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Quinta, 12 de março de 2009, 08h10 Atualizada às 21h36

Duas notas

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

A crase no título da coluna da semana passada, "Candidatos à gramáticos", é uma prova da verdade de velho adágio segundo o qual o diabo mora na tipografia. Só vou dizer isso sobre o caso. Que, aliás, deveria ser - e acho que foi - considerado irrelevante.

Pensando melhor, vou comentar duas reações de leitores (e que não se diga que crase é um problema complicado, porque os leitores - não, nem todos os brasileiros letrados escreveram! - invariavelmente perceberam que o sinal estava sobrando). Houve quem perguntasse se era uma armadilha. E um leitor achou que crase era o tema da coluna, e por isso o título continha uma que não deveria estar lá. Ponto final.

***

Tardiamente, mas antes que o STF julgue o caso, vou meter minha colher de pau numa questão que pouco tem a ver com os temas habituais desta coluna, embora também não seja completamente estranho a eles. Afinal trata-se de avaliar argumentos.

Vou dizer duas palavras sobre o caso Cesare Battisti:

a) todos os que se posicionaram contra a decisão do ministro Tarso Genro destacaram que ele foi contra um parecer do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). Mas ninguém deu importância ao fato de que o resultado da votação final nesse órgão foi 3 a 2. Ou seja, não houve unanimidade.

De vez em quando ouço ou leio pedaços de notícias sobre julgamentos e assim fiquei sabendo que resultados não unânimes em júris são bom argumento para recursos. Dito de outra forma, Tarso Genro estava acompanhado, em sua decisão, por pelo menos dois membros do Conare.

b) não conheço quase nada sobre o funcionamento de justiça italiana, mas desconfio seriamente da movimentação política e das pressões que ministros e parlamentares daquele país fizeram para tentar alterar a decisão do ministro brasileiro. Em casos assim, tomo posições pelo faro: entre as posições de Berlusconi e as de Tarso Genro, nunca terei dúvidas.

Aliás, este é um princípio que sigo mais ou menos religiosamente: como é impossível inteirar-me de todos os assuntos, em muitos casos sigo critérios ideológicos. Na dúvida, não fico jamais com as posições da direita. Posso dar exemplos: se ligar a TV Senado e o Agripino Maia estiver na tribuna criticando uma posição qualquer, passada ou futura, de nosso governo ou de outro, já sei que minha posição seria defender o que ele critica. É óbvio que a mesma posição vale para Berlusconi e para seu ministério. Reconheço que decisões tomadas segundo esse critério podem me levar a arrependimentos e a mudanças posteriores.

Enfim, se não tiver bons argumentos para defender minha posição, mas se os tiver para não aceitar a posição contrária, decido sem receio. Se só houver duas possibilidades, recorro ao velho provérbio: dize-me com quem andas e te direi quem és. Apesar de exemplos como o de Jesus e Judas (que uso pedindo licença ao Millôr).

Acrescento um terceiro argumento: c) o Estadão submeteu o processo a vários advogados brasileiros e as conclusões deles não foram unânimes. Vários consideraram que as provas contra Battisti não eram conclusivas. Outros disseram que a condenação foi justa. Ou seja, há uma divisão de posições, de opiniões, de avaliações.

In dubio, pro reo.

***

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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