Vera Gonçalves de Araújo
De Roma
O escritor Primo Levi, autor de um dos mais importantes depoimentos sobre a vida nos campos de concentração de Auschwitz - onde conseguiu sobreviver por onze meses - avisava os alunos das escolas italianas que o convidavam para falar do seu livro "É isto um homem?", pouco antes da sua morte, em 1987:
- Depois da guerra, achávamos que o fascismo e o nazismo estavam acabados, mas era uma ilusão ingênua: o fascismo não estava morto, estava só escondido, como um quisto sebáceo; estava mudando de pele, para reaparecer depois com roupa nova, um pouco menos reconhecível, um pouco mais respeitável, mais adequada ao novo mundo que saiu da catástrofe da segunda guerra mundial que o próprio fascismo provocou. Devo confessar que diante de certas caras não novas, de certas velhas mentiras, de certas figuras em busca de respeitabilidade, de certas indulgências, de certas cumplicidades, sinto a tentação do ódio, até com violencia: mas eu não sou um fascista, acredito na razão e na discussão como supremos instrumentos de progresso, e portanto anteponho a justiça ao ódio.
As caras velhas com roupa nova de que falava Primo Levi eram os representantes do Movimento Social Italiano (MSI), partido neo-fascista fundado em 1946 e transformado em Aliança Nacional (AN) pelo seu último secretário geral, Gianfranco Fini. AN foi, desde o início, o mais fiel aliado de Silvio Berlusconi na sua escalada ao poder na Itália.
Pois o fato político da semana é o desaparecimento de Aliança Nacional. Já no congresso que decretou o fim do MSI, em 1995 em Fiuggi, Fini tentou liquidar o passado neo-fascista e começou a trabalhar para construir a chamada "direita moderna".
O percurso se concluiu no fim de semana passado, em Roma, com uma oração do líder Gianfranco Fini, atualmente presidente da câmara dos deputados, que entre lágrimas criticou todas as formas de culto da personalidade e elogiou o Estado e o parlamento laicos. As referências são a Silvio Berlusconi: os homens e mulheres da velha AN - inclusive Fini - pretendem entrar no próximo fim de semana no Povo das Liberdades, não mais como aliados eleitorais, como aconteceu no ano passado, mas para criar um novo partido, que hoje em dia tem quase 40 por cento dos votos dos eleitores italianos e se propõe como a verdadeira força de governo do país, não só no presente mas também no futuro.
As farpinhas contra Berlusconi confirmam que Fini agora tem o problema de conquistar um espaço de autonomia e visibilidade, não só por objetivos de carreira pessoal, mas também em vista do momento em que Berlusconi, por algum motivo, decidir se aposentar. A esperança do pessoal de AN é de candidatar Fini como líder do novo partido: os ex-neo-fascistas têm muito mais experiência política do que os novatos de Forza Italia, estão presentes em todas as regiões do país e vêm da dura vida de um partido que por cinquenta anos foi excluido dos jogos políticos na Itália.
Fini escolheu como modelo para a construção da sua liderança um estilo à la Nicolas Sarkozy, de direita descontraída e sem preconceitos: chegou a dizer que mudou de idéia a respeito de Mussolini, que numa entrevista de dez anos atrás ele definiu como "o líder político mais importante do século XX". Cultiva com cuidado suas amizades na comunidade hebraica, e em muitos casos assumiu posições contrárias à intromissão da igreja nas decisões políticas nacionais.
64 anos depois do fim da guerra e do fascismo, talvez Primo Levi ainda reconheceria nele algumas das marcas do velho fascismo. Mas Gianfranco Fini - 52 anos, o rosto sempre bronzeado, um filho recém-nascido e uma jovem loura como companheira - está fazendo de tudo para que a "direita moderna" perca qualquer sinal do seu pecado original.
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