Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Labirinto Digital, Mario Kuperman. São Paulo: Editora Marco Zero, 2005, 158 páginas.
O cineasta Mario Kuperman é diretor de dezenas de documentários e autor de doze livros, a começar de As Regras do Jogo (1968), chegando a Ponto de Bala (1998). Seu último, de ficção, deve ser Novelas Nervosas (2006), e este Labirinto Digital, a sua aventura no gênero ficção científica.
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É um romance curto, que acompanha os passos do jovem agente da Polícia Federal Diego Bonato, enviado a Manaus para investigar, sigilosamente, uma suspeita de crime eleitoral num futuro indeterminado em que uma espécie de democracia direta compete com a democracia representativa. As pessoas têm o poder de votar diretamente em questões nacionais, por meio de um toque na tela da televisão - mais ou menos como Jorge Luiz Calife imaginou no romance Horizonte de Eventos (1986).
Logo no primeiro capítulo, Diego conhece e se apaixona pela chilena Eleonora, uma contrabandista vivendo ilegalmente no Brasil, suspeita de envolvimento em um assassinato. Eleonora é o símbolo maior das oscilações de Diogo, entre cumprir seu dever e se abrir para outras formas de entendimento da sociedade que ele jurou defender como policial.
Seu primeiro aliado na sua investigação é Laudelino Machado, funcionário do Ministério do Interior e homossexual assumido, que conhece os meandros da sociedade manauense, e que lhe apresenta o místico Gilberto Gaia, virtual heremita que lhe ensina um cumprimento secreto e lhe indica a cartomante Vanda Veiga. Ela, além de envolvê-lo numa conversa enigmática, leva-o a indagar a Eleonora sobre sua coleção de bonecas. Uma delas, danificada, leva-o a um consertador de brinquedos Jorge Coelho. Com todas essas pessoas ele tem conversas significativas, que ele absorve como um bom discípulo. Com Coelho ele descobre a existência de um movimento anarquista moderado, os ácratas - cujo gesto mais radical parece ser o abafamento de discursos políticos com gargalhadas. E é desse modo, cheio de rodeios e movimentos circulares, e sem qualquer suspense, que Diego se aproxima, em sua investigação, do hacker índio que pode ou não estar por trás da sabotagem tecnológica do televoto. Ao fundo dessa trama, um projeto de lei que preserva a floresta amazônica, amplamente apoiado pela população mas alvo de um esquema político predatório.
Os diálogos são muito bons, embora repetitivos, assim como as transições de uma situação a outra. Igualmente boa é a alternância entre os diálogos (discurso direto) e o emprego do discurso indireto livre, em que o narrador toma as palavras dos personagens. A estrutura dos capítulos alterna dois em primeira pessoa (sob o ponto de vista de Diego) e dois em terceira. Por quê? "Se fosse possível atrelar atrás de mim uma minúscula câmera que gravasse tudo!", diz Diego, o narrador em primeira pessoa (e talvez o alter ego de Kuperman, o cineasta de documentários). "Eu poderia então examinar meus comportamentos, como os de um terceiro, vistos de fora!" É o que o recurso oferece ao leitor - uma outra perspectiva sobre os atos de Diego - exceto pelo fato de o truque soar arbitrário e incapaz, de fato, de enriquecer as perspectivas em torno do herói.
Enfim, o texto é tão aforístico quanto o de um Graham Greene em O Americano Tranqüilo (1955), com o agravante de que todos os personagens partilham com Diego seus lemas e pensamentos: "Investigar é reconhecer que se sabe pouco." "Crianças são seres radicais." "Política requer envolvimento integral, mais do que só cabeça ou corpo." "Fizeram do homem um réles apêndice das máquinas." "Neste Brasil, a lógica morre um pouco a cada instante." E assim por diante.
Labirinto Digital é de 2005, mas foi escrito em 2003, e nele Kuperman especula sobre o futuro do "socialismo brasileiro" da Era Lula: "Só na virada do milênio as coisas começaram a mudar. Foi decretada a moratória, uma drástica reforma agrária e começou a socialização de que estávamos necessitando desde os tempos do Império... Os setores retrógrados voltaram a apelar para os militares. Afinal de contas, sempre tinha sido assim, os guardiões da ordem chamados a intervir quando a hegemonia das elites estivesse em perigo." Quem fala assim é um certo Golberi, que teria conseguido, de maneira não especificada no romance, "interromper a fermentação política observada nos quartéis". É, ironicamente, portanto, o avesso do Golbery do Couto e Silva (1911-1987), general que foi chefe do SNI e um dos cabeças do golpe de 1964.
