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Sábado, 14 de março de 2009, 08h19 Atualizada às 09h24

O canto da patativa - 100 anos

Gal Oppido/Divulgação
Patativa do Asserá fotografado pelas lentes de Gal Oppido para livro O poeta do povo
Patativa do Asserá fotografado pelas lentes de Gal Oppido para livro "O poeta do povo"

Aloisio Milani

Patativa do Assaré foi cego do olho direito. O mesmo olho que Luís Vaz de Camões tivera perfurado em Ceuta. Uma comparação quase inevitável. Camões morreu esquecido e sustentado por uma miserável pensão assinada por D. Sebastião. Hoje o português é um dos símbolos máximos da bela poesia. Em terras brasileiras, Patativa representou o lado oposto da representação clássica. Fez parte de um Brasil popular, anônimo, esquecido e renegado. Neste mês de março de 2009, comemora-se seu centenário de nascimento, mas com a triste lembrança de sua morte, aos 93 anos, por culpa de uma pneumonia.

A história de Patativa começou em 1909, lá na Serra de Santana, entre o rio São Miguel e o Barriguda. Um casebre humilde, caiado de barro, onde cresceria o garoto Antônio Gonçalves da Silva, mais tarde apelidado com o nome de uma ave do sertão: a patativa. Um pássaro de cor cinzenta, pluma fina e canto afável:

"Sou um patativa liberto
Canto fora da gaiola
É sempre triste e certo
O verso da minha cachola".

Sertanejo, humilde, franzino, leitor voraz de Castro Alves, o poeta cearense caiu cedo na boca do reconhecimento. Seus poemas foram gravados por Chico Buarque, Fagner, Rolando Boldrin, Téo Azevedo, Zé Ramalho, Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho e tantos outros. Não é muito para quem declamava morte e vida com o mar de sertão dentro de si. Um jeito matuto de olhar a vida. Patativa se monta jeitoso. Sem esforço ou teoria.

"Sou fio das mata
Cantô de mão grossa
Trabaio na roça
de inverno e de estio
A minha chupana é tapada de barro
Só fumo cigarro de páia de mio".

Fora do Brasil, ele também não foi patavina. Já em 1977, o professor Raymond Cantel começou a estudar os versos de Patativa na disciplina de Literatura Popular Universal da Sorbonne, em Paris. Quando veio ao Brasil nos anos 70, o professor Cantel considerava Patativa entre os dez melhores poetas populares do mundo.

Lançou os livros Inspiração Nordestina (1956), Ispinho e Fulô (1988), Cante lá, que eu Canto Cá (1978), Aqui tem coisa (1994), os discos Poemas e Canções (1979) e A terra é naturá (1981). O livro-homenagem O poeta do povo, lançado pela editora CPC/UMES, ainda é um marco sobre sua obra. O texto é escrito pelo pesquisador Assis Ângelo e o projeto gráfico e fotográfico é de Gal Oppido.

Assis Ângelo, em conversas para o livro, escutou uns versos de Patativa: "Conheço que estou no fim / E sei que a terra me come / Mas fica vivo o meu nome / Para os que gostam de mim". Era um sinal extremamente lúcido sobre sua atordoante velhice. Seu legado? Como já era viúvo, deixou sete filhos, 21 netos, e um esquadrão de poemas que alevantaram o "Brasil real", como gosta de dizer o escritor Ariano Suassuna. Esse Brasil se contrapõe ao "Brasil oficial", que nega nossas raízes. Ouvir tão alta voz do povo é buscar a essência de uma veia brasileira ainda perdida.

O fotógrafo Gal Oppido enviou a Terra Magazine a foto acima que registrou em sua visita à Serra do Assaré para a edição do livro O poeta do povo. Oppido relembra como foi esse trabalho. "Quando me convidaram para o projeto, o texto do livro já estava pronto. Mas sugeri uma viagem até o Ceará para fotografar a fundo esse universo rico de Patativa do Assaré. E assim foi feito", diz.

"A caatinga é linda para a fotografia. A serra é muito rica em paisagens, oferece vários desenhos. A cidade também tinha sua identidadade própria", descreve. Com esse espírito estético, Gal Oppido fotografou Patativa do Assaré na casa onde nasceu. "Ele e o irmão declamaram poemas cerca de cinco minutos enquanto eu fotografava. Parecia um repente", afirma.

Oppido ainda guarda na memória o pitoresco. "Diferentemente de mim, Patativa não era calvo, mas não tirava o chapéu de jeito algum para fotografar. E raramente também os óculos escuros, seu estilo pessoal", descreve. O poeta posava para a câmera. Na busca de um instante mais informal, por várias vezes Gal Oppido rodeou sorrateiramente o personagem. O tiro vinha certo: "Gal, num tá me fotografando não, né?".

Em São Paulo, o centenário de nascimento de Patativa do Assaré é comemorado no tradicional espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura na Casa das Rosas, localizada na Avenida Paulista. A comemoração conta com exposições temáticas, palestras, improvisações, dinâmicas com rimas, oficinas e a ilustre presença de repentistas. Com uma programação que se estende de crianças à idosos, a Casa das Rosas abre as portas para a literatura de cordel, os repentes e, é claro, o brasileiríssimo Patativa do Assaré. Voe, anjo Patativa!

 

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