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Segunda, 23 de março de 2009, 08h10

Estranha passagem

José Cruz/Agência Brasil
Clodovil  faleceu na terça-feira, 17, aos 71 anos. Para Alemão, o ex-apresentador não foi feliz
Clodovil faleceu na terça-feira, 17, aos 71 anos. Para Alemão, o ex-apresentador não foi feliz

Márcio Alemão
De São Paulo

Sobre Clodovil, o homem de TV, eu não tenho muito a dizer. Lembro de seu momento como conselheiro de moda, no TV Mulher da Globo, nos anos 80, exibindo grande habilidade para fazer rápidos croquis de suas sugestões.

Não me lembro jamais - pode ter sido coincidência, uma coincidência de décadas - de tê-lo visto feliz.

Pessoas felizes são simples assim: exalam felicidade, contagiam, fazem os outros se sentirem bem. Falei da Hebe semanas atrás. Um bom exemplo. Pessoas felizes não passam todo o tempo tentando provar de maneira agressiva que são muito mais felizes que os outros.

Todas as vezes que vi o Clodovil no ar ele estava se defendendo. Dizendo-se realizadíssimo, não devedor de nada, senhor absoluto de todas as verdades, atacava terceiros todo o tempo. Sabia de coisas desse e de outros mundos.Dizia-se feliz, muito feliz.

Não me lembro de tê-lo visto sorrir.

O veneno o perseguia.

Conseguia deixar todos os seus convidados, no programa nos quais recebia convidados, muito pouco à vontade. Houve uma exceção: quando recebeu Barbara Gancia. Mas era o típico entrevistador que usa o outro para falar de si.

Seus produtores e diretores e donos de emissoras acreditaram que ele seria capaz de gerar polêmica e isso poderia render audiência. O papel até arquetípico do jurado malvado é necessário.

Não foi o caso. Clodovil parecia, sempre, menos polêmico e mais magoado, ressentido e isso, pelo menos para mim, gerou um dos piores sentimentos: pena.

Como disse, suas polêmicas envolviam terceiros. E o discurso se repetia e os gestos se repetiam e nada se aproveitava.

Sobre o homem político, muito menos a dizer. Para não perder o hábito, ofendeu uma colega, apresentou projetos pífios e sempre que podia, se defendia na base do ataque, da comparação com algum ser inferior. Foi beneficiado pelo chamado voto cacareco, que é o voto irresponsável, uma piada sem graça.

Dizem que foi um ótimo filho. Acredito que tenha sido. E isso já é bom demais.

Márcio Alemão é publicitário e cronista gastronômico da revista Carta Capital.

Fale com Márcio Alemão: marcio.alemao@terra.com.br

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