Terra Magazine

 

Quinta, 12 de março de 2009, 08h09

Milton Hatoum: "Não estou fincado só onde nasci"

Adriana Vichi/Divulgação
O escritor Milton Hatoum lança seu primeiro livro de contos, A cidade ilhada (Cia. das Letras)
O escritor Milton Hatoum lança seu primeiro livro de contos, "A cidade ilhada" (Cia. das Letras)

Claudio Leal

Manaus em transição, seres insulares. Primeiro livro de contos do escritor Milton Hatoum, "A cidade ilhada" (Companhia das Letras) reúne 14 narrativas breves que marcam uma transição temporal, geográfica e humana do universo amazônico. O autor de "Relato de um certo Oriente" e "Dois irmãos" transita em novas fronteiras ficcionais: outras cidades surgem em sua obra, tendência irreversível ao criador que não se sente com raízes somente fincadas na terra natal.

Suas raízes de viajantes são mais rasas, avisa Hatoum em entrevista a Terra Magazine. Busca uma imagem na flora:

- Tem uma árvore da Amazônia, chamada Sumaumeira, uma das maiores, considerada uma espécie de "rainha da floresta". Não tenho raízes de Sumaumeira, não estou fincado só no lugar onde nasci. Minhas raízes são mais rasas, são raízes de palmeiras.

Vencedor dos prêmios Portugal Telecom de Literatura Brasileira e Jabuti, Milton Hatoum lançou a novela "Órfãos do Eldorado" em 2008 e trabalha, atualmente, numa seleção de crônicas. Da experiência com narrativas mais curtas, antevê algumas transformações na linguagem de romancista:

- O romance vai ser uma forma mais abreviada do que foi o "Cinzas do Norte" e até mesmo "Dois Irmãos".

O escritor ironiza os tiques da crítica quando são analisadas obras de veio mais telúrico. Em recente entrevista à Folha de S. Paulo, Hatoum defendeu uma revisão das interpretações tradicionais da literatura brasileira "regionalista". Sem rótulos, ironiza:

- O curioso é que quando um escritor europeu fala de neve, de carvalhos, de árvores europeias, ninguém chama de exótico, né? (...) Mas, quando um escritor amazonense chama de curumim, parece exótico. No entanto, isso daí é totalmente incorporado a nosso imaginário, a nosso vocabulário.

Milton Hatoum lança hoje "A cidade ilhada", às 20h, no Sesc/Pinheiros, em São Paulo. Haverá um bate-papo seguido de sessão de autógrafos. No dia 19 de março, será a vez de Salvador, na livraria Tom do Saber, às 19h.

Confira a entrevista:

Terra Magazine - Como foi o trabalho de seleção e reescrita dos contos de "A cidade ilhada"?
Milton Hatoum - O primeiro conto data da época do Relato, 1989. Aliás, o Relato era inicialmente um conto. Descobri que tinha mais assunto e, quando me dei conta, já tinha escrito mais de cem páginas. E aí, quando terminei o Relato, percebi que um dos aspectos do romance não tinha sido explorado no conto que havia interrompido. Então escrevi "A natureza ri da cultura", com outro título. O primeiro conto data dessa época. Depois eu escrevi alguns contos, porque tinha uma questão pra escrever, e outros por encomenda.

Esse ofício de contista se deu durante a escrita de romances?
Foi. Na década de 90, escrevi a maioria desses oito contos que foram publicados. Quando terminei Relato, enveredei por outro romance que não foi publicado (risos) Mas, ao mesmo tempo, escrevi esses contos. Publiquei alguns no Brasil, outros fora, participaram de antologias no México, na Alemanha, nos Estados Unidos. E os últimos eu escrevi no semestre passado. Havia uma demanda dos leitores. Perguntavam por que eu não publicava tal conto... Aí eu reuni esses relatos e reescrevi todos. Eles não foram escritos visando uma unidade, mas talvez ela exista inconscientemente.

Esse livro pode marcar uma transição em sua obra literária? Abre para uma Manaus em transição e para outras cidades, saindo do universo que tem marcado sua obra até aqui. O crítico José Castello até notou que a Manaus do início do livro não é a mesma do fim.
Essa foi uma ótima observação. As primeiras e últimas páginas marcam também uma diferença temporal da cidade. E a Manaus de "Dançarinos na última noite" não é a mesma da "Varandas da Eva". É mesma cidade, sendo outra também. Com outros problemas, outras questões. É um salto da Província pra uma cidade industrializada, cosmopolita e com muitos problemas. Tem uma árvore da Amazônia, chamada Sumaumeira, uma das maiores, considerada uma espécie de "rainha da floresta". Não tenho raízes de Sumaumeira, não estou fincado só no lugar onde nasci. Minhas raízes são mais rasas, são raízes de palmeiras. Acho que há escritores que nunca conseguiram escrever sem se referir ao seu lugar. E grandes escritores. Falo do Faulkner, salvo um ou outro conto o próprio Guimarães Rosa, Jorge Amado... Se bem que Jorge tem textos sobre as andanças dele, a Navegação de cabotagem, a experiência dele fora do Brasil. Mas alguns escritores recriam, reinventam seu lugar. Metade da minha vida foi vivida fora de Manaus. Você também acumula experiências. Isso é bom por um lado porque o distanciamento te ajuda a repensar. Enfim, a própria memória funciona de outra forma.

