Terra Magazine

 

Segunda, 9 de março de 2009, 08h13

Deus é carioca e está online

Clarissa Barreto
Especial para Terra Magazine

De posse de um improvável cálice de vinho no verão do Rio de Janeiro, Paulo Gorenstein, 37 anos, senta em frente ao computador, se despe das fraquezas humanas e ganha onisciência. A transformação do funcionário da Petrobras, onde trabalha como consultor de SAP, ocorre à noite, depois de um dia que começou cedo. Às 6h, o carioca vai à academia. Depois, segue para a sede da estatal, no centro do Rio, de onde parte para aulas de jiu-jitsu na favela do Cantagalo. À noite, de banho tomado e com o cálice devidamente servido, Gorenstein vira Deus. Ou melhor, o Deus Virtual, nome de batismo do site que Gorenstein criou para receber os anseios de internautas lusófonos. Há pouco mais de quatro meses, ele responde por e-mail cerca de quarenta perguntas diárias direto do apartamento de dois quartos de Ipanema, onde mora sozinho. Os fiéis versam sobre a existência de vida após a morte, pedem conselhos amorosos e financeiros ou simplesmente desabafam contra o próprio Deus Virtual.

No ano passado, o loiro programador carioca, assíduo frequentador da praia, criou o site deusvirtual.com, invocando conceitos de autoajuda como a lei da positividade - na página, Gorenstein ensina que "para ganhar, você deve pedir" -, oriunda de best-sellers como O Segredo. "Fui dormir pensando de que forma poderia fazer um site para ajudar as pessoas. Acordei com a ideia de um Deus Virtual, que repondesse a todas as perguntas das pessoas, dando um toque humano à coisa", explica. Em uma semana, o programador pagou pelo domínio, desenvolveu o site e o colocou no ar. Mas e por que Deus, e não um mero conselheiro virtual? "Porque todo mundo gostaria de falar com Deus... Mesmo que pela internet", diz o programador que, não por acaso, também tem pós-gradução em marketing. Durante a semana, o maior número de acessos acontece no final da tarde. Já o dia em que as pessoas mais procuram o Deus Virtual é aos domingos, durante a noite.

Conseguir chegar ao Deus Virtual é relativamente fácil e não requer intermediários. Gorenstein anuncia no Google os préstimos de Todo-Poderoso e já há algum marketing espontâneo gerado na blogosfera graças à curiosidade do intento. Uma vez que o internauta está no site, o processo também é simples: já na primeira página, há um formulário, e basta que o fiel preencha os campos nome, e-mail - para receber a resposta - e mensagem. Há ainda a possibilidade de se manter o anseio anônimo; desta forma, servirá apenas como um desabafo, já que Gorenstein não o lerá.

Nenhuma demanda fica sem resposta, ainda que ela se restrinja a mandar um crente mais mal-educado para a puta que pariu, literalmente. Gorenstein enfrentou dissabores com um internauta mais engraçadinho que quis testar o bom-humor do Deus Virtual, mas o pegou em um mau dia. Gorenstein não armazenou em seus arquivos o diálogo com o internauta, mas lembra que ele o chamou de "bichinha pão-com-ovo". Na réplica, o carioca invocou a Biblia para comover o incauto: "Fazei ao outro o que gostaria que fizessem a ti". Em vão. Foi acusado de charlatanismo e de usar um português duvidoso, o que fez o Deus Virtual descer do Olimpo e lançar uma saraivada de impropérios sobre o acusador, que foi chamado, entre outras gentilezas, de filho da puta. "Tento ser menos reativo", admite Gorenstein que, diante de uma ameaça de processo por injúria, acabou por se desculpar com o rapaz. Mas ele também é capaz de rir com uma alfinetada. Mandado para o inferno, replicou: "Claro que não! Isso são modos?"

Nem só de grosserias é composto o rol de pedidos do Deus Virtual. Gorenstein acredita ter um dom para dar conselhos às pessoas, embora as dicas do Todo-Poderoso carioca não tragam propriamente novidades. Para quem está endividado, ele sugere renegociar as dívidas. Já para as moçoilas que o procuram em busca de um par para casar de véu e grinalda, a dica de Deus é: esqueçam. "Não somos incompletos e não necessáriamentes necessitamos um parceiro ou parceira para eternidade, como é vendido para nós (sic)." Para uma ameaça de traição da amiga com o namorado, a resposta também não é animadora: "Ela pode continuar a ser sua amiga e seu namorado pode um dia vir a ser namorado dela. Amor é coisa que acontece e não podemos interferir!" No campo amoroso, o Deus carioca segue à risca as próprias recomendações. Solteiro, tem um filho de quatro anos com uma ex-namorada ("só virei Deus depois da separação") e, por esse comportamento "liberal", se considera incompreendido. "Acredito em relacionamentos mais abertos, o que soa ofensivo para as mulheres", acredita.

O profeta de Ipanema não tem vinculações religiosas. Nascido judeu, ele cita também o budismo e o islamismo como norteadores de suas convicções. "Sigo o caminho do meio, como os budistas, cuido do meu jardim, como prega o Corão, e tendo salvar ao menos uma alma, como no judaísmo", enumera. "Não sou de família rica, mas sempre ganhei bem, tenho sorte com as mulheres. A verdade é que sempre tive tudo o que quis e quero retribuir toda essa sorte de alguma forma", explica.

Ainda neste ano, o Deus Virtual pode trazer novidades. Gorenstein quer amealhar voluntários em outras áreas do conhecimento - Direito, Medicina, Psicologia - para prestar atendimento in loco ou, pelo menos, mais especializado, aos fiéis que o procuram. "O difícil vai ser formar uma mentalidade de dar sem receber em uma equipe. Serão muitos 'deuses', também será complicado de controlar as vaidades", diz.

Além de não ganhar nada com o site, Gorenstein tem gastos fixos. O investimento mensal para manter o site no ar, custear o domínio na internet e anunciar os serviços no Google gira em torno dos R$ 200,00. O Deus Virtual não aceita anúncios e seu proprietário não pretende fazer dele uma fonte de lucro, embora não descarte vendê-lo para um eventual interessado. "Se me for pago um bom preço, poderia investir em ideias concretas para ajudar as pessoas", estuda Gorenstein. Entre os planos do Deus carioca, está a criação de uma empresa de microempreendimentos, para ensinar ofícios como pipoqueiro, vendedor de sanduíche na praia e cabelereiro popular a desempregados do Rio de Janeiro. A verdade é que ele quer ser parte da vida do maior número de pessoas possível. "Ser Deus vicia", admite.

 
Divulgação
Paulo Gorenstein, o "Deus Virtual": De um computador de Ipanema vem o Verbo

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol