Terra Magazine

 

Quinta, 12 de março de 2009, 16h41 Atualizada às 20h03

Protógenes gravou superior. CPI vaza como grampo

Aloisio Milani

A trilha é nebulosa. De certo é que há muita confusão, no mínimo, no que se escreve e diz sobre alguns dos alardeados grampos ilegais da Operação Satiagraha. Por exemplo: na mídia desta quinta-feira, 12, detalhes sobre o que teria sido um grampo ilegal feito por Protógenes Queiroz, delegado que comandou a Operação Satiagraha, e seu então superior hierárquico, Paulo de Tarso Teixeira, ex-chefe da Divisão de Repressão aos Crimes Financeiros da Polícia Federal. Aí há um engano elementar. Não houve um grampo. O que o delegado fez foi gravar, o que é legal, sua conversa telefônica com o superior.

Certo, seguro mesmo, é que agora - sob silêncio da PF e do Ministério da Justiça - informações vazam dos arquivos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Grampos, em Brasília, e são interpretadas ao gosto do freguês. Incluída aí a defesa de Daniel Dantas. O alvo é notório: o delegado Protógenes. O objetivo é claro: tentar "contaminar" a operação; como quer, aliás, a defesa.

Sempre se poderá provar, no devido tempo, a intencionalidade; e quem escolherá o tempo não será Daniel Dantas, nem seus aliados.

Protógenes Queiroz gravou sua conversa com Paulo de Tarso. Gravou porque, segundo sua ótica, havia motivos para tanto. Foram revelados (ler aqui) em julho do ano passado por Terra Magazine.

Na véspera da Operação Satiagraha, dia 7 de julho, superiores de Protógenes buscaram extrair detalhes da operação: nomes, locais de buscas, acesso à íntegra da decisão judicial. O delegado negou sob argumento de que poderia haver vazamento. Em abril, no dia 26, a Folha de S.Paulo havia revelado que a PF se preparava para prender Dantas e os seus. Fato que levou Dantas ao Supremo Tribunal Federal e a obter um habeas corpus.

Protógenes temia mais. Outros delegados, sob intensa pressão haviam abandonado a operação antes de Protógenes assumir. No dia 7 de julho o delegado não cedeu. Os superiores contra-atacaram.

No dia da Satiagraha, dia 8, as ordens superiores são para Protógenes comandar toda a operação de dentro da sede da superintendência. Não deve sair às ruas. A ordem peremptória foi a de ficar no 6° andar até o final da operação. O delegado deixou o local apenas no início da ação, o que provocou profunda irritação e uma nova decisão: não sair do prédio da PF. Protógenes só deixou a sede em São Paulo às duas da madrugada do dia seguinte.

O delegado passou quase tanto tempo na sede da PF quanto o homem a quem prendeu, Daniel Dantas.

Tudo isso relatado por Terra Magazine a 9 de julho. A seguir, trechos do publicado à época:

"(...) Mais uma ordem. O diretor-geral, Luiz Fernando Corrêa, o queria em Brasília, para explicações, no dia seguinte. Até o meio-dia. E mais.

Ele seria submetido a duas punições. Uma, disciplinar, em Brasília, e outra, um inquérito para apurar incidentes durante a Satiagraha, em São Paulo.

E mais.

A logística se vai. Esvaziamento. Para examinar as toneladas de papel e os bytes apreendidos com Dantas e os seus, restam três delegados e dois peritos.

Day after. A Operação é um sucesso de público e mídia. Paulo Tarso comunica: o diretor cancelou a ida a Brasília.

E mais.

O diretor quer saber qual a necessidade de pessoal, de logística.

Mas, sob uma condição.

Tudo terá que ser especificado. Cada documento importante, cada nome encontrado, terá que ser relatado ao comando da PF.

Protógenes Queiroz, que preside o inquérito, não pretende abrir tudo, passo a passo, documento a documento, salvo na hora legalmente devida. Teme vazamentos.

Mas tergiversa, e pergunta sobre como enfrentar as duas punições anunciadas. É tranqüilizado.

É informado que a bronca em São Paulo não irá adiante e que, em Brasilia, Paulo Tarso cuidará da condução das coisas.

A promessa não seduz. Protógenes comunica que, por seu lado, informará ao Ministério Público os vazamentos na operação.

Daniel Dantas é solto. Por ordem do juiz De Sanctis, Protógenes Queiroz prende Dantas novamente. Desta vez, pessoalmente, até o algemar no Instituto Médico Legal. (...)"

A gravação

Diante dos fatos, o delegado Protógenes resolveu gravar a conversa com seu superior. A conversa também foi publicada por Terra Magazine dias depois do ocorrido:

"(...) Era a evidência da fratura na cúpula da Polícia Federal. No telefonema, dois enxadristas pinçam cada palavra que vão usar, temendo deixar expostas suas rainhas ao adversário."

O delegado reclama da falta de pessoal. Só 3 agentes, analistas, para varrerem mais de 120 gigabytes de dados apreendidos na operação. Paulo de Tarso também reclama. Logo no começo, diz que a reunião que seria realizada em Brasília para discutir a Satiagraha fora cancelada.

"O clima piora. Protógenes questiona sobre o inquérito disciplinar que estaria em fase de abertura, contra ele, pelos vazamentos da Operação. Paulo de Tarso inclui outro Tarso na história, o Genro:

- O ministro da Justiça já encaminhou requerimento solicitando informações da Polícia Federal, porque ele foi questionado. Sobre aquela filmagem. Então, o seguinte. O DG (diretor-geral Luiz Fernando Corrêa) adiantou que essa situação aí vai ser apurada."

A filmagem referida no diálogo é a feita pela TV Globo durante a prisão do ex-prefeito Celso Pitta. A sequência foi rápida:

"O delegado retruca. Garante que não está preocupado com a questão. Já tem um "grande volume de dados" para criar um novo inquérito, só sobre vazamentos. Vazamentos de dentro da própria PF, esclarece.

- Eu apenas... já tenho um grande volume que tá sendo informado ao Ministério Público e ao juiz diuturnamente. O assunto termina de forma abrupta. Voltam a falar da falta de pessoal para a operação."

Esse foi o capítulo da gravação entre Protógenes e seu superior Paulo de Tarso nos bastidores da Polícia Federal. E que agora retornam com a divulgação de dados pela Justiça e pela CPI.

Sob a responsabilidade do juiz Ali Mazloum, da 7ª Vara Criminal de São Paulo, corre o inquérito que investiga três possíveis vazamentos. O primeiro se refere às imagens obtidas pela TV Globo no dia da operação. O segundo sobre as informações publicadas pela Folha de S.Paulo no dia 26 de abril. O terceiro (e último até agora) sobre a possibilidade de agentes da Abin terem divulgado informações sigilosas.

A maioria das informações foram repassadas para a CPI dos Grampos, em Brasília. Só aguardar os próximos capítulos dos vazamentos.



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Marcela Rocha/Terra Magazine
Protógenes gravou conversa com superior na PF

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