
Julio Gomes de Almeida
De São Paulo
Os últimos dados macroeconômicos permitem estabelecer a direção que está sendo trilhada pela economia brasileira. O PIB, segundo o IBGE, sofreu uma queda muito forte no último trimestre do ano passado, mas a produção industrial começou o ano com sinais de melhora. Teve um pequeno aumento em janeiro com relação ao mês anterior, após três meses de declínios muito intensos e, ao que tudo indica, poderá registrar nova progressão em fevereiro. Esta reação da indústria que apenas compensará uma parcela da queda vertiginosa de produção ocorrida no trimestre final de 2008, já representa, para alguns, um alento ou uma luz no fim do túnel para a economia brasileira.
A retração do PIB de 3,6% no quarto trimestre de 2008 fez com que um crescimento econômico que poderia ter chegado a 6,5% no ano como um todo tenha ficado em 5,1%. O informe do IBGE também é revelador de que o tombo do trimestre final do ano passado foi quase todo ele construído na indústria. A queda foi generalizada entre os macro setores da economia, mas não há termo de comparação entre o que ocorreu com o setor industrial, cuja queda alcançou inimagináveis 7,4%, e a agropecuária (-0,5%) ou o setor de serviços (-0,4%).
Esses números permitem concluir, primeiramente, que de fato houve um contágio significativo da economia real brasileira à crise internacional e, em segundo lugar, que esse contágio se deu pela porta de entrada da indústria.
Porque foi tão intenso o impacto da crise externa sobre a economia real brasileira é uma questão que não tem resposta simples, já que o contágio da economia desta feita ficou longe de reproduzir os mecanismos de transmissão do passado. Houve fuga de capitais, mas isso não levou a desconfianças sobre a sustentabilidade das contas externas brasileiras, ao contrário de outras crises; a desvalorização do real foi significativa (quase 50% considerando as médias das cotações mensais do dólar desde julho de 2008), sem que isso se traduzisse em incontido aumento da inflação e consequente elevação das taxas de juros; e o setor público e o setor financeiro saíram ilesos, pelo menos por enquanto, da presente crise.
A gravidade do retrocesso do setor real brasileiro tem um componente externo determinado pela transmissão ou contágio da crise internacional através do comércio exterior e do crédito externo. Mas, o determinante interno foi tão ou mais relevante.
No primeiro caso, trata-se da retração causada pela crise mundial nos preços e volumes exportados pelo país desde outubro do ano passado. Sendo um grande exportador de commodities que importa predominantemente manufaturados de maior conteúdo tecnológico, o Brasil sofreu imediatamente os efeitos da crise pelo lado das exportações sem que as importações caíssem na mesma intensidade, algo que poderá vir a ocorrer, porém, após um certo tempo. A redução das exportações traduz, portanto, um "efeito-contágio" da crise externa sobre a economia real que em parte é causa da retração da economia.
A esse fator se somaria o contágio através do crédito. Maiores dificuldades para o financiamento de empresas brasileiras com recursos externos vinham ocorrendo desde a primeira "rodada" da crise internacional em julho de 2007, a partir de quando se contraíram e se tornaram instáveis os acessos aos recursos para captação em mercados de capitais internamente e no exterior. Essas limitações se agravariam em meados do ano passado e se tornariam dramáticas desde setembro após a quebra do Lehman Brothers. Seja pela via direta de obtenção de créditos no exterior, seja pela via indireta de financiamento através de repasses de recursos captados pelos bancos que operam no país, o fato é que se estreitou muito o financiamento empresarial com recursos externos.
No Brasil, todo o financiamento às famílias e ao setor público e grande parte do financiamento empresarial se dá com recursos em moeda nacional. Mas, ainda assim, para as empresas as fontes externas têm representatividade. Para se ter dimensão disso, basta observar que no período pré crise o crédito dos bancos às empresas com recursos captados no exterior correspondia a 20% do total de empréstimos concedidos com recursos livres dos bancos.
Esses problemas na área do crédito prejudicaram o financiamento do comércio exterior brasileiro, além do financiamento corrente das empresas, com destaque para as empresas de certo porte e que se encontravam em grande atividade de investimentos dentro e fora do país, pois no momento em que estourou a crise internacional transcorria um relevante processo de internacionalização da empresa brasileira. Também concorreu para "congestionar" o mercado doméstico de crédito para onde se dirigiram muitas empresas (em sua maioria de grande porte) em busca de recursos, o que elevou o custo dos finenciamentos.
A isso se somaram reações internas dos agentes econômicos brasileiros, vale dizer, de bancos, empresários e consumidores que ao serem surpreendidos pela gravidade da crise mundial precisamente em um momento de auge do crescimento de suas atividades, responderam com fortes freadas no crédito, nos investimentos e no consumo. Operações mal-sucedidas de empresas em mercados futuros de câmbio geraram prejuízos em montantes elevados, introduzindo um adicional fator de contração dos investimentos e de elevação do risco na avaliação bancária do crédito empresarial, o que concorreu para escassear e encarecer ainda mais o crédito. Os bens adquiridos com maior dependência do crédito, vale dizer, os bens industriais de consumo duráveis e de capital, foram os que sofreram mais prontamente, razão pela qual a crise atingiu em cheio inicialmente o setor industrial.
A política monetária teve papel importante na gravidade da retração interna porque assistiu passivamente a crise externa chegar, se instalar e contaminar a economia industrial ao longo do último trimestre do ano passado, para só agir a partir de janeiro último e ainda assim de forma tímida ao baixar a taxa básica de juros de 13,75% ao ano para 12,75% a.a.. e daí para 11,25% a.a. na semana passada. Reduções atrasadas e muito graduais não tiveram e nem deverão ter tão cedo repercussões sobre as expectativas dos agentes econômicos que tanto regrediram desde que a crise internacional se agravou em setembro último.
O Banco Central também promoveu liberações vultosas de recursos para o sistema financeiro através de reduções de recolhimentos compulsórios. Foram liberados cerca de R$ 100 bilhões, mas como isso não foi acompanhado de qualquer vinculação ou estímulo para que esses recursos fossem direcionados ao crédito, a maior liquidez não contribuiu para recuperar o crédito. Houve pouca atenção para a questão do financiamento na economia e sobrou preocupação da autoridade monetária para com o encurtamento da liquidez que parte do sistema financeiro passou a sofrer com a crise. Como liquidez e crédito não são idênticos e não necessariamente maiores níveis de liquidez do sistema financeiro significam ampliação do crédito, nas condições de deterioração de expectativas que vigora na economia, uma ação necessária como foi a recomposição da liquidez não colaborou para minorar a escassez e o encarecimento do crédito.
Assim, uma política que nessas áreas não se revelou à altura da gravidade dos acontecimentos, responde por parte considerável do tombo sofrido pela indústria e pela economia brasileira nos meses finais do ano passado.
A quase exclusividade da indústria em explicar o recuo do PIB poderia ser considerado um fator positivo, pois significaria que o contágio da economia teria ficado restrito a um único setor, permanecendo relativamente preservados os demais. Não é bem assim. A conclusão é a oposta se é considerada a enorme condição do setor industrial brasileiro em difundir para outros setores o seu próprio dinamismo. Isso vale tanto para expansões quanto para retrações, em ambos os casos servindo como um grande amplificador das etapas do ciclo industrial. Nesse início de 2009, esta capacidade da indústria deve levar a que o setor de serviços e o próprio setor agropecuário venham a ser mais duramente contagiados do que foram nos meses finais de 2008, em razão das menores compras pela indústria de insumos agrícolas e serviços relacionados à produção.
No próprio setor industrial provavelmente alguns desdobramentos ainda deverão se apresentar. Na indústria de transformação, vários de seus segmentos até agora relativamente preservados do efeito-contágio que varreu diversos outros ramos, já apresentam sinais de que estão passando de uma fase de desaceleração para a retração da produção. São os casos de bens de capital sob encomenda e setores empregadores como alimentos. A construção civil poderá sofrer nesse primeiro semestre um revés em bases semelhantes ao da indústria de transformação, carregando os segmentos fornecedores de materiais de construção. O esperado programa governamental para a habitação popular poderá compensar essa tendência, mas talvez não tão prontamente. Possivelmente também a indústria extrativa, excluída a extração de petróleo a cargo da estatal Petrobrás, que já sofre o impacto da redução da demanda externa, seja afetada adversamente agora devido à menor demanda interna por matérias-primas.
Esses efeitos secundários ou retardados da crise estarão ocorrendo, como sugerem os dados da última da pesquisa industrial do IBGE, quando a indústria, especialmente em seu segmento de transformação, talvez esteja deixando para trás as taxas tão elevadamente negativas que chegou a registrar ou até mesmo passe a acusar pequenas variações positivas. Porém o efeito conjunto das tendências poderá ser o prolongamento da queda do PIB para além do último trimestre de 2008. Por este ângulo, a economia brasileira está presentemente apenas iniciando um processo de retração.
Terra Magazine
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Contágio da crise econômica internacional se deu pela "porta de entrada da indústria", diz Almeida
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