Dessa agitação, surge o futuro descrito por Kuperman. Trata-se, é pena, de um futuro inconsistente. Mencionam-se muitos gadgets e meios de transporte high-tech, ao lado de expressões antiquadas do futurismo da ficção científica, como pastilhas e comprimidos alimentícios. Apesar do título, há pouca tecnologia digital - além da TV interativa que parece extrapolada dos esforços atuais de inaugurar a TV digital no Brasil, e Kuperman mantém a velha suspeita intelectual brasileira contra o veículo. E nenhum dos personagens incorpora o futuro, em suas atividades: são um acadêmico/burocrata, um guru amazonense, uma cartomante, um consertador de brinquedos, um policial federal...
Não apenas o leitor fica sem visão clara do contexto político e social (num romance que é tanto FC quanto ficção política), como é confrontado com um futuro em que podemos reconhecer instituições e o status quo de hoje (corrupção, fraude, tráfico de influência), e que ao mesmo tempo oferece este quadro de engenharia social: "Aqui no Brasil as crianças só têm contato estreito com os pais até os cinco anos de idade, quando começa a instrução formal... o Estado aloja e nutre a garotada, cuida da educação. Com isso conseguimos moderar os vínculos familiares, que tanto comprometem o nivelamento das oportunidades." O próprio Diego é fruto dessa situação - mas eu pergunto: alguém realmente antecipa a substituição da célula familiar pelo pátrio poder estatal, no futuro próximo? Parece outra idéia herdada de uma FC muito antiga - ou dos delírios comunistas do passado.
O leitmotif central do romance é a hesitação entre papéis ¿ policial e amante, agente repressor e cidadão de tendências liberais, mas também entre tais marcas do presente e um cenário futuro sem consistência. E ainda mais: entre mergulhar de cabeça nos gêneros que evoca - a ficção científica, a ficção de detetive e a ficção política - ou se contentar com uma espirituosidade leve, atenção às atitudes e aos relacionamentos cotidianos, certa consciência social e sensibilidade de esquerda comuns no mainstream brasileiro. Tudo isso é espelhado pela constante hesitação de Diego ¿ que já começa o livro hesitando, questionando suas assunções, e embora tome decisões drásticas no final, derradeiramente não se transforma ao longo do romance. E esse parece ser outro elemento próprio da ficção de gênero com o qual o autor não quis se engajar.
Não é à toa, que, assim como numa novela de televisão, o livro termine com um grande gesto conciliador que aplaca de vez conflitos que mal havia se esboçado como drama, no romance: um casamento - mas entre Machado e seu amante Fausto Souto. Que tenha sido um casamento gay não deixa de sugerir, concretamente enfim, algo sobre esse futuro que hesita tanto em se configurar.
Em 1986, no prefácio de Burning Chrome, a coletânea de contos de William Gibson, Bruce Sterling lançava o seu desafio do futuro consistente: "É difícil superestimar a dificuldade do esforço em se criar um futuro crível, um de que os escritores de FC têm se esquivado há anos. Esse fracasso intelectual responde pela ominosa proliferação de histórias do pós-apocalipse, fantasias de espada-e-feitiçaria e aquelas onipresentes space operas em que os impérios galácticos escorregam convenientemente de volta ao barbarismo. Todos esses subgêneros são produtos da urgente necessidade dos escritores de evitarem se enroscar num futuro realista."
O Brasil nos próximos 50 anos parece ser, como tema, uma espécie de buraco negro da FC brasileira. Mas no debate ficção de gênero x mainstream literário, é interessante notar que, em sua maior parte os autores nascidos e criados dentro da ficção científica raramente enfrentam o desafio de criar futuros consistentes para o Brasil, e os poucos que tentaram enxergá-lo foram autores do mainstream como Kuperman, ou Ruy Tapioca (com Admirável Brasil Novo, de 2001).
Em geral, fracassaram redondamente, pela mesma falta de ousadia em suas especulações. Mas ao menos tiveram a coragem de especular.
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Romance do cineasta Mario Kuperman acompanha os passos do jovem agente da Polícia Federal Diego Bonato
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