
|
Guga Melgar/Reprodução
Sérgio Britto - Prêmio Shell de Melhor ator 2008
|
Deolinda Vilhena
De Santos (SP)
A coluna de hoje é uma declaração de amor a Sérgio Britto, um homem de teatro como não mais existe nos dias de hoje. Decidi escrevê-la ao receber o release enviado pela Luciana Medeiros - amiga de tantos anos, parceira de tantas andanças na assessoria de imprensa e no jornalismo cultural - falando da reestreia do Sérgio no Rio de Janeiro.
Lendo o release tive vontade de entrevistá-lo, quis aproveitar minha passagem pela Cidade Maravilhosa durante o tríduo momesco - como diz Anna Ramalho - mas Sérgio tinha se mandado para Buenos Aires. O desencontro desencadeou em minha mente uma viagem de volta ao passado e descobri que Sérgio Britto, sem que eu mesma soubesse, teve uma importância enorme na construção dessa pessoa que hoje vos escreve, que leciona teatro, que vive do e para o teatro desde os 17 anos, e já lá se vão 32 anos...
Na verdade escolheram bem a minha data de nascimento, nasci em 1959, ano no qual no Brasil surgia o Teatro dos Sete criado pelo diretor Gianni Ratto e os atores Fernanda Montenegro - nasci do dia do aniversário dela -, Fernando Torres, Sérgio Britto e Ítalo Rossi e na França a ATEP - Associação Teatral dos Estudantes de Paris, fundada por Ariane Mnouchkine célula matter do Théâtre du Soleil.
Faço parte da última geração que teve a sorte de estabelecer suas referências artísticas e pessoais ao cruzar o caminho de pessoas como Sérgio Britto e outros que citarei/lembrarei ao longo desse artigo. Com certeza o teatro que aprendemos a amar e a fazer é bem mais rico - mesmo com as eventuais falhas e desvios de caráter de alguns - do que farão, um dia, esses cujas referências são os "novos atores", as "celebrinutilidades", os ex-BBB, verdadeiros maus presságios rondando o futuro das artes cênicas no meu país...

Com Graça Moema, Fernanda e Ítalo Rossi em "O Mambembe" (1959)
(Foto: Arquivo pessoal/Reprodução)
Não tinha idade para acompanhar o Teatro do Doze nem o Teatro dos Sete - mas vivi o Teatro dos Quatro com furor - e com isso conheci Sérgio Britto graças à televisão, onde todos os atores do Teatro dos Sete, assim como Ratto faziam uns bicos para garantir o leite das crianças no caso de uns, o aluguel no caso de outros, porque falamos de um tempo em que se fazia teatro graças aos "papagaios" levantados nos bancos.
Sérgio dirigiu - com Gonzaga Blota - a minha primeira novela que me teve como telespectadora assídua, apaixonada que sou pelos filmes/séries/novelas de época: era A muralha, de Ivani Ribeiro, baseada no romance de Dinah Silveira de Queiroz. Tinha eu 8/9 anos pois isso foi entre 1968/1969...
A novela tinha no elenco Fernanda Montenegro, Mauro Mendonça, Rosamaria Murtinho, Stênio Garcia - cuja canção do personagem Aimbé eu cantarolo ainda hoje - e Nathalia Timberg, sua personagem levava uma flechada que cravou na minha memória para todo o sempre o efeito da maquiagem. Mas aí Sérgio era apenas um nome, que eu guardei porque nessa época fazia uns cadernos e uns álbuns multicoloridos sobre os atores e as novelas que gostava.
No ano seguinte ele saiu do meu imaginário para a tela da TV lá de casa com a novela "Sangue do meu sangue". Que elenco! Francisco Cuoco, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro, Henrique Martins, Nicette Bruno, Rodolfo Mayer, Rosamaria Murtinho, Nívea Maria, Mauro Mendonça e Nathalia Timberg - fazendo Sarah Bernhardt. Ali me apaixonei por ele, Sérgio era um belo homem...como me apaixonei logo depois por Sérgio Cardoso, que seria a grande paixão de minha adolescência o que me fez viúva pela primeira vez aos 12 anos de idade...
Mas isso são apenas recordações. De verdade, verdade mesmo conheci Sérgio no Teatro SENAC em Copacabana - eu o administraria anos depois por alguns meses quando esteve arrendado a Beyla Genauer. Estávamos em meados da década de 70 e passava minhas férias no Rio, num ap na Cinco de julho, entre Constante Ramos e Dias da Rocha, bem próximo do SENAC. Na época já mordida pelo vírus do teatro, inoculado que me foi por Bibi Ferreira em "O Homem de la Mancha" com dose de reforço na "Gota d'água", era um verdadeiro rato de teatro. De terça a domingo, com direito a duas sessões na quinta, no sábado e no domingo, para desespero da família que até hoje odeia teatro. E com um teatro ao lado de casa ia para porta ver a chegada dos atores, pedir autógrafos, tentar uma conversa.
Nessa época vi pela primeira ao vivo, em cena, Sérgio Britto. A peça era "A Noite dos Campeões" que deu a Cecil Thiré um Molière de Melhor Diretor, ao lado de Sérgio estavam Ítalo Rossi - que levou também uma estatueta do Jean-Baptiste para casa e Otávio Augusto. Engraçado que me lembro também do Zanoni Ferrite por lá... Não sei se misturo as estações.
Mas é verdade que foi lá também que vi pela primeira e única vez na vida Paulo Pontes, ele havia estreado a "Gota d'água" no teatro Tereza Rachel, não longe dali, e passou para dar um abraço na turma. Me senti da casa vendo aquele encontro - para mim inusitado.
Depois, vi no mesmo SENAC - um teatrinho de 200 lugares, se tanto - "Os Filhos de Kennedy" com direção do Sérgio, no elenco José Wilker - o Wilker dos bons e velhos tempos -, Maria Helena Pader, Otávio Augusto, Suzana Vieira - antes do surto psicótico sem cura no qual se encontra até hoje - e a saudosa Vanda Lacerda.
Fico pensando como era possível fazer teatro com um elenco desses numa casa de 200 lugares, e todo mundo ganhava o seu dinheirinho e vivia feliz...
Uma vez minha mãe preparou casquinhas de carangueijo e pudim de tapioca e levamos para o teatro na hora do lanche, entre a matiné das cinco e a sessão da noite de um domingo. Surgimos do nada, e fomos muito bem recebidas e o lanche que levamos fez um mega sucesso. E assim, como quem não quer nada querendo tudo, começava a frequentar "l'envers du décor" ou o back-stage, ou as coxias do teatro brasileiro.
Em 1978, já profissional de teatro, vi nascer o Teatro dos Quatro, um sonho transformado em realidade por Sérgio Britto e o casal Paulo Mamede - deslumbrantemente lindo - e Mimina Roveda - uma das mulheres mais classudas que conheci na vida. Como os tempos eram outros e não existiam no meio nem intermediários, nem o maldito famigerado patrocínio, o teatro foi comprado por meio de um empréstimo, como o foram o Clara Nunes e o Vannucci, e havia uma necessidade de ocupá-lo em todos os horários em busca de fontes alternativas para ajudar a abater as dívidas.
Não sei como foi, mas consegui convite para a inauguração do teatro. Vi a estreia de "Os Veranistas" de Górki, dirigida pelo Sérgio, com cenários do Hélio Eichbauer, luz do Jorginho de Carvalho, e com um elencão: Ítalo Rossi, Luís de Lima, Renata Sorrah, Rodrigo Santiago, Tetê Medina - o que foi feito de Tetê alguém saberia me dizer??? - e Yara Amaral. A nobreza do teatro brasileiro ali estava.
Nascia nessa noite um dos mais importantes centros de produção teatral do Brasil e a história há de registrar isso, um teatro que "tornou comercialmente viável um repertório que muitos achavam incompatível com o sucesso de uma casa de espetáculos. Mas em meio a isso, foi responsável pelo lançamento de autores ainda desconhecidos no Brasil, e acolhendo apresentações de outras manifestações artísticas que não o teatro, com o sentido de um verdadeiro centro cultural."
Quis o destino que em março de 1981 eu fosse trabalhar no Teatro Clara Nunes, como assessora de imprensa e depois secretária e produtora da própria Clara e isso tudo aos 21 anos de idade. Nessa época criei laços fortes com o Teatro dos Quatro.
Foi lá que conheci Aurélio de Simoni, emendando fios e acendendo lampadinhas. Foi lá que vi nascer os magos da luz como Luis Paulo Neném e, o hoje premiadíssimo, Maneco Quinderé. Foi lá que conheci Xodó a sonoplasta de 9 de cada 10 espetáculos em cartaz no Rio dos anos 80. Foi lá que conheci Juliana Carneiro da Cunha que só reencontraria em Paris 20 anos depois fazendo "As Lágrimas amargas de Petra von Kant". Foi lá que ri e chorei muito com Elizabeth Savalla e Fernando Eiras na peça "Barreado".
Se a cabine de som e luz do Teatro dos Quatro falasse... quantos beijos roubados, quantos namoros começados, outros tantos terminados... E o sobe e desce de cadeiras do dos Quatro para o Clara Nunes? Os sucessos se alternavam e era um empresta cadeira aqui, empresta cadeira lá... Bons tempos de um teatro família de verdade.
Muito da minha formação devo ao Teatro dos Quatro. Olhava Sérgio, Paulo e Mimina com tanto respeito, tanta admiração, tanta vontade de um dia ser como eles, sonhava um dia trabalhar com eles, sonhava um dia ter um teatro como o deles. Quantos sonhos ainda por realizar!
Perdi a conta dos espetáculos do Teatro dos Quatro que assisti, no próprio teatro ou em outros palcos da cidade, mas me lembro bem das direções de Sérgio para "Afinal Uma Mulher de Negócios", "Os Órfãos de Jânio" e "Tio Vânia". Assim como me lembro de tê-lo visto diversas vezes em cena em "Papa Highirte", "Rei Lear" (no Clara Nunes, com a Fernandinha ainda garota fazendo um clássico), "Quatro Vezes Beckett" - que deu a Ítalo seu quarto prêmio Molière e me lembro até hoje de fugir com ele e Beyla Genauer do Teatro Municipal para jantar no Lamas estatueta debaixo do braço - "Assim É...(Se Lhe Parece)", "Quartett" - com a minha deusa loira Tônia Carrero, mas isso vi na Laura Alvim -, "A Cerimônia do Adeus" - na qual ele fazia um Sartre apaixonante e onde conheci Mauro Rasi - , "O Jardim das Cerejeiras" e "Meu querido mentiroso". Chego a conclusão que Sérgio foi o ator que eu mais vezes vi em cena, assim como Nana Caymmi é a cantora de quem mais discos, CDs e DVDs tenho na vida. Só que minha paixão pela Nana é explícita e essa que descubro agora pelo Sérgio era meio enrustida...
Mas como tudo que é bom dura pouco, a Clara morreu, o Paulo César Pinheiro vendeu o teatro, e Sérgio, Mimina e Paulo cansaram de correr atrás da bola, dos papagaios bancários ao patrocínio da Shell, que durou anos, foi um passo, que se proporcionou momentos inesquecíveis aos amantes do teatro deixou também em mim uma dúvida, será que foi o fim ou o começo do patrocínio que decretou o fim da sociedade Teatro dos Quatro?
Não sei a quem pertence o dos Quatro hoje, como não sei a quem pertence o Clara Nunes, mas duvido que hoje aconteçam por lá coisas tão ou mais interessantes do que as que vivemos por mais de uma década. Mas queria agradecer publicamente ao Sérgio por tudo o que nos proporcionou no palco e fora dele. E aproveito para fazer o mesmo a Paulo Mamede e Mimina Roveda.

Monstro sagrado do teatro brasileiro(Foto: Guga Melgar/Divulgação)
Para os que não viveram nada disso, por incompetência ou porque não eram nascidos, o que dá no mesmo, e moram no Rio a dica máxima é assistir "A Última gravação de Krapp" e "Ato sem palavras I", dois textos dramáticos de Beckett que ganharam a interpretação magistral de Sérgio Britto em um momento iluminado de sua experiência, aos 85 anos, coroado com o prêmio Shell - edição Rio de Janeiro - de Melhor ator de 2008 na última terça-feira.
Ao receber o prêmio Sérgio afirmou: "há peças que eu fiz que eu era indicado para prêmios e não ligava. Esse Beckett eu queria ganhar, porque foi, pra mim, uma coisa nova. Isabel Cavalcanti me reinventou, cobrou tudo de mim, fez um novo Sérgio Britto." Não por acaso Sérgio foi ovacionado pela plateia do teatro Oi Casa Grande, no Rio, a classe - reconhecida? - o aplaudiu de pé na entrega dos troféus.
"Ato Sem Palavras 1" - jamais havia sido montado nos palcos cariocas. E, "A Última Gravação de Krapp", teve, antes desta montagem, apenas uma encenação na cidade (há quase 20 anos). Os espetáculos renderam ao ator - além do já citado Shell - uma leva de prêmios e elogios rasgados da crítica. Além de homenageado central da revista Veja Rio, como Carioca do Ano, recebeu os prêmios da APTR, foi eleito Personalidade do Teatro pelo jornal o Globo em seu prêmio "Faz Diferença" e a peça está entre as Dez Melhores do Ano do mesmo jornal. Imperdível...vou lá conferir e levar meu abraço a esse grande homem do tão matriarcal teatro brasileiro.
SERVIÇO "A ÚLTIMA GRAVAÇÃO DE KRAPP" E "ATO SEM PALAVRAS I"
Autor: Samuel Beckett
Direção: Isabel Cavalcanti
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Ney Madeira
Iluminação: Tomás Ribas
SESC Ginástico - Av. Graça Aranha, 187 - Centro - (021) 2279-4027
De sexta a domingo às 19h30 até 5 de abril
Ingresso: R$ 20 (R$ 10 para estudantes e mais de 60 anos e R$ 5 para comerciários)
Classificação etária: 16 anos
Duração das peças: 35 minutos /14 minutos
P.S. Para a turma de Brasília: dia 17 de março, a partir das 19h, na Livraria Dom Quixote do CCBB, Sérgio Maggio lança o livro "Conversas de Cafetinas" (Arquipélago Editorial). Trata-se de oito perfis de mulheres donas de bordéis da Bahia mais o texto dramatúrgico Cabaré das Donzelas Inocentes, inspirado em 11 anos de pesquisa em prostituição (UFBa e UnB). Quando escrevi sobre o livro aqui em Terra Magazine apostava no talento de Sérgio mas ainda não tinha lido o livro. Já li. Recomendo com muito mais entusiasmo. E quem não está em BSB pode - e deve - procurar nas boas casas do ramo.
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
Terra Magazine
» Duras, Lulu, Milú, Gardi e Nirto