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Sexta, 27 de março de 2009, 07h56

Negros não foram arquitetos aqui

Antonio Risério
De Salvador (BA)

Recebi a pergunta por e-mail: que influência os africanos tiveram no desenho de nossas edificações e cidades? A resposta é simples: nenhuma. Os escravos que a África vendia para o Brasil traziam consigo seu repertório genético, suas línguas, seus deuses, visões-de-mundo, conhecimentos e técnicas. Mas, se foram fundamentais para a constituição biológica e para a formação estética e religiosa da sociedade brasileira, não é significativamente visível qualquer influência deles na dimensão urbanística e arquitetônica do país. Nos planos de nossas cidades, nos desenhos de seus bairros, na definição de um tipo de moradia.

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Günter Weimer, reconhecendo que "um dos capítulos mais difíceis de ser abordado é o da contribuição africana à arquitetura brasileira", acredita divisar tal influxo africano na configuração de Salvador. Acha ele que, enquanto "as ruas principais passaram pelo topo das colinas e eram reservadas aos senhores brancos", as encostas da cidade se encheram de negros, que ali "puderam fazer efusiva aplicação do traçado das cidades africanas". Bem, não há como comprovar e defender a tese. Mesmo porque os negros não ficaram concentrados nas encostas do sítio urbano. Distribuíram-se por toda a cidade. A Barroquinha, bairro predominantemente preto, é um vale. A Quinta das Beatas fica numa colina. E, nas encostas que desciam para o mar, viviam também pessoas de posses, como no bairro do Sodré.

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Nos calundus dos séculos 17 e 18, cujas descrições chegaram até nós, temos um culto de origem claramente africana - embora já sincretizado com elementos lusos (a cruz) e indígenas, no uso da carimã e de peles de animais brasílicos. Mas, no espaço físico em que o culto se implanta e se realiza, não encontramos a forma de um templo que nos leve, de modo direto ou indireto, a criações arquitetônicas da África Negra. O que se vê é a casa brasileira. Tome-se o exemplo do calundu encontrado em Porto Seguro, no ano de 1646. O rito acontecia à noite, na casa de um liberto chamado Domingos Umbata. E nada indica que a casa tivesse qualquer traço físico incomum. Que a linguagem de sua edificação a distinguisse na paisagem arquitetural da vila. E o mesmo se pode dizer dos calundus de Branca, que a Inquisição flagrou na Vila do Rio Real, também na Bahia, e Luzia Pinta, que funcionava nas cercanias de Sabará, em Minas Gerais, nas primeiras décadas do século 18. Essas casas são a "casa brasileira", de que nos fala o arquiteto Carlos Lemos - casas cujo centro, ao contrário da casa tipicamente lusitana e em resposta à nossa circunstância climática, já não é o fogão.

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O calundu acontecia numa casa corriqueira de tipo popular. O que havia de africano não estava em sua fachada ou no arranjo de seus cômodos. Mas no ritual. Ou seja: não se manifestava na materialidade arquitetônica, mas em dimensão simbólica. E isto vale também, posteriormente, para os terreiros de candomblé.

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Muniz Sodré acha que muito da organização dos palácios iorubanos foi incorporada na constituição de um terreiro como o Centro Cruz Santa do Axé do Opô Afonjá. Simbólica e ideologicamente, sim. Arquitetonicamente, não. Não há qualquer africanidade nítida, mas explícito lusitanismo tropicalizado, na casa de Xangô que sedia o terreiro. Basta comparar aquela casa com o santuário de Oxum em Oxogbô. Um altar em meio às árvores, onde o barro, o branco, a madeira e a palha desenham uma forma orgânica que nada tem de parecido a uma casa portuguesa, sugerindo, antes, formas sexuais femininas: clitóris, boceta, ovário. Um templo-vulva.

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Além de tudo, há um "detalhe" que os estudiosos não devem desprezar. Foi o antropólogo Renato da Silveira quem chamou minha atenção. É a Constituição Política do Império do Brasil, jurada, em nome da Santíssima Trindade, no dia 25 de março de 1824. Em seu artigo quinto, lemos: "A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular, em casas para isso determinadas, sem forma alguma exterior de Templo". Temos aí, ao mesmo tempo, uma permissão e uma proibição. A permissão se dá na dimensão simbólico-ideológica: permite-se a existência de religiões que não a católica. A proibição, por sua vez, incide sobre a expressão física dessas religiões, em termos de seus locais de encontro e rito. Não se pode ter forma alguma exterior de templo. É uma proibição arquitetônica.

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Os quilombos poderiam ter sido o único espaço para a materialização de um urbanismo e de uma arquitetura de extração africana. Mas não foram. Os nove arraiais de Palmares foram arraiais lusitanos. Os arraiais maiores chegaram a ter três e até quatro ruas, com as casas, cobertas de palma, alinhando-se lado a lado. No largo principal, no centro do povoado, ficavam os prédios do poder. A sede política do mandachuva local e a capela ou igreja. Sim: igreja, com imagens do Menino Jesus, de Nossa Senhora da Conceição e São Brás. No filme "Quilombo", de nosso querido Cacá Diegues, os palmarinos cultuam orixás. Histórica e antropologicamente, não faz sentido. Bantos não cultuavam orixás, mas inquices. Os orixás são uma criação iorubana. E, na época de Palmares, no século 17, ainda não havia iorubás na América Portuguesa. Eles só começaram a chegar bem depois, lá pelo final do século 18. Antes disso, a religião católica já se achava devidamente implantada em Angola, terra de origem dos negros de Palmares.


Antonio Risério é poeta e antropólogo.

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