Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Ela o conhecia como Olegário Vidal. Trabalhava na compra e venda de café, embora mais tarde viesse a se apresentar como mecanógrafo e inventor. Disse a ela ter mantido, até este ano de Nosso Senhor de 1923, Todos os seus experimentos mecânicos em segredo.
Em menino, havia sido aprendiz do Padre Francisco João de Azevedo, nosso compatriota inventor da máquina de escrever. Olegário nunca discutiu a questão do aventado roubo do admirável projeto de Azevedo, por inventores e industriais americanos, nas cercanias de 1874, malgrado o fato da máquina do brasileiro ser de madeira, e a lançada pela Remington, de metal - era projeto do padre fundir as peças em aço. De qualquer modo, Padre Chico não partilhava com seu aprendiz questões comerciais.
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Olegário aprendeu sua lição, porém: não havia como vencer a concorrência instalada nos grandes centros do mundo e à