No conto "Dois poetas da província", você trabalha com essa matéria?
É a história de um jovem que quer se evadir, quer sair da província, e do outro que sonha com o lugar pra onde o jovem ex-aluno está indo. E sabe tudo de Paris sem nunca ter ido a Paris. Nesse livro, tem pelo menos dois contos, "Bárbara no inverno" e "Encontros na península", que se passam na Europa e se referem à minha experiência fora do Brasil.

Em "A cidade ilhada", estrangeiros com experiências e códigos não-amazônicos são subvertidos. Experiências levadas pra lá são reviradas...
É, são estrangeiros levados para a região, mas deslocados. Essa eleição dos personagens estrangeiros vem desde meu primeiro romance. Em Relato, um dos personagens de que mais gosto é o fotógrafo alemão Dorner. Ao contrário dos nativos, ele percebe coisas que os outros não percebem - pelo olhar, pela vivência, pela sensibilidade. E minha infância, minha juventude, foi marcada por esses viajantes estrangeiros ou por estrangeiros da nossa rua. São pessoas que também adotaram Manaus, o Amazonas, ou foram adotadas pela cidade. Como meu pai, que era libanês e passou a maior da vida em Manaus, está enterrado em Manaus. Ele já era um brasileiro, o Líbano não fazia mais parte...

Já era uma ficção?
Era um Líbano imaginário. Meus professores inglês, francês e alemão eram estrangeiros, como acontece no Brasil todo. A particularidade do Amazonas é seu ilhamento. Tem o lado exótico, que é impossível de não ser evocado, porque a Amazônia é o inverso dos pampas (risos). Não é a mesma coisa. O curioso é que quando um escritor europeu fala de neve, de carvalhos, de árvores europeias, ninguém chama de exótico, né? Ou quando um paranaense chama de piau, um gaúcho chama de guri, ninguém acha exótico. Mas, quando um escritor amazonense chama de curumim, parece exótico. No entanto, isso daí é totalmente incorporado a nosso imaginário, a nosso vocabulário.

Guimarães Rosa trabalhou com pesquisa de linguagem.
Claro, Faulkner também. Todo escritor que se refere a uma região específica, fala do ambiente em que ele viveu e do qual tem conhecimento. Tem uma sabedoria, o narrador é aquele que sabe contar, que tem o conhecimento de uma experiência de vida. O Graciliano Ramos, quando usa termos do Nordeste, é porque é o que há de mais íntimo ao pensamento dele. É claro que para você escrever sobre outras regiões, tem que dominar sua vivência em outros lugares. O que importa, no fim das contas, é o texto, a qualidade do texto.

E o escritor trabalha com outras dimensões...
Tentei a mudança de registro, a mudança de paisagens nesse livro. "A cidade ilhada" não é apenas Manaus, são os seres também, os personagens que estão ilhados. De alguma forma, o leitor. O trabalho da leitura é solitário, é um exercício intelectual solitário.

Machado de Assis usava os contos como uma espécie de laboratório para temas que desenvolveria em romances. Você vê no conto essa possibilidade?
Acho que sim. O conto pode ser uma semente, uma espécie de ponto de partida para um relato mais extenso. Pode ser uma novela, um romance. Em todo caso, acho que há um diálogo temático entre os contos e os romances. Entre alguns contos, pelo menos. Isso você nota no Machado, no Flaubert, nota no Dostoiévski, no Tolstói. O Faulkner tem até personagens que aparecem nos contos e estão nos romances. Porque tudo isso faz parte de um microcosmo, de um pequeno universo ficcional, que você constroi ao longo de sua vida. Então, os contos remetem aos romances, e vice-versa. Muitos dos grandes romances da literatura do Ocidente foram, inicialmente, pensados como contos. Isso tem na obra de muitos escritores. Quem lê "Um coração simples", está lendo alguma coisa de "Madame Bovary", por exemplo. Cada conto dos "Três contos", de Flaubert, aponta para os grandes romances dele. Até mesmo o "Salambô".

Até o Balzac.
Balzac era mestre nisso. Balzac escreveu tantos relatos, tantos romances, novelas, que a obra dele funciona como um imenso vaso comunicante. Vargas Llosa faz isso também. É um escritor, até certo ponto, balzaquiano. Os personagens de Vargas Llosa transitam muito de um romance para o outro. Basta lembrar do sargento Lituma. É como se os personagens não se esgotassem nos romances e tivessem uma sobrevida nos contos.

