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Sexta, 6 de março de 2009, 07h55

Para não dizer que não falei de Obama

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Para o escritor Mia Couto, se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países
Para o escritor Mia Couto, "se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países"

Antonio Risério
De Salvador (BA)

E se Obama fosse africano? A pergunta é do escritor moçambicano Mia Couto, em artigo publicado no jornal Savana. Nele, Mia Couto, falando da emoção intensa de africanos comuns com a vitória de Obama, questionou mensagens enviadas por dirigentes daquele continente, quase todas tratando o presidente eleito dos EUA como "nosso irmão". Estariam sendo realmente sinceros? Obama seria mesmo "irmão" deles? Couto acha que não. Diz que, se Obama fosse candidato a uma presidência africana, passaria por situações terríveis, impostas pelos mesmos dirigentes que o saudaram.

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Se tivesse Obama como concorrente, um "Bush qualquer das Áfricas" mudaria de imediato a constituição e prolongaria seu próprio mandato. Obama não poderia ser candidato. Teria de esperar um bom tempo. Afinal, um mesmo presidente permanece no poder há 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbábue, 28 em Angola e 26 em Camarões. E se Obama conseguisse ser candidato, saindo, logicamente, por um partido de oposição, não teria espaço para fazer campanha. No Zimbábue, seria agredido, preso, etc. "Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia". Mia Couto: "Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países, porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes".

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Se acaso Obama chegasse a ganhar as eleições, "teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores".

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Mia Couto toca em outro ponto fundamental, do qual nossos analistas (de qualquer credo ou cor) não costumam tomar conhecimento. "Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um 'não autêntico africano'. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo presidente norte-americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos 'outros', dos de outra raça".

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Ainda Mia Couto: "A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anônimos - festejaram com toda a alma a vitória norte-americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa. Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de novembro nascia de eles investirem em Obama exatamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes". Dirigentes que, salvo raras exceções, "depois de terem morto a democracia, estão matando a própria política". E mais: "Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia".

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Mas vamos mudar o foco. Os discursos de Obama, desde a campanha, me fazem pensar em duas coisas que aproximam as culturas brasileira e norte-americana. A forte inclinação para a retórica. E o fato de que uma mesma forma literária foi praticada desde o início da história de nossos países: o sermão.

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A história política, religiosa, artística e intelectual dos EUA nos oferta uma formidável coletânea de frases de efeito. Thoreau, na "Desobediência Civil", escreveu: "Amamos a eloquência por seus méritos próprios e não pela sua capacidade de pronunciar uma verdade qualquer". Décadas antes, em "Lectures on American Literature", Samuel Lorenzo Knapp comentava: "Não se perde oportunidade de adquirir ou exibir eloquência neste país".

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No Brasil, os tupis amavam a palavra e a eloquência. Os guaranis cultivavam a "linguagem enfeitada". Os lusos trouxeram o discurso barroco. E os africanos, Xangô, orixá da justiça e da eloquência, dobrando a retórica a seus pés.

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O sermão começou aqui com as pregações jesuíticas, a parenética barroca de Vieira e seus descendentes. Nos EUA, com a prédica puritana. Os templos puritanos não tinham altares. As atenções se voltavam todas para o púlpito. O sermão era tão importante que até hoje nos referimos ao religioso norte-americano como "preacher", pregador.

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Aconteceu alguma coisa no Brasil, depois do fulgor de Vieira. Não se fala de nenhum grande pregador, entre nós, no século 18. No século seguinte, a retórica brilha em teatros. Nos recitais de Castro Alves. Nos discursos de Ruy Barbosa. Nos EUA, o sermão se gravou mais fundamente. Seu estilo deu o tom, a cor e a estrutura do discurso político norte-americano. E não haveria ritual público sem um orador (foi assim que se criou a tradição norte-americana do "discurso de posse" do presidente, que depois chegou a nós). Com a Bíblia sempre presente em suas frases. Quando discursa, o presidente norte-americano, desde Lincoln, é um "preacher". Um pregador. No campo do sermonário protestante.


Antonio Risério é poeta e antropólogo.

Fale com Antonio Risério: ariserio@terra.com.br

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