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Segunda, 9 de março de 2009, 08h11 Atualizada às 08h39

O pianista e o cheiro do Bösendorfer

Fernando Eichenberg
De Paris

Fim das curtas férias no calor dos trópicos. No vôo de volta para Paris, o acaso me colocou em meio aos simpáticos integrantes da companhia de teatro chilena Viaje inmóvil. Imóvel em meu assento, mas cruzando os céus a mais de 900 km/h, confesso que o nome me provocou uma certa reflexão. Enfim. O grupo viajava para uma turnê de um mês na França com sua recente criação de teatro de marionetes, El Heredero. Na hora, pensei: a crise mundial não interrompeu tudo.

Segundo os números, o ano de 2008 foi especialmente pródigo para a cultura na França. Pelo menos na frequentação dos museus nacionais. No ano passado, o Louvre bateu o recorde de visitação: 8,5 milhões de entradas, 200 mil a mais em relação a 2007. O número de visitantes do Centro Georges Pompidou aumentou em 6,3% (2,75 milhões). A polêmica exposição de Jeff Koons duplicou o número de visitantes no Palácio de Versailles: 5,5 milhões. "Picasso et les maîtres", no Grand Palais, atraiu 750 mil curiosos em apenas quatro meses. O Museu d'Orsay registrou afluências recordes: 450 mil para "Picasso et Manet" e 350 mil para "Pastels". O número de espectadores nas salas de cinema do país aumentou em 6,2% (188,8, milhões) em um ano. Os espetáculos da Comédie Française tiveram um aumento de 10% de público.

Para 2009, no entanto, as expectativas são mais modestas. Nos EUA, museus fecharam, outros demitiram 20% do quadro de funcionários e cortaram drasticamente as despesas. Na França, será o primeiro ano em que o financiamento público para o Museu do Louvre ficará abaixo dos 50%. Para se ter uma idéia, em 2001, o orçamento do emblemático museu era de 80 milhões de euros, 70% garantido pelo Estado. Para este ano, o orçamento será de 230 milhões de euros, 48% provenientes de recursos públicos.

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Mas, mesmo que possa parecer provocação, o título da elogiada exposição do artista chinês Yan-Pei-Ming, em exibição no Louvre até o 18 de maio, nada tem a ver com a nova realidade financeira do museu: "Os funerais de Mona Lisa".

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Aliás, atento ao seu tempo, o museu ofereceu pela primeira vez seus cobiçados muros para uma mostra de HQ (BD, em francês). A alguns passos de antiguidades egípcias, autores de histórias em quadrinhos penduraram trabalhos originais, feitas sob encomenda ("Le petit dessein - Le Louvre invite la bande dessinée", até 13 de abril).

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Já o Centro Pompidou tem dado o que falar com a exposição "Vides - une rétrospective" (até o 23 de março). Trata-se de um antologia de exposições sobre o vazio, de 1958 aos nossos dias. Nove salas vazias. Uma memória artística do vazio. Para ajudar o público a compreender a arte do vazio, foi confeccionado um catálogo consequente de nada menos do que 600 páginas.

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No recentemente lançado Qu'est-ce-ce que le contemporain? (O que é o contemporâneo?, ed Rivages Poche), o filósofo italiano Giorgio Agamben também dá seus palpites. Segundo ele, a arte contemporânea seria aquela que "fixa o olhar em seu tempo para perceber não as luzes, mas a obscuridade". Ajudou?

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A França tem uma nova revista literária, Books. A publicação pretende debater a atualidade literária a partir de uma seleção de artigos sobre livros do mundo inteiro publicados na imprensa internacional. O nome em inglês provocou, é claro, protestos dos defensores do idioma francês e dos críticos da invasão do inglês, mas também, pasmem, compreensão. "As idéias mais estimulantes são emitidas por anglofónos. Não há nada de chocante, nesse contexto, em escolher um título em inglês", escreveu uma leitora, francesa. "A escolha do título não me chocou, talvez em razão de meu amor pela língua inglesa, mas também porque é preciso reconhecer que ela é mais internacional do que o francês", acrescentou outra conterrânea.

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Em sua conexão anglo-saxã, a revista relata o affaire de censura francesa no livro Tête-à-Tête: as vidas e os amores tumultuados de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, da inglesa Hazel Rowley. A obra foi publicada nos EUA e já traduzida em mais de 13 idiomas (lançada no Brasil pela ed. Objetiva). Em um artigo intitulado "Censura na França", escrito para o trimestral The American Scholar, a autora revela que diante da oposição de Arlette Elkaïm Sartre, filha adotiva do casal e executora testamentária do filósofo, a editora Gallimard se viu obrigada a recusar a publicação do livro na França. Arlette não queria a publicação de cartas de Sartre a algumas de suas amantes, e foi mais longe ao exigir à editora americana HarperCollins cortes no original. Os americanos recusaram, mas aceitaram pagar por uma versão francesa censurada, editada pela Grasset.

Mas a novela continua. Claude Lanzmann, antigo amante de Simone de Beauvoir, foi à Justiça contra a Grasset, exigindo cortes no livro e uma indenização de 75 mil euros. A editora cedeu: recolheu a edição, fez uma nova impressão (de 1 mil exemplares) e não se ouviu mais falar do assunto (nem do livro).

Mas tem mais. Passado um tempo, Claude Lanzmann denunciou censura, pois queria publicar as centenas de cartas que lhe foram escritas por Simone de Beauvoir, mas Sylvie Le Bon de Beauvoir, executora testamentária da filósofa, se opôs.

A propósito: Hazel Rowley prepara o livro Franklin and Eleanor Roosevelt: An Extraordinary Marriage. Pelo jeito, mais segredos de alcova a caminho.

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Pela mesma revista, fica-se sabendo das lições de história do regime autoritário de Vladimir Putin. Enquanto no Brasil se discute sobre "ditadura" e "ditabranda", na Rússia - apelidada por alguns de "democratura" - do onipresente ex-presidente e atual premiê Putin os manuais escolares sofreram uma revisão para promover uma "história positiva" do país. Nos novos manuais (para alunos e professores), os crimes da era stalinista são justificados como "necessidade histórica", o Estado é herói e os capítulos consagrados ao período pós-1999 - data em que Putin chegou ao poder - destacam "a luta contra a corrupção e a criminalidade no setor econômico".

O manual do professor ensina as principais linhas de análise histórica: a vitória da URSS na Segunda Guerra Mundial foi possível graças ao sistema estatal e ao gênio de Stalin; a Rússia é uma "fortaleza sitiada", cercada por um círculo de inimigos, entre os quais os Estados Unidos são o mais importante e perigoso; isso impõe "um modelo de governo russo" que exige "mobilizações" periódicas da população e a concentração dos recursos do país nas mãos de um Estado autoritário.

Em um encontro com professores de história, em 2007, Putin declarou: "Nossa história teve suas páginas problemáticas, mas quem não as teve? E essas páginas sombrias foram menos numerosas na Rússia do que em outros países. Elas foram, sobretudo, menos horríveis. (...) Nós não podemos nos cobrir de culpabilidade. Que os estrangeiros pensem, antes de tudo, ao que eles mesmo fizeram".

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Há alguns anos, um dos hits nas discotecas de Moscou, interpretado pelas três integrantes do grupo "Aquelas que cantam juntas", evocava a eterna cantilena amorosa da busca pelo par ideal. No ritmado refrão, as jovens clamavam por seu príncipe Romeu, um homem especial, como o presidente da nação: "Um como Putin, pleno de força/ Um como Putin, que nunca bebe/ Um como Putin, que não me insulta/ Um como Putin, que jamais me deixará". A canção se intitula, é claro, "Como Putin".

Ninguém poderá acusar a falta de adaptação do surrado culto à personalidade política soviética aos tempos modernos. Outrora, era nas escolas maternais da URSS que, recém-ensinadas a falar, as crianças declamavam: "Eu sou uma menina, eu danço e canto/ Nunca vi Lênin, mas eu o amo, ele me encanta". Anos depois, o palco de glorificação ao líder da vez são as pistas de dança da jovem "democracia russa". No espaço público, o presidente Vladimir Putin também faz dançar conforme a sua música.

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Robert Muchembeld é historiador francês, professor da Universidade Villetaneuse-Paris XIII e da Universidade de Michigan (EUA). Em seu estudioso ensaio recentemente publicado por aqui, "Une histoire de la violence" (ed. du Seuil, 498 pág.), sustenta o que não é de todo óbvio em tempos de crescente sentimento de insegurança: a violência vem diminuindo no Ocidente desde a Idade Média. No espaço de quatro séculos, o número de crimes de sangue foi dividido por cem, diz o historiador - que exclui as guerras das estatísticas de seu estudo. Hoje, os riscos são desiguais segundo as diferentes regiões do globo, reconhece, mas, segundo ele, o sentimento de insegurança nunca esteve ligado à realidade. A ser lido.

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Uma outra polêmica editorial não teve vida longa por aqui. François Wahl, filósofo e amigo do escritor e semiólogo Roland Barthes (1915-1980) protestou contra a publicação póstuma de Journal de deuil, recentemente lançado pela editora Seuil. Trata-se de uma traição à memória do escritor tornar público textos de estrita intimidade, acusou. Não foi o que pensou Michel Salzedo, irmão de Barthes e detentor dos direitos da obra do autor de "Câmara clara" e "Fragmentos de um discurso amoroso".

"Diário de luto" começa no 26 de outubro de 1977, um dia depois da morte da mãe de Roland Barthes, aos 84 anos. Até 15 de setembro de 1979, em 330 fichas o escritor fez anotações sobre a experiência da perda e do luto. "Eu transformo o 'trabalho' no sentido analítico (trabalho de luto, do sonho) em trabalho real de escrita", esclarece uma ficha de 31 de maio de 1978.

Em outras, escreve: "Ao fazer essas anotações, me confio à banalidade que há em mim"; "Não quero falar disso por medo de fazer literatura - ou sem ter certeza de que não o será - bem que de fato a literatura se origina dessas verdades".

"Mam está presente em tudo o que escrevi", confessou certa vez.

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O jovem pianista Alexandre Tharaud, 40 anos, sensação da música já alcunhado de "Glenn Gould francês", venera seu instrumento a ponto de acariciar seu verniz, de beijá-lo antes de tocar e de apreciar seu odor. "Você já sentiu o interior de um Bösendorfer?", indagou ao entrevistador. Pianista é uma profissão estranha, diz ele. São os únicos músicos que, nos concertos, não se exprimem em seus próprios instrumentos; os únicos que se apresentam ao público exclusivamente de perfil. Ele lembra Arthur Rubinstein (1887-1982). Quando lhe foi perguntado se temia a morte, o célebre pianista respondeu: "Como temer? Toda a minha vida me vesti de defunto diante de um instrumento que se assemelha a um caixão".

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Numa noite de quarta-feira, Philippe Baden Powell excede no manejo de seu caixão no palco da casa de jazz Duc des Lombards. Pianista de mão cheia, o filho do mestre violonista Baden Powell apresentou com seu quinteto standards da MPB com arranjos próprios e originais. À suivre. Próximo show no Studio l'Ermitage, no 15 de abril.

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De Hugo Pratt (1927-1995), criador do marinheiro aventureiro Corto Maltese, tema de um programa da rádio France Culture: "Tenho treze maneiras de contar a minha vida e não sei se há uma que é verdadeira". Sua filha, Silvina Pratt, deu uma definição do pai: "Era um homme à femmes. Partia com uma sacola contendo alguns pincéis, aquarelas, duas ou três camisas e livros. Não sabíamos nunca quando iria retornar".

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Abriu por aqui uma sanduicheria em sintonia com os atuais tempos de crise e de apertar os cintos. Na Goütu (51, rue le Peletier, 75009), todos os sanduiches (de 13 cm, pão feito à la maison, seis sabores diferentes) custam 1 euro. Bon apetit.

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Em meio as notícias que correm na parte inferior da tela da tevê, uma me chama especialmente a atenção: "A epidemia de gripe terminou: 2,8 milhões de pessoas atingidas em dez semanas".

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O inverno ainda não acabou por aqui, mas começa a dar sinais de cansaço. O calendário avança e os dias encompridam no hemisfério norte. No post scriptum da carta de 2 de fevereiro de 1925 à amiga Anna Teskova, a poeta Marina Tsvetaeva (1892-1941) escreveu:

"PS: Meu filho nasceu no domingo, ao meio-dia.

É, portanto, para os alemães, um Sonntagskind: ele compreende a linguagem dos animais selvagens e dos pássaros, descobre os tesouros.

A pedra do mês de fevereiro: ametista.

Ele nasceu em plena tempestade de neve."


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Sartre está no centro de polêmica editorial e amorosa

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