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Sexta, 27 de março de 2009, 08h49 Atualizada às 17h15

90 dias de preparação para 15 minutos na jaula

Gustavo Noblat
De Brasília (DF)

Três meses atrás o campeão de jiu-jitsu e submission Rani Yahya passou a seguir uma rotina de treinamento estafante para não faltar fôlego em sua próxima luta de vale-tudo.

Ele está a uma vitória de disputar o cinturão da categoria bantamweight (até 62kg) do World Extreme Cagefighting (WEC). E não quer desperdiçar essa oportunidade, como fez em setembro de 2007 quando foi derrotado por Chase Beebe. "Dois anos atrás tava me preparando para a disputa de título mundial e indo para a praia todo dia, sendo bem amador", reconhece agora Rani.

De malas prontas para embarcar no próximo sábado rumo à sua 17ª luta de vale-tudo, o especialista em jiu-jitsu passou os últimos 90 dias treinando de manhã e à tarde, cinco vezes por semana. "Nos primeiros dois meses foi feito um trabalho de musculação quatro vezes por semana pela manhã, além do treinamento específico de muay thai e jiu-jitsu à tarde", explicou Bruno Sávio Rocha, um dos preparadores físicos de Rani.

Nos últimos trintas dias, Rani passou por um treinamento específico para competir no vale-tudo, pelo menos quatro vezes por semana. "Ele treina intensamente durante cinco minutos repetindo movimentos que faz durante a luta e depois descansa por um minuto. E repete isso pelo menos 3 vezes para simular os três rounds que lutará se o combate for até o fim", completou Breno Gusmão, também preparador físico de Rani.

Instalada num espaço de cerca de 20 metros quadrados em uma varanda de uma casa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, a academia onde Rani treina é um local solitário e silencioso, onde apenas os gritos de motivação dos seus preparadores físicos são ouvidos.

"É importante esse ambiente tranqüilo, onde ele pode se concentrar no treinamento. Rani também faz yoga e acupuntura como parte da preparação", contou Bruno. "O treinamento do Rani é inspirado na de outros atletas de alto nível, como Wanderley Silva e Randy Couture", afirmou.

Rani é o atual campeão do leves do Abu Dhabi Championship (ADCC) - maior torneio de lutas agarradas do mundo (judô, jiu-jitsu e wrestling). Uma boa apresentação diante de Eddie Wineland na próxima edição do WEC lhe credenciará a disputar o cinturão do evento pela segunda vez.

O campeão de sua categoria é nada menos que Miguel Torres. Filho de mexicanos radicados em Chicago e um dos nomes mais temidos do vale-tudo mundial. Torres é para muitos críticos o lutador mais técnico entre todas as categorias de peso. Se um dia vencê-lo, Rani se tornará de vez uma das estrelas desse esporte.

Rani nasceu em Brasília e começou a treinar jiu-jitsu aos 11 anos de idade. Hoje está com 25 anos e acumula no cartel 12 vitórias por finalização (golpes de torções nas articulações e estrangulamento). Sua vontade de provar a superioridade do jiu-jitsu é o que lhe faz encarar lutas onde é permitido todo tipo de arte marcial. "Depois que vi o Royce Gracie ganhar de todo mundo no Ultimate Fighting Championship (UFC) fiquei com vontade de testar e provar a força do jiu-jitsu no vale-tudo", contou Rani.

Em entrevista exclusiva à coluna Rani relembrou suas lutas mais importantes no vale-tudo, falou do tempo que passou com Rickson Gracie na Califórnia, dos seus ídolos no vale-tudo e ainda pediu para que corrijam seu cartel de lutas que em todo canto aparece com 12 vitórias e 4 derrotas, mas que seria, segundo ele, de 13 vitórias.

"Fiz uma luta no Kallifas Vale-Tudo, em Goiânia, no dia 14 de setembro de 2002 e venci o Júnior Peba. Essa foi minha primeira luta, mas no site do Sherdog (o maior sobre vale-tudo) não consta essa vitória".

Na quinta passada Rani fez um de seus últimos treinos antes de embarcar para os Estados Unidos onde lutará no WEC 40 no dia 5 de abril. Depois de simular uma luta de quatro rounds ele ainda saiu do treinamento de bicicleta para andar por mais alguns quilômetros antes de enfim descansar. "Essa preparação cansa mais do que a luta", disse Rani, esbanjando disposição física.

Segue a entrevista com o lutador do WEC, evento dos irmãos Ferttitas (donos do valioso UFC) voltado apenas para atletas leves. E também três vídeos curtos do último treino do Rani mostrando um pouco do "treinamento específico para o vale-tudo":

Quem é seu maior ídolo no vale-tudo?
Rani Yahya -
Ultimamente o Demian Maia. Ele está vencendo suas lutas e saindo de cara limpa. Está deixando os adversários de cara limpa. O máximo que ele procura fazer é se sair bem no jiu-jitsu. Um cara que chega no UFC, o maior evento do mundo, só pega pedreira e vence suas cinco primeiros lutas com cinco finalizações não precisa nem comentar, né?

Como você conheceu Rickson Gracie? O que aprendeu de mais valioso com ele?
A gente tem um amigo em comum que me apresentou ao Rickson e ai ele me convidou para treinar lá na Califórnia. O treinamento com ele durou um ano. Além de aprimorar minhas técnicas de defesa pessoal, melhorei um pouco em relação à alimentação e a maneira de usar a luta para melhorar minha qualidade de vida.

Você acha que o Rickson, em sua melhor forma, teria chance de bater o russo Fedor Emilianenko, como cogitam alguns fãs?
Com certeza ele tem, ou tinha, recursos para isso. Como o Fedor tem recursos também. A mesma chance que o Fedor tem de acertar uma porrada e o Rickson ir parar no hospital é exatamente a mesma do Fedor sair de lá estrangulado.

Quem é o melhor lutador entre todas as categorias de peso hoje?
O Fedor porque ele é o cara que toda luta mostra uma fraqueza. Ele já foi montado (quando o adversário fica por cima), já tomou knockdown, quedas de wrestler, ele sempre demonstra uma fraqueza, mas ainda assim vence. Bota o melhor striker (trocador de socos e chutes), o melhor de jiu-jitsu, que é o Minotauro (Antônio Rodrigo Nogueira), o melhor wrestler para lutar com o Fedor e ele sempre se vira e arruma um jeito de ganhar. Então é indiscutível, né?

Na sua estréia no WEC contra o canadense Mark Hominick você evitou a todo custo trocar socos com ele e premeditou suas tentativas de queda. No fim, você venceu com um estrangulamento, mas foi criticado pela forma como atuou na luta. Naquela época você ainda não confiava em seu jogo em pé?
Confiava, mas existem estratégias, né? O Hominick bem treinado é um cara super preparado para defesas de queda. Tanto que teve outros atletas brasileiros que lutaram com ele e que ficaram naquela de botar pra baixo e isso acabou favorecendo o jogo dele. Meus ataques de queda pareceram uma coisa meio louca, mas foi algo totalmente estratégico. Simplesmente fiquei tentando uma queda atrás de outra para mantê-lo ocupado na defesa e uma hora ele errar.

Já na luta contra Norifumi "Kid" Yamamoto você fez justamente o contrário e partiu para o combate em pé. Alguns fãs te criticam por não ter trabalhado o seu jiu-jitsu e dizem que sua insistência em trocar socos com Kid lhe custou a vitória. Você concorda com isso?
Contra o Kid a primeira porrada que levei, o primeiro contato que rolou entre eu e ele, minha vista embaraçou. Ai ali foi no piloto automático. Foi o instinto. Eu tava treinando muito trocação (de socos e chutes) e foi o que deu.

Que lembrança te vem em mente quando você pensa nessa luta?
Foi a luta mais maneira da minha vida. Eu lembro deu sendo socado, deu acertando ele, aquela agitação toda e de repente eu cai no chão, rolou o chute na cabeça e apagou a luz. Foi legal. Uma experiência que equivale a 10 anos de treino, 10 anos de evolução de treino naquela luta ali. Tem o Miguel Torres que é o campeão no lado ocidental, mas o Kid é o número um há muito tempo no oriente.

O chute desferido pelo Kid Yamamoto atingiu seu rosto? Se atingiu foi golpe ilegal já que você estava com mais de dois apoios no chão. Por que você não reclamou e como seria a luta sem esse golpe?
Foi o chute que terminou a luta. Ele podia me nocautear um segundo depois com um soco ou eu podia ter finalizado ele. Qualquer coisa podia acontecer. A gente chegou a fazer uma reclamação, mas não vai mudar em nada na minha vida. O valor financeiro ia ser o mesmo, se tivesse dado "No Contest" (sem resultado) não faria muita diferença. O chute na regra do Heroes era ilegal, mas na minha regra era legal, ganha quem fica em pé, pra mim o Kid ganhou.

Quem é o melhor lutador que você enfrentou?
O Kid com certeza. Ele é um atleta olímpico no wrestiling, é um cara que luta no K1 que é o maior evento de trocação e venceu (K1, torneio de lutas em pé, com artes como karate, kung-fu, kickboxe e até mesmo boxe), ele tem 61kg e venceu o torneio do Heroes (evento de vale-tudo do K1) com nocaute em todas as lutas na categoria até 70kg. Então ele é versátil e atleta de ponta em todas as modalidades.

Você ficou surpreso em sua última luta por ter derrotado o experiente Yoshiro Maeda em menos de quatro minutos?
Era possível, né? A gente se prepara para a luta mais longa possível, se prepara para tudo. Mas o estilo de jiu-jitsu que a gente pratica dá um xeque-mate quando o rival erra.

Como foi uma luta preliminar poucos brasileiros puderam ver seu confronto contra o Maeda. Tem como você descrever esse combate?
No começo da luta houve uma trocação (de socos) rápida. A gente então clinchou (se seguraram) e nessa hora ele partiu para a guilhotina (estrangulamento). Consegui sair da guilhotina com ele já levantando. Ai a gente ficou um tempo encostado na grade (no clinche) e ele abaixou a cabeça. Foi quando encaixei a guilhotina e o juiz terminou a luta.

O WEC já te disse se irá te escalar para a disputa do cinturão caso você vença sua próxima luta?
Eles já haviam falado. Inclusive antes dessa luta do Maeda. Eles puseram o Maeda para me enfrentar porque ele tinha feito a luta do ano em 2008 com o Miguel Torres. Só que lá as coisas mudam muito. Depende também de como vão se sair os outros lutadores da minha categoria e como eles vencerão suas lutas. Hoje em dia é importante vencer bem, com uma finalização ou nocaute. Isso faz a diferença.

Como seria um confronto pelo cinturão com o Miguel Torres? Seu jiu-jitsu bastaria para vencê-lo?
Só lá na hora que a gente vai saber responder essa pergunta (risos). To curioso também para saber. Mas nem imagino ainda como seria lutar com ele. A única coisa que penso agora é nessa entrevista e na minha próxima luta.

Seu próximo compromisso será contra um nocauteador, o americano Eddie Wineland. Já traçou uma estratégia para derrotá-lo?
A estratégia é a mesma que a gente vem treinando há muito tempo. Muita queda, tentar se manter por cima durante a luta e partir para as finalizações (golpes de submissão, como torções de braço e estrangulamento). Vou procurar explorar os erros dele e também poderei surpreender na parte em pé.

Você já disputou o cinturão do WEC, mas perdeu na decisão dos juízes para o americano Chase Beebe. O que saiu errado aquele dia?
Foi vitória dele e mérito total dele que soube explorar meus erros. Essa categoria ta sendo muito boa pra mim porque estou tendo um grande aprendizado com relação a treinamento, a dieta, a perda de peso, que é importante. Eu tava em débito nisso quando enfrentei o Chase. Tava me preparando para a disputa de título mundial e indo para a praia todo dia, sendo bem amador.

Você pensa numa revanche contra algum dos quatro atletas que te derrotaram até hoje?
Bom, eu quero enfrentar os quatro e não quero enfrentar nenhum (risos). Eu to no jogo. A hora que acontecer, aconteceu.

O também brasileiro Gesias Cavalcanti foi o único que te finalizou até hoje no vale-tudo. Essa derrota foi mais frustrante do que as outras?
De jeito nenhum. Na derrota é quando a gente realmente evolui. Dependendo de como canalizamos a derrota isso pode ser muito benéfico.

Já houve alguma rixa pessoal entre você e algum adversário?
Rixa é só antes. A gente, às vezes, até fala alguma coisa antes, mas na hora que a luta começa a gente vê que a luta não é nem contra o oponente, é contra nós mesmos. O adversário está lá fazendo o mesmo trabalho que eu, então só desejo amor e paz, porque o que ele quer é a mesma coisa que eu quero, nós temos algo em comum.

Fale da sua equipe, a Constrictor Team. Como surgiu?
O método de constrição já é um método que nosso professor Ataíde Júnior pratica há muitos anos. São técnicas de estrangulamento e de passagem de guarda paralelas ao brazilian jiu-jitsu (o JJ aprimorado no Brasil) que muda um pouco o foco, a direção na hora da luta. De uns dois anos pra cá a gente resolveu dar um nome, uma existência para o método, e formamos o time. A gente é um time de constritores.

Quais os principais nomes da equipe?
Tem o Paulo Thiago, que lutou no UFC e venceu, tem o Alex Necfu que acabou de ganhar no Jungle Fight, o Gabriel Garfanhoto que tem três vitórias no Havaí e vai lutar no Shotoo, entre outros.

Paulo Thiago enfrentará Jon Fitch no UFC 100. Como deve ser essa luta?
Jon Fitch é favorito, isso é indiscutível. Mas isso não influencia em nada porque o Paulo é um lutador criativo. Ele tem a capacidade de criar movimentos e mudar o rumo da luta. Contra um cara desse não dá nunca para apostar contra. O Paulo, desde quando era novo e competia no jiu-jitsu, é um cara que sempre cresceu na hora das lutas difíceis.

Foi uma surpresa ver o Paulo nocautear a Josh Koscheck na estréia dele no UFC?
Foi e não foi. Dois meses antes da luta ele falou que ia nocautear o Koscheck. A gente que convive com ele sabe que ele cresce na hora dos grandes desafios.

Você já disputou lutas de jiu-jitsu, boxe, muay thai e vale-tudo. Em qual desses esportes o treinamento físico é mais puxado?
O treino para o vale-tudo é o mais intenso que existe. Já vi isso em programas de TV e sinto isso quando treino.

Endereços de 3 vídeos do treino do Rani:

http://www.youtube.com/watch?v=5Odt-dysiFo

http://www.youtube.com/watch?v=74xknOxAHQo

http://www.youtube.com/watch?v=m5Hw0P75Z9k


Guga Noblat é jornalista e colaborador do site de Misturas de Artes Marciais (MMA): www.fight2live.net. Cobre política para o Blog do Noblat e já trabalhou como roteirista e produtor de programas de TV.


Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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