Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Amílcar Bettega

Quarta, 18 de março de 2009, 08h00

Língua e Literatura(s) lusófona(s)

Tom Murphy VII/ Wikipedia/Divulgação
Bettega: A literatura se constitui como tal no momento em que ela consegue dobrar a língua
Bettega: "A literatura se constitui como tal no momento em que ela consegue dobrar a língua"

Amilcar Bettega
De Paris

Convidado ao Salão do Livro de Luxemburgo, estive no último final de semana naquele país para participar de uma mesa-redonda cujo título era "Literatura lusófona ou Literaturas lusófonas?". Estavam também presentes Luandino Vieira, Joaquim Arena e José Jorge Letria, todos eles escritores, representando Angola, Cabo Verde e Portugal, respectivamente.

Questões como esta, eu posso lhes garantir, não é o tipo de questão que costuma preocupar os escritores, que escrevem sempre, garanto-lhes outra vez, como podem e o que podem, sem saber nem se importar muito em saber se o que escrevem será (ou não) classificado desta ou daquela maneira.

Para a mesa-redonda li um pequeno texto que, na verdade, desvia-se um pouco da questão. Transcrevo-o aqui, de forma mais abreviada e com pequenas alterações:

*

Quando surgiu o convite para participar desta mesa-redonda eu não me lembro se o tema já estava definido. Se estava e me foi transmitido, não me lembro de tê-lo registrado. Somente mais tarde, quando nos aproximávamos da data do encontro, é que fui tomar consciência deste título "Literatura lusófona ou literaturas lusófonas?". Tentei refletir um pouco e verificar o que teria a dizer a respeito, mas rapidamente me dei conta de que não seria grande coisa. Assim, este pequeno texto não pretende ser nem de longe uma tentativa de responder a pergunta lançada no título da mesa. Não é tampouco uma reflexão acabada, fruto de uma argumentação lógica e idéias articuladas. Muito antes pelo contrário, trata-se apenas de uma tentativa de aproximação ao tema, algumas impressões que fui recolhendo à medida que pensava no assunto. E se as trago agora por escrito é somente para poder apresentá-las de forma menos vaga do que elas estão na minha cabeça, para poder cerni-las, sob pena de, não sendo assim, perder-me na fluidez precária dessas impressões, que aliás dizem mais respeito à relação entre a língua e a literatura numa esfera mais ampla e geral do que propriamente à questão particular da literatura lusófona, com ou sem o "s" no final.

Embora fazendo literatura e em língua portuguesa, confesso que nunca senti necessidade de me perguntar se existe uma só literatura lusófona, ou mais de uma. Conseguimos identificar a existência de uma literatura portuguesa, ou angolana, ou cabo-verdiana, ou brasileira - para ficar apenas no domínio dos países (lusófonos) aqui representados -, mas da mesma maneira, creio, que identificamos a existência de uma literatura francesa ou americana, ou seja, uma literatura escrita em uma determinada língua e a partir do uso que dela faz um determinado grupo populacional (com um determinado arranjo social, econômico, político, etc). Sendo assim, no âmbito lusófono, teríamos uma só literatura porque a língua é a mesma. Mas ao mesmo tempo o uso que se faz desta língua em Angola, Portugal, Cabo Verde e Brasil, é ligeiramente diferente em cada um desses países. Portanto, literaturas lusófonas, no plural - e a questão não se arranja.

Particularmente tenho a tendência a conceber a literatura sem adjetivos. Assim como me causa arrepios ouvir falar em literatura gaúcha para designar a literatura feita por gente que, como eu, nasceu no estado do Rio Grande do Sul no extremo sul do Brasil, também sou levado a relativizar os conceitos de literatura brasileira ou portuguesa ou espanhola, etc, embora não negue, porque seria um grande equívoco, a legitimidade e os benefícios destas designações, sobretudo para a sistematização que se faz necessária quando a literatura em causa se torna objeto de estudo.

Embora calcada na existência de uma língua e tendo a sua existência vinculada a existência desta própria língua, a literatura é obrigada a ultrapassar a questão meramente lingüística. Precisamente porque uma das coisas que a caracteriza é a sua capacidade para ir além dos limites que circunscrevem a língua e que acabam por definí-la, isto é, a literatura se constitui como tal no momento em que ela consegue dobrar a língua, quebrar a sua rigidez - e por que não dizer? -, no momento em que ela consegue deformar a língua. Quando a frase sai do seu contexto e da sua significação habituais, do seu formato viciado pelo automatismo, quando ela escapa da norma da língua, é aí que se abre o espaço onde pode vingar a literatura. Esta quebra da regra, a mudança de registro que se opera no interior da língua, manda aos ares toda e qualquer passividade do leitor, aguçando-lhe os sentidos, chamando a sua atenção para o que estava coberto pela opacidade da norma. A partir daí a língua ganha nuances diferentes, outras tonalidades, e revela uma luz particular que normalmente o seu uso funcional acaba relegando a uma zona de penumbra. De certa maneira, é isso que faz a literatura. E o digo nos dois sentidos em que essa frase pode ser entendida: é isso que a literatura faz e é isso que constitui a literatura.

A escrita literária, a língua literária, é pessoal, única para cada escritor. É algo que ele cria para contar histórias que estão aí ao alcance de todo mundo. Ele trabalha com e sobre a língua, cuja função primeira é a de criar um espaço comum onde a comunicação pode se estabelecer. Porém, o trabalho do escritor é de subverter a língua comum, é fixar a particularidade dentro do geral, imprimir a sua voz no ordinário da língua. O escritor faz um uso particular da língua. Ele segue por um caminho torto, olha o mundo de viés, através da lente deformadora de uma língua forçada, esgarçada, questionada em seu limites, uma língua corrompida e que traz a marca da sua intervenção.

Porém, se por um lado cada escritor é um caso único, com sua carga de experiências pessoais e intransferíveis, suas obsessões e idiossincrasias, e buscando afirmar a sua originalidade, por outro ele é também portador de uma identidade que o insere numa determinada cultura. Escrevemos com o que somos. E aí entra tudo o que nos construiu até este momento sempre tenso e algo estranho em que sentamos a bunda numa cadeira, pegamos na caneta e começamos a escrever. Neste momento somos a língua na qual aprendemos a nos expressar, a pensar e agir. Somos a língua que - exercendo sua função normativa - de certa maneira nos formatou e nos criou enquanto ser que comunica. Mas somos também a paisagem que nos rodeia e a que nos rodeou desde a infância, somos a comida, o clima, os acontecimentos históricos, as crenças e descrenças religiosas, enfim, tudo aquilo que define uma identidade cultural. E voltando à pergunta que a mesa propõe, a questão continua sem se arranjar. Se é certo dizermos que a literatura está acima das classificações que apontam para o pertencimento a uma língua e a uma cultura, também não há como negá-la portadora de uma carga cultural. É óbvio que se eu fosse francês ou alemão, a minha literatura seria inteiramente diferente da que eu faço em português. Nem falo da temática mas do uso literário que eu faço da língua que me acostumei a usar funcionalmente. Seria uma literatura diferente porque escrita por uma pessoa diferente.

Nesse sentido, talvez tenha o seu interesse, sobretudo quando falamos (ou pelo menos eu deveria falar) de lusofonia aqui no Luxemburgo, onde vive uma grande comunidade de portugueses, talvez seja interessante, eu dizia, terminar essa breve divagação sobre língua e literatura abordando a questão do exílio. Pois viver longe do seu país pode representar, entre outras coisas, viver longe de sua língua.

Eu mesmo sou um exilado. Vivo na França há seis anos e pouco - o que já começa a ser bastante tempo -, estou privado daquele convívio diário com a minha língua, não a ouço na rua, não a uso funcionalmente no cotidiano, vivo, portanto, distante dela. Mas estranhamente é uma distância que aproxima. Sinto que durante esse período vivendo longe do Brasil e do português que se fala nas ruas do Brasil, eu me tornei muito mais atento a esse português que carrego comigo desde meus primeiros meses de vida e que afinal de contas é a matriz da minha maneira de ser e estar no mundo. Se por um lado o exílio é sinônimo de alguma ruptura, ou pelo menos de uma descontinuidade do caminho - e isso implica sempre algum grau de traumatismo -, a língua pode funcionar também como lugar de refúgio e de encontro com algo de formador de nossa essência. Assim, se a nossa língua deixa de ser o veículo funcional para a comunicação, ela pode ser um poderoso veículo para o auto-conhecimento, para a preservação e afirmação de uma identidade.

É claro que isso não se dá quando a pessoa se encarcera na língua, fechando-se para a cultura na qual está inserida, mas, ao contrário, quando ela se serve da sua própria língua para abrir-se ao novo e ao desconhecido. Um pouco como faz a literatura, que nesse sentido é sempre ponte, sempre um terreno de troca e de enriquecimento permanente, independente da língua a qual pertença.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Amilcar Bettega vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela