
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Muitas palavras - ou expressões - não oferecem garantia nenhuma do sentido preciso (porque têm muitos...) ou do alinhamento ideológico de um texto, mas outras são indícios fortíssimos. "Mercado", por exemplo, é quase um eufemismo para 'dirigentes de grandes conglomerados' (ah, as avaliações, as proposições, as expectativas do mercado!). Por outro lado, opõe-se de certa forma a "Estado", embora esta antonímia não esteja consagrada nos dicionários.
Os medievais que discutiram sobre a natureza dos conceitos, especialmente dos ditos conceitos abstratos (como "humanidade" ou "beleza": são seres que existem em si ou são predicados que só se concretizam nos seres individuais?) teriam muita coisa a dizer sobre esse novo deus - agora meio morto, convenhamos, e pedindo esmolas exatamente ao Estado, que antes quis eliminar. Textos que empregam "mercado" positivamente são quase sempre enganadores, vendedores explícitos de uma ideologia barata (sem trocadilho) como se fosse ciência indiscutível. Talvez o sejam também os que defendem o estado, com a diferença de que são menos hipócritas e não o chamam apenas nas horas más.
Outro exemplo: "especialista" tornou-se, ultimamente, quase sinônimo de "oposicionista". Nunca ouvi um especialista falar a favor do governo. Do atual, quero dizer, porque todos eram a favor do anterior, pelo menos os entrevistados em jornais em TVs e quase todos os articulistas. Ouça a CBN e verá que tenho razão.
"Especialista em finanças públicas", por sua vez, é o outro nome de Raul Velloso, que Miriam Leitão cita todos os dias, cuja receita é cortar gastos do governo com pessoal, mesmo que logo em seguida um seu partidário reclame das tribunas do senado ou pontifique num jornal da noite que o governo não fiscaliza (porque faltam fiscais), que a saúde não vai bem (porque faltam médicos) etc. É o melhor exemplo do que seria um governo de contadores, que Mitterand previu.
Mas há palavras bem especiais, ainda mais especiais. Um bom exemplo está no comentário abaixo, de Elio Gaspari, publicado em sua coluna na Folha de S. Paulo de 01/03/2009:
DEMOFOBIA
Depois que Paula Oliveira admitiu para a polícia suíça que não foi atacada por xenófobos aconteceu algo estranho com a sua qualificação. Quando sua história teve crédito era "brasileira". Quando o relato trincou ela passou a ser chamada, com alguma frequência, de "pernambucana". Há suíços que gostam de contar histórias de preconceito de brasileiros contra brasileiros.
O exemplo é apenas um dos que se repetem à náusea nos noticiários: se há um crime e seus (supostos) autores forem moços de favelas, negros ou "quase pretos de tão pobres", eles são designados como "bandidos" e "marginais". Mas, se jovens universitários da Zona Sul espancam uma mulher - uma empregada doméstica - num ponto de ônibus porque pensavam que era uma prostituta, não só aquelas palavras não são empregadas - eles são no máximo "jovens", talvez "estudantes" -, como o jornal entrevistará um psicólogo que explique o que leva jovens "que têm tudo" a praticarem tais atos.
A discriminação social no Brasil é tão flagrante que a Globo transcreve entre aspas a fala dos seus "marginais" (coisas como "nóis vamo", "pegá", "descê"), sem se dar conta (será?) de que as mesmas formas saem da boca do Faustão ou do Luciano Hulk, para ficar em dois exemplos, mas, de fato, da boca de todos os que não lêem seu textinho - quase sempre tão pobre! - no telepromter.
O caso Battisti fornece material numeroso do mesmo tipo. Se a notícia começa com "o terrorista" ou com "o refugiado", quase não é necessário ouvir mais nada.
GAFE? ATO FALHO?
Segundo a Folha de S. Paulo de 14/03/2009, Lula iria encontrar-se naquele dia com Obama para defender uma nova arquitetura mundial, condenar o protecionismo nos países ricos e deixar claro que quem controla (sic!!) o narcotráfico na América do Sul são os governos da América do Sul... (p. A3).
Se Lula dissesse isso a Obama, todos mencionariam a enorme gafe, e diriam que ela se deve a sua falta de estudo. Mas, se o texto é da Folha (ou de qualquer outro sabichão), então os especialistas em leitura se debruçarão sobre o texto, o intertexto, os scripts e os frames e todos os artifícios da pragmática para demonstrar que, evidentemente, o sentido do texto é que quem deve combater o narcotráfico na América do Sul são os governos da América do Sul.
Ou seja, "controlar o narcotráfico", quando se atribui essa ação aos governos, significa tomar todas as medidas para coibir a referida atividade (prender os mesmos de sempre, como em Casablanca, isto é, a arraia miúda), embora "controlar o narcotráfico", quando se atribui a ação (ou um conjunto de ações) a uma quadrilha, signifique o conjunto de ações que são desenvolvidas para comprar, refinar, embalar e vender drogas.
De qualquer forma, é bem melhor ver a Folha cometendo esse equívoco, que se remedia facilmente na seção "Erramos", do que vê-la falar de ditabranda. Até porque, mesmo reconhecendo que pode ter errado, a direção do jornal aproveita todas as manifestações para criticar a esquerda que condena as ditaduras dos outros e não as suas.
Melhor faria o jornal se explicasse os boatos sobre o que transportavam os caminhões da empresa, além de pacotes de jornais, nos tempos das OBAN. Ou seja: por que a Folha quer que esquerdistas condenem as ditaduras de esquerda, mas ela mesma silencia sobre um episódio que a ligaria a uma ditadura de direita? Ou será que a dita foi branda com a Folha?
PS - Acabo de lançar um livro chamado Questões para analistas de discurso, pela Parábola Editorial. Obrigado, obrigado.
Terra Magazine
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Reprodução
Paula Oliveira era "brasileira" mas tornou-se "pernambucana" quando se revelou a mentira
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