sim, o verde, em qualquer tom, parece ser a cor da vez, talvez até um cenário positivo para o pós-crise.
Não se pode esquecer que, na situação atual, quanto mais sustentável for o mundo após o "ajuste forçado" com a recessão, melhor para todos. E é bem provável, que o consumidor com o bolso raso se torne mais seletivo e exigente, fazendo questão de saber como as marcas que consomem se comportam nos bastidores.
Essa nova atitude de consumo com os olhos bem abertos promete ser uma das grandes tendências de comportamento para o futuro. E em tempos de BigBrother, vigilância já parece ser uma tarefa trivial. A novidade virá no discurso em demonstrar que se está politicamente engajado nas causas ecológicas. E aí, como tudo que vira moda, quanto mais "fundamentalista", mais cool, mais bacana.
Para as empresas, depois da retração do consumo, parece ser um prato cheio. A disputa por produtos e serviços cada vez mais "verdes" promete alcançar a estratosfera, assim como a respeitabilidade dos seguidores da sustentabilidade com responsabilidade.
Para se ter uma ideia do que já se delineia, no outro lado do mundo, especificamente na Nova Zelândia, uma empresa de roupas e acessórios de lã criou uma forma de envolver o seu consumidor profundamente. A Icebreaker, famosa pela qualidade do seu fio de lã merino, agora expõe todos os seus parceiros e fornecedores, por meio de um código digital.
Explicando melhor, cada peça comercializada pela marca neozelandesa traz uma "Baacode", ou seja, uma referência que torna possível o rastreamento de todo o processo produtivo pelo qual a roupa passou, desde as condições e localização dos animais que produziram aquela lã, até o processo de confecção propriamente dito. Para isso, basta colocar o código no site da empresa, onde é possível ainda testar uma demonstração.
Outro exemplo, no qual a empresa faz uso de todos os recursos para se tornar transparentemente verde, vem da companhia aérea britânica Virgin Atlantic. Todo o tecido que revestia cerca de mil poltronas de avião foi trabalhado por empresas familiares de artesãos portugueses para a produção de duas mil bolsas de material reaproveitado.
Para que a ação fosse efetiva, até uma nova marca foi criada, a Worn Again (use novamente, em inglês), que comercializa até bolsas feitas com cintos de segurança. A empresa, além de produzir uma edição limitada com preços competitivos, empregou artesãos na Europa ao invés da mão de obra barata da China, além, é claro, de ter renovado suas aeronaves.
A ideia se assemelha muito à da empresa também britânica Above + Below, que se propõe a comercializar sapatos esportivos feitos com o revestimento das cadeiras dos ônibus e metrô de Londres, couro 100% reciclado e solados com 33% de borracha de pneus usados. Como cada linha do Metrô de Londres tem uma padronagem têxtil diferenciada, os produtos têm um apelo estético forte, além do emocional e de consciência.
Nada mal para um ano que começou turbulento, e que foi escolhido pela FAO/ONU como o ano das Fibras Naturais.
Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br
Terra Magazine