Em "A cidade ilhada", retornam Emilie e tio Ran...
E aí não é uma nostalgia do personagem, mas é uma espécie de ânsia de infinitude (risos)

Mas acontece uma coisa inversa. Você trabalhou primeiro esses personagens num romance. É diferente, não?
É, porque no conto o personagem é tomado por um problema, um conflito, um mistério que ronda, mas você não pode desenvolver muito a intriga, a trama, nem mesmo o próprio personagem. Porque o conto, apesar da quebra das convenções dos gêneros, ainda é um relato breve. Não é isso que determina o conto, porque a crônica também é um relato breve. É difícil separar os gêneros, sobretudo conto e crônica.

No Brasil, as fronteiras são mais tênues.
Mas o importante é, nessa brevidade, você dar uma feição forte ao personagem, imprimir um campo forte ao problema do personagem. Tanto que no primeiro conto, "Varandas da Eva", há vários personagens e eu tentei falar brevemente do destino de cada um. Mas o que importa, mesmo, é um deles - e o narrador. Os outros estão implicados. O desafio é como, nesse conjunto de vozes, você dar consistência ao conjunto, uma coesão interna. É o desafio da literatura.

No conto "Varandas", abre-se uma multiplicidade de caminhos, como se o narrador estivesse numa floresta. Até que se vai chegando...
A uma clareira. E a clareira é, de fato, a questão moral. Quer dizer, é a surpresa, a perplexidade, e como que no fim, já depois da juventude... É um conto muito conradiano, o que me inspirou esse conto foi uma novelinha do Conrad, "Juventude". Acho que há uma outra preocupação, até mesmo uma linguagem diferente, como está em "Bárbara no inverno". Gostaria até de aprofundar essa questão, falar um pouco da política.

Ali é o gérmen de um romance?
É, eu acho que pode ser desenvolvido, é o capítulo de alguma coisa mais extensa. Não sei bem o que é.

Nos últimos anos, você tem se dedicado a narrativas breves: a novela "Órfãos do Eldorado" e agora "A cidade ilhada", além de organizar uma seleção de crônicas. Como sua linguagem chegará a seu próximo romance? Haverá transformações?
Algumas, sim. Eu comecei um relato, não sei o que é ainda. Relato longo. Eu espero que seja longo porque, quando eu penso que já não tem mais o que escrever... Tenho que me conter muito, porque minha imaginação dá muitos saltos. Na verdade, depois do "Cinzas", um romance que me deu muito trabalho - quase uns quatro anos -, fiquei um pouco cansado de um texto mais longo. Sua vida muda, você fica mais velho, envelhece, fica enrugado... (risos) Começa a andar de bengala e está escrevendo um romance... Mas, agora, eu tenho o acúmulo de várias experiências. O romance vai ser uma forma mais abreviada do que foi o "Cinzas do Norte" e até mesmo "Dois Irmãos". Ao mesmo tempo, comecei a escrever outros contos, com outras preocupações. Contos com uma forma memorialística mais direta do que esses publicados.

"A cidade ilhada" tem os traços memorialísticos, mas com despistes.
Queria me esconder menos nesses narradores. Não vejo nenhum mal nisso, não vejo nenhum mal em ser memorialista ficcional, uma espécie de memória/ficção. E aí entrariam - não sei nem se são contos -, alguns relatos de vida, de experiências com viagens, até mesmo de observador, com um traço jornalístico às vezes. Isso também não me incomoda nem um pouco. Talvez a própria prática de cronista me conduza pra um outro caminho. É sempre o trabalho do leitor que é mais importante. É o modo de ler que determina o gênero, não é a intenção do autor. É a recepção, a forma da leitura, a maneira de ler. O gênero é uma expectativa do autor. Pode ser até uma vontade, mas às vezes o leitor lê de outro modo. O leitor pode transformar um conto num relato apenas ficcional ou num relato autobiográfico. Tem toda a liberdade para isso. Os escritores de língua alemã tem esse lado um pouco analítico, confessional, biográfico, mas ao mesmo tempo enganador, dissimula ali uma ficção, o que Proust fez.

Em "A natureza ri da cultura", você escreve que "a imaginação se nutre de coisas distantes no espaço e no tempo, mas a linguagem encontra-se no tempo". É essa sua relação com a literatura?
Essa, pra mim, é a frase que mais importa. Desde que haja distância temporal, se você já tem uma relação insegura com o passado... O que importa é você não ter certeza do passado. Quando você relativiza ou acolhe as incertezas do que aconteceu, esse é o momento de escrever uma ficção, de reinventar o passado.

 

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