Terra Magazine

 

Sábado, 14 de março de 2009, 17h24

Eloisa Cartoneira: criadores diante da crise

Tomás Eloy Martinez
Do The New York Times

O Boca Juniors, último campeão argentino, perderia para a modesta equipe do Newell's Old Boys na Bombonera, o tradicional estádio do bairro da Boca, mas ninguém poderia imaginar o que aconteceria naquele meio-dia de verão.

Os fanáticos chegavam ao estádio dispostos a comemorar, com as suas bandeiras e seus gritos de guerra. Turistas de Israel, do Brasil e da Alemanha caminhavam pelo sul de Buenos Aires. Por alguns poucos pesos tiraram fotos abraçados com um sósia de Diego Maradona, um rapaz forte e crespo que vestia uma camiseta da seleção argentina com o número 10.

Ao passar pelo que já foi uma garagem e agora é uma vitrine multicolorida, no número 467 da Rua Brandsen, um turista inflamado perguntou se a mesa posta na calçada era o refeitório público.

"Não, cara!", informou Osa, a atendente. "Esta é uma reunião da Eloísa Cartonera. Somos uma cooperativa, fazemos livros com papelões".

Osa vende sua excelente arte gráfica por baixos preços, mas não aceita qualquer pagamento pelas maravilhas da sua cozinha, as massas caseiras com molho que preparou para receber um grupo de amigos em visita na editora independente que a resgatou das suas idas e vindas pela cidade de Buenos Aires atrás de papelões para revender.

"Pela Coronel Díaz até a Santa Fe / juntando papelões, papéis, pedaços / de jornais velhos, garrafinhas, plásticos, / ia sozinha, toda pintadinha / como uma bonequinha entre os lixinhos", escreveu Washington Cucurto na "La Cartonerita", um poema sobre mulheres como Miriam Merlo, nome com o qual Osa nasceu na província do Chaco, há 25 anos.

Nesta semana voltou à sua terra para divulgar os livros da Eloísa na Feira do Livro Chaqueño y Regional.

Osa trocou o carrinho que empurrava pelas ruas por objetos cortantes, estênceis e pelas tintas que utiliza para produzir as capas dos livros da "editora mais cheia de cores do mundo", conforme Cucurto, autor de "Cosa de negros" e "El curandero del amor", um dos fundadores da Eloísa Cartonera.

Outras mulheres e outros homens - e outras crianças, infelizmente - vendem a sua "colheita" de papelões neste pequeno local da Boca a um preço cinco vezes superior ao que os intermediários da reciclagem pagam por quilo.

Eloísa Cartonera é uma comunidade artística e social que fez, pelas pessoas marginalizadas pela sociedade de consumo, muito mais do que fizeram as políticas municipais e nacionais depois da crise econômica de 2001 na Argentina. Uma lei diz que os papeleiros são trabalhadores, mas o que a lei lhes concede é apenas uma carteira, um par de luvas e um avental.

Para protegê-los foi instituída, por decreto, a criação de Centros Verdes onde poderiam separar sem risco os papelões dos vidros jogados no lixo, mas os Centros Verdes funcionam apenas no papel.

Reunidos em cooperativas, os papeleiros têm direito a receber do governo de Buenos Aires um carrinho com rodas e 200 pesos. María Gómez, estudante de Comunicação Social e ativa participante da editora, enumera esses benefícios públicos tão escassos para a magnitude do sofrimento.

O que para os funcionários talvez sejam apenas estatísticas sem alma, aqui são todas histórias, nomes próprios, seres humanos que deixam na cidade a sombra de suas felicidades e suas desventuras.

Conhecem perfeitamente os livros que publicam e quando os vendem, nunca o fazem às cegas. Segura de si, Osa me recomenda "El atravesado", um relato do colombiano Andrés Caicedo, que se suicidou aos 25 anos em Cali, sua cidade natal. Fala-me de um livro anterior de Caicedo, "¡Que viva la música!", e da inesperada celebridade póstuma do escritor.

A editora surgiu como um recurso da imaginação diante da crise. Cucurto e o artista plástico Javier Barilaro faziam poemas ilustrados em cartolina, mas tiveram que interromper seu trabalho de um dia para outro quando a desvalorização da moeda levou às nuvens o preço do papel.

A idéia da editora nasceu em 2003, quando os papeleiros já eram inseparáveis da paisagem de Buenos Aires. Cucurto pediu a vários autores a cessão solidária dos seus direitos para poder começar.

"Buscamos material inédito ou esquecido, mas também de vanguarda e cult", disse Cucurto.

O próprio Cucurto também se tornou um autor cult. O seu nome é repetido nos congressos acadêmicos dos Estados Unidos e, pelo menos, cinco estudantes de doutorado escrevem teses sobre a sua obra.

A Eloísa Cartonera se antecipou a muitas grandes editoras no descobrimento e na divulgação de autores que logo se tornaram importantes. Vende seus livros a baixos preços, em edições destinadas a serem jóias de colecionadores. Todas as capas são diferentes, todos os exemplares são únicos.

A linha infantil é pequena, mas alguns títulos se mantêm em continua reimpressão: "El sol albañil" e "Las casas del viento", de Ernesto Camili.

A mistura de função social com animação literária gerou uma onda de editoras semelhantes na América Latina. Primeiro, em 2004, foi a Sarita Cartonera, no Peru: Sarita é o nome de uma santa que a Igreja não reconhece, mas que o povo acredita ser a padroeira do marginalizados. Depois surgiu a Yerba Mala Cartonera, na Bolívia.

Em outubro a Universidade de Madison, Wisconsin, organizará um encontro de editoras que utilizam papelão.

"Pela primeira vez todos nos encontraremos", conta María Gómez. Lá estará a Animita Cartonera, a idéia de um grupo de estudantes de literatura da Universidade Diego Portales em Santiago do Chile. A saga continua no México (La Cartonera e Santa Muerte), no Paraguai (Felicita Cartonera e Yiyi Jambo) e no Brasil (Dulcineia Catadora).

Os despojos da crise fizeram com que algumas pessoas se sentissem como nada, como ninguém. Privadas dos seus direitos básicos, supôs que esse nada a retirava de um mercado no qual só vale o que se pode comprar o vender. Ao invés de aceitarem, procuraram em todos os cantos da imaginação até que encontraram uma forma de manter a sua ética de vida com trabalhos que antes não haviam sido explorados, incorporando ao mundo novos objetos que geram valor, emprego e produção. Esse caminho é duro, mas dá uma liberdade sem preço e, principalmente, dá espaço para a alegria.

Até agora Osa não conseguiu juntar dinheiro para assistir a um jogo do Boca Juniors, mas descobriu que existem outros sonhos igualmente belos, como "Salón de belleza", o livro de Mario Bellatín que é o seu preferido, e cujas capas já fez muitas, com muito amor.


Tomás Eloy Martínez é escritor e tem livros traduzidos em mais de 30 idiomas. É diretor do programa de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Rutgers. Artigo distribuido pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Reprodução
Site da cooperativa Eloísa Cartonera, que faz livros com papelões

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