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Quinta, 26 de março de 2009, 08h02

Algumas coisas cretinas

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Poucas coisas são mais cretinas do que citar um poema para "provar" a existência de uma regra de gramática. Pior: por que os mesmos sábios nunca citam "pronominais", por exemplo? (Pronominais (Oswald de Andrade): Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro).

Imagino como deve ser chato para um poeta trabalhar duro para escrevinhar seus textos e depois ouvir perguntas irrelevantes sobre eles. Por exemplo, Pessoa (o Caieiro que ele criou) escreveu "Quis que o não conhecêssemos" e "Por isso se nos não mostrou'?". Alguém publica os versos num jornal.

O nobre leitor, em vez tirar do texto algum proveito estético ou admirar a construção da frase que lhe parece inusitada ou tentar entender se a ordem das palavras tem alguma coisa a ver com o ritmo do verso em pronúncia lusitana ou com efeitos de arcaísmo, em vez de todas essas alternativas razoáveis, em vez de tentar descobrir sozinho, consultando um livro (já que a questão parece lhe interessar, deve ter livros que tratam disso) decide perguntar aos sábios o que é isso, que tipo de colocação do "o" e do "se" é essa que ele nunca viu e que estranha, apesar de ou exatamente porque sempre estudou os manuais dos mesmos sábios, se isso pode ou se não pode, se essa ordem está prevista ou não pelos almanaques.

Os sábios respondem - sim, eles respondem, vivem disso, como os que aconselham a fazer aplicações financeiras ou depilação !! - que a construção existe e depois peroram ignorantemente sobre a necessidade de ensinar isso na escola, sem se dar conta (o que revela que são mais pascácios do que sábios) que esse é o único tipo de coisa em que a escola insiste, sem resultado nenhum para o domínio ativo da língua escrita, mas com excelentes efeitos para o bolso deles, dos sábios.

É mais ou menos como se um turista, visitando um museu, vendo aquele relógio pintado por Dali, com jeito de ovo caindo da mesa, perguntasse ao guia se existem ou se pelo menos esse tal de Dali usava relógios feitos à base de ovo frito. O fim da picada! Pior que isso, só se o guia responder, se levar a pergunta a sério, ou, pior, se sugerir que relojoeiros devem ser ensinados a fazer relógios com jeito de ovo frito.

Essas coisas me fazem lembrar uma anedota antiga: o guarda fala para o motorista que está correndo demais. O motorista se revolta, desacata a autoridade. O policial se empertiga: "O senhor me respeite, eu sou um policial". E o motorista arremata: "Bem feito, quem mandou não estudar".

Depois querem que a escola produza alunos que sejam bons leitores... Assim, no máximo, eles conseguem sublinhar os exemplos de apossínclise...

***

Logo depois de matéria sobre uma pesquisa que revelou que 15% dos estudantes cariocas são analfabetos funcionais, o Jornal Nacional de 20/03/2008 falou da decisão de algumas editoras de adaptar os livros à nova ortografia. Coisa que William Bonner tratou assim:

As editoras de livros começaram uma revisão geral em quase todas as publicações. Dicionários e clássicos da literatura estão passando por uma avaliação para respeitar as mudanças na Língua Portuguesa.

Mas houve alguma mudança da língua portuguesa? Depois querem que os alunos sejam bons leitores...

É verdade que a coisa melhorou um pouco em seguida, quando se noticiou como funcionam as editoras em relação às matrizes para a reimpressão de obras:

"As matrizes de edição ficam arquivadas. As matrizes contêm todas as páginas de um livro. Quando a editora quer reeditar algum volume, é só pegar um rolo desses e mandar para a gráfica reimprimir o livro. Isso, até as mudanças na ortografia, porque agora todo esse material ficou ultrapassado". Está certo: houve alguma mudança na ortografia (o que rende plantões ortográficos!!), e não na língua portuguesa.

Ah, sim, a manchete, pelo menos na versão da Internet, era EDITORAS ADEQUAM LIVROS À REFORMA ORTOGRÁFICA.

Por mim, tudo bem. E também para o Houaiss, entre outros. Mas esses que dão sua explicaçãozinha sobre a posição dos pronomes nos versos de Caieiro, sem nenhuma alusão ao efeito de sentido ou às razões poéticas, dizem que "adéquam" não existe...

Depois querem, ou fazem de conta que querem, todos eles, que as escolas sejam eficientes no ensino da língua. Em leitura e em escrita, práticas de que nunca falam.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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Abstrações. Relógios fundidos de Dali

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