
Marcelo Carneiro da Cunha
Quanto a vocês, estimados milhares de leitores dessa coluna, não sei, mas desde a minha primeira e última comunhão eu não me sentia tão ex-católico. Eu até que andava em uma fase moderada e inclusiva, acho que a eleição do Obama deixou todo mundo bonzinho, até mesmo um insensível como esse que vos escreve. E bem nesse momento ecumênico aparece esse bispo pra estragar o meu bom humor.
Quanta ruindade, heim, seu bispo? Quanta maldade. E isso com uma menina como essa menina, um ser humano dos que mais precisam e necessitam do tipo de amor incondicional que o seu chefe, aquele da Galiléia e que parece ter sido um bom sujeito, pregava até pregarem ele.
Pois em primeiro lugar eu pensei em pedir ao senhor para me excomungar. Eu não faço muito uso da minha alma imortal mesmo; não me preocupo em olhar pra minha consciência e alisar os meus pecados. Aliás, nem penso em pecados, nem mesmo quando entro em uma loja da Haagen-Dasz, e ainda tenho um poderoso Bradesco Saúde, portanto, medo, só de barata. Pode excomungar, vai!
Mas aí, pensando melhor, acho que é injusto punir a mim, que não fiz nenhum mal que seja, nessas semanas ao menos. Melhor dirigir a ira divina pra quem realmente foi ruim demais, de torcer braço de criancinha enquanto ninguém vê. Melhor excomungar quem merece. Bispo, o senhor deveria pedir pra sair.
O senhor usou do seu escasso poder para maltratar uma pobre, pobríssima menina, vítima de tanto azar e tanto abuso que ela mereceria automaticamente toda a compaixão do mundo. Sabe o que é compaixão, seu bispo? Se estudou latim, compaixão vem de com+passio e isso quer dizer compartilhar do sofrer. Sofrer junto, compreender da maneira mais intensa, porque sofrida na mesma qualidade de quem sofre. A coisa mais nobre que existe, essa tal de compaixão. E sabe quanto dela o senhor demonstrou possuir?
Estupro, seu bispo. Gravidez de gêmeos aos nove anos de idade, risco de vida para uma vítima. Vítima, seu bispo, ou o senhor também acha que ela provocou a própria tristeza?
Aborto deve ser uma das experiências mais dramáticas e uma das escolhas mais difíceis que uma mulher pode ter que fazer. E isso quando ela tem escolha.
Nós, homens, que não temos a benção (usando uma palavra que o senhor conhece de vista) de poder gerar filhos, não vivemos a responsabilidade pela escolha que as mulheres precisam fazer. Podemos e devemos apoiar essas escolhas, porque o corpo é o delas e ninguém, ninguém mais pode tomar essa decisão. Podemos e devemos apoiar e criar as condições para que a escolha, a que for feita, possa ser vivida. Aborto em condições seguras e dignas, se essa for a escolha. Cuidados com a criança, no que ela necessitar; cuidados materiais e carinho assegurado, se essa for a escolha. Essa é a nossa missão, como homens, como seres humanos, como sociedade.
Uma das coisas erradas do nosso tempo é que as leis dos homens foram feitas por homens, mesmo as que afetam definitivamente as mulheres. Se as leis que nos regem fossem feitas por homens e mulheres, leis sobre o aborto seriam diferentes e melhores.
Aliás, o bispo, na sua colossal ignorância, alegou que ele é quem conhece e executa as leis de Deus. Que Deus, cara-pálida? Se as leis dos homens são ainda feitas por homens, como falei ali acima, as leis de Deus foram feitas por homens velhos e muito mal-humorados, como o senhor bispo, só que em outros tempos. E eles detestavam as mulheres, vai lá entender por que. Deve ter a ver com o fato de que as mulheres podem ter filhos e eles não. Bando invejoso, deus nos livre.
O senhor quis impressionar o seu chefe, não é mesmo? Não aquele de antes, que seguramente não aprovaria a sua atitude rinocerôntica. O atual, o alemão azedo, o Bush do Vaticano. Dele o senhor pode esperar um cartão de parabéns e uma promoção, não é mesmo? Foi isso que fez o senhor ser tão intransigente e cruel?
Pois tudo que o senhor conseguiu foi unir as pessoas de bem em torno de uma compreensão e de um amor pelo que não pode ser solucionado, mas pode ao menos ser tornado suportável. O senhor nos fez admirar os médicos, amar a menina. Obrigado, o senhor, seguramente sem desejar isso, ajudou.
Ser excomungado já foi o fim da vida, em vida. Hoje? O senhor hoje somente poderia causar um dano mais relevante a essas pessoas se pudesse cancelar o CPF delas, e não pode. O senhor hoje não pode efetivamente nada, pra nossa sorte. O senhor poderia, no entanto, ter um coração e optou por não ter. E isso é imperdoável.
Por isso, por tudo mais que já houve, pelo que sua igreja apoiou ou provocou, pelas guerras que devastaram séculos, pelo massacre dos indígenas; pelo que vocês aprovaram que fosse feito aos negros, pelo que o senhor propôs que fosse feito a essa menina e seus parentes e médicos, pelo que o senhor quis que acontecesse, eu declaro que o senhor, aqui na minha luxuosa laje em Pinheiros, desde hoje, está excomungado, para todo o sempre, amém. Além disso, e isso sim é uma punição séria, o senhor nunca, mas nunca mesmo, vai ser convidado para um churrasco aqui em casa.
Portanto, aqui na laje o senhor está excomungado, ninguém ama o senhor e sua alma está condenada a ouvir axé o dia inteiro. Aqui em casa o senhor e que o senhor representa não estão presentes, nunca. Azar o seu, que opta por ignorar a grande e rica experiência humana através do convívio com os mais diversos e não apenas com os que rezam pela sua cartilha.
Que vergonha, seu bispo!
Sem nenhum abraço
Marcelo
Terra Magazine
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