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Quarta, 25 de março de 2009, 07h56

Espicha o verão sem piedade de nós!

Paquito
De Salvador (BA)

Na Cidade da Bahia, como antes se dizia, muita música, música em excesso e em alto volume! A ideia de que música sem interrupção é uma coisa boa é estapafúrdia, não dá pausa pro silêncio reparador. Assim acontece sempre no carnaval, mas a Bahiatursa, empresa de turismo do estado, não satisfeita, prossegue célere em seu projeto de fomento a todo tipo de poluição: sonora, visual e até marinha.

Explico melhor: Espicha verão foi o nome - feio! - dado a um projeto da Bahiatursa, que promoveu shows e eventos, justo no Porto da Barra e arredores, onde fica a terceira melhor praia do mundo, segundo o jornal inglês The Guardian.

O meu amor à praia do Porto é imenso, um dos meus assuntos preferidos aqui nesta coluna. A praia é popular, pequenininha - perfeita para a prática da natação -, uma enseada onde Tomé de Souza, primeiro governador, aportou em 1549. Bem, é para lá que vou nos finais de tarde, e até início de algumas manhãs, tentar obter algum tipo de intimidade com Iemanjá.

Pela localização estratégica, pelo lazer que oferece à população, pela importância histórica, poderia haver uma ocupação mais racional e ecologicamente responsável do espaço, não? Não bastassem os carros particulares com som alto, o Espicha verão ocupou a área da praia do Porto por 24 horas, durante os sábados, por três semanas, com shows, barracas, palcos na água e na praia e, claro, venda de bebidas e comidas, muita gente e, consequentemente, mais sujeira no mar.

Eles podem até dizer que mandavam limpar a praia, mas há também a água, onde são jogados os dejetos e sobras das atividades festivas. Não tem quem salve a vida marinha que, teimosa, continua a vicejar numa variedade impressionante, segundo me disse um biólogo que mergulha por lá. Ele comparou o Porto a lugares como Fernando de Noronha, no que concerne à riqueza da vida marinha. Talvez sabedora do fato, a Bahiatursa resolveu abusar.

Uma moradora do local afirmou que não dava pra dormir com a música até as duas da manhã, era como se as atrações musicais estivessem todas dentro de casa. Por outro lado, os artistas que se apresentavam em um barco na água, por conta da distância, não eram vistos direito por quem assistia da areia. Houve todo um investimento na realização de um tipo de espetáculo que não se efetivou, portanto, a contento.

Poucos metros acima da praia, na Avenida Princesa Isabel, tem uma casa com jeito de velha, que em nada combina com os prédios mais modernos do local. É lá que Seu Valdemar, sapateiro das antigas, faz e reforma sapatos há anos. Foi onde entrei pra tentar consertar a alça do estojo do meu violão. Estava com meu enteado, Pedro, seis anos de idade.

Resquício da Salvador de outros tempos, pelo jeito com que Seu Valdemar nos atendeu, e pela aparente idade dos móveis e utensílios observados, a sapataria continha um cômodo vizinho à sala onde estávamos, e lá havia um papagaio. Seu Valdemar garantiu a Pedro:

- Canta Atirei o pau no gato que ele repete inteirinha. Mas só se for criança ou mulher. Voz de homem não adianta.

Pedro cantou timidamente, o papagaio repetiu a música, exibido. Pedro se contagiou e cantou com mais vontade, o encanto nos olhos diante da performance do bicho, irretocável. Havia uma mulher jovem, alta e bonita, de vestido negro que, apesar da idade, parecia ser também de outros tempos, por uma certa postura elegante de quem habita o bairro da Graça há anos. Ela sorriu discretamente para Pedro, Seu Valdemar sorria de satisfação, orgulhoso do seu bichinho; e eu me tomei de amores pelo papagaio, Pedro, a sala, a mulher de negro, Seu Valdemar, tudo em torno.

Por isso o papagaio é o meu cantor da semana, com o seu Atirei o pau no gato, sopro de aragem em meio ao emaranhado de som e fúria que reinou durante os últimos fins de semana na minha prainha do Porto da Barra, tão bonita e tão pobrinha, como dizia o poeta.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Marcele Facchinetti/Especial para Terra
A praia do Porto da Barra, em Salvador

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