Terra Magazine

› Terra Magazine › Política

Quarta, 25 de março de 2009, 16h25 Atualizada às 20h06

Remessas ilegais podem chegar a R$ 30 mi

Aloisio Milani

A investigação da Polícia Federal sobre crimes financeiros e lavagem de dinheiro da megaconstrutora Camargo Corrêa aponta que as fraudes envolvem entre R$ 20 e 30 milhões. A Operação Castelo de Areia, deflagrada nesta quarta-feira, 25, aponta que um esquema sofisticado de ação permitia à empresa enviar vultosas remessas ao exterior. Há a participação de partidos políticos no caso, com a suspeita de formação de caixa 2.

Altos diretores da construtora foram presos com o objetivo de colher depoimentos e mais provas. A procuradora da República Karen Kahn, do Ministério Público Federal, explica que a investigação do esquema começou com interceptações telefônicas autorizadas judicialmente. "(Elas) detectaram um grupo de doleiros atuando no mercado financeiro através do câmbio ilegal de moeda estrangeira com remessas ao exterior", explica.

Leia também:
» Opine aqui sobre a Operação Castelo de Areia da Polícia Federal
» PF prende diretores de construtora por crimes financeiros
» PF: Partidos fariam caixa com Fiesp e construtora

A Camargo Corrêa, líder na construção de hidrelétricas no país e realizadora de grandes obras de infra-estrutura, atuava no esquema com a participação ativa de diretores da empresa. O grupo, já considerado pelo MPF como uma "organização criminosa", utilizava empresas fantasmas que seriam o veículo utilizado para forjar contratos junto ao Banco Central, como forma de dar "aparência de legitimidade" a evasão de divisas.

"As escutas telefônicas vem sendo realizadas desde janeiro de 2008. Desde então vem sendo prorrogadas, e devidamente autorizadas pela Justiça. As transações foram detectadas em tempo real. Ou seja, no momento em que estavam sendo travados diálogos já estavam ocorrendo (as transações) ou na iminência de ocorrer. Depois, apurou-se que elas foram efetivamente realizadas", diz Karen Kahn.

Chegou-se a detectar, por exemplo, transações forjadas de até R$ 2 milhões cada por meio do Banco Central. O grupo atuava, ainda de acordo com a procuradora da República, de forma sofisticada com a tecnologia, utilizando-se de telefones criptografados, VoiP e jargões cifrados para conseguir concretizar as transações. "Uma forma de evitar a compreensão do que se falava", explica.

Nas conversas entre doleiros e executivos era comum o uso de nomes de animais. "Jargões do tipo: o 'coelho já comeu' para dizer que os depósitos foram feitos; ou 'falta o camelo' comer; ou 'canguru deu pulo de dois quilômetros' para falar da alta do dólar paralelo; além de outros animais", relata a procuradora da República.

As transações ilegais tinham origem nas operações de dólar-cabo, sistema paralelo de remessas de recursos muito procurado no Brasil por doleiros para a lavagem de dinheiro. Ou seja, forjando os canais de conversão autorizados pelo Banco Central.

"Uma grande parte desses valores não eram contabilizados e enviados e recebidos em espécie por pessoas que seriam intermediários da remessas desse dinheiro entregue a políticos com os quais a Camargo Corrêa, ou esses diretores em especial, mantinham algum relacionamento", explica Karen Kahn. A fraude de licitações públicas e o superfaturamento é uma hipótese de investigação, mas a procuradora não confirmou quais são analisadas.

Indagada sobre quais partidos políticos seriam, a procuradora se recusa a citar nomes. "Se for comprovada que pessoas dentro desse partido buscaram um tipo de apoio financeiro sem uma contabilidade, creio que poderá ser alvos de crime no âmbito da lei eleitoral", responde.

Nas escutas telefônicas, há também uma citação de empresários que seriam ligados à Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), mas, segundo a procuradora, só a continuidade da investigação poderá identificar as responsabilidades. "São terceiros mencionados nas escutas, então não são ainda alvo das investigações. Então, por enquanto, são simples mencionados na investigação do esquema", diz.

Em nota, a Fiesp afirma que "não se envolve, de maneira alguma, em eventuais relações entre empresas do setor que representa e partidos políticos, ou candidatos deles".

Leia nota da Fiesp:

Com ética e absoluto respeito à liberdade de imprensa - valores que pautam o trabalho da área de Comunicação Corporativa desta Casa -, escrevemos a Terra Magazine.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) é uma entidade apolítica, independente, voltada aos interesses coletivos da indústria paulista e da sociedade brasileira. A Fiesp não se envolve, de maneira alguma, em eventuais relações entre empresas do setor que representa e partidos políticos, ou candidatos deles.

A Fiesp, com seus 131 sindicatos afiliados, representa cerca de 130 mil empresas da indústria. Conta com cerca de seis mil empresários que atuam, voluntariamente, em seus quadros em todo o estado de São Paulo, sendo 1.256 diretores em diversas áreas.

A Fiesp não teme qualquer investigação, acompanha os fatos com o mesmo interesse da sociedade e está confiante no trabalho da Justiça.

Tomamos a liberdade de lembrar que, em nenhum momento da entrevista coletiva concedida hoje à tarde pela Polícia Federal, o nome da Fiesp foi mencionado.

 

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol