Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Tony Monti

Sexta, 20 de março de 2009, 08h15

Trinta e três

Tony Monti
De São Paulo

Corriam. No canto inferior da tela, o cronômetro marcava segundos, décimos e centésimos. Quando o primeiro passou a linha, a frase "world record" apareceu como legenda. Alguns minutos depois, a cronometragem oficial anunciou o tempo corrigido, três centésimos mais lento, quinta melhor marca da história. Imaginei que, escolhessem qualquer um dos atletas e filmassem com dois por cento de aceleração, teríamos um filme do recorde mundial. Os jornais do dia seguinte informariam sobre o feito ao atento leitor do caderno de esportes, ainda que alguns décimos a mais ou a menos não possam ser percebidos por quem vê a prova.

Na semana passada, enquanto a Globo transmitia o jogo do Palmeiras, o narrador, desatento às imagens exibidas, dizia que no outro estádio, no jogo do Corinthians, o relógio marcava vinte e um do primeiro tempo. Futebol não é apenas o que acontece em campo. Ronaldo poderia fazer mais um gol e isto seria comentado mesmo que, em uma hipótese absurda neste mundo paparazzo, ninguém o tivesse filmado. Sim, há a bola, onze contra onze, as traves, o verde do gramado - o mundo concreto -, mas minha atenção agora é para a materialidade do que se diz, em palavras e em imagens, o tecido das frases que moldam o que acontece.

Utilizemos, para fins analíticos, o seguinte critério para medir a relevância de um acontecimento: se o que acontece gera muitos comentários, ele é significativo, segundo este critério, para as pessoas que o comentam (não proponho fazer a avaliação para o que se diz nos jornais, quero apenas brincar com uma idéia). Ronaldo, neste critério, é significativo. O que ele faz é notícia mesmo que, por imposição de um contrato, as imagens da partida em que ele está envolvido não sejam transmitidas.

A experiência não corresponde a uma matéria objetiva. Não há fatos simples, isolados, o que se fala deles é deles inseparável. O comentário conforma o fato. A Espn, na semana passada, levou um grupo de deficientes visuais ao Morumbi. Eles se divertiram bastante, experimentaram estar no estádio, compararam suas versões pessoais do que é futebol com o que viveram ali.

O critério para se sentir envolvido com o fato não é apenas visual. Não existe o apenas visual. A estética (assim como a ética ou qualquer sistema que se relacione com avaliar o que acontece, com dizer se um pedaço de mundo é bom ou ruim) está ligada aos nossos mitos pessoais. No ano em que completa trinta e três anos, Ronaldo parece estar renascendo pela terceira vez. Este enredo tem sido mais significativo que, como às vezes acontece, a tabela de classificação do campeonato.

Um pedaço de nós gosta destes heróis monolíticos, que concentram em torno de si muitos fatos significativos, que sozinhos decidem destinos. Outra versão: gostamos de construir histórias que atribuem a um único personagem a decisão dos destinos da narrativa. No caso do futebol, um jogador que ganha sozinho uma partida ou a copa do mundo.

Há menos comentários sobre a eficiência de equipes que funcionam bem coletivamente, como organismos bem ensaiados. Neste caso, para encontrar um herói, elege-se algum maestro - jogador ou treinador -, mas parece haver menos prazer estético com isso. O herói único talvez alimente melhor a mitologia de que as nossas escolhas individuais podem alterar nosso enredo, enquanto que apreciar o esforço coletivo dependeria de um critério estético mais elaborado e cheio de detalhes. Algo semelhante seria preciso para sustentar uma sociedade menos individualista. Na falta de um herói driblador, diz-se que falta poesia. Assistimos ao futebol sem dar atenção à microfísica das escolhas e das conseqüências.

Há certa dificuldade em apreciar processos que têm causas múltiplas, dispersas em escolhas de várias pessoas. O esforço difuso torna-se subterrâneo, não o vemos. Preferimos muitas vezes, o gênio, porque, ao contrário de muito do que acontece no mundo, com causas variadas e lógicas que nos escapam, a causa de um drible desconcertante, a vontade concentrada do gênio, cabe, tanto quanto um avião que se arremessa sobre um edifício, no recorte de uma câmera de televisão. De certo modo, é o testemunho estético da liberdade e da efetivação do desejo de um indivíduo, a leveza do movimento limítrofe entre o possível e o impossível, contraposto à aparente inércia de nossas rotinas.

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 
Getty Images
Monti: "Ronaldo parece estar renascendo pela terceira vez"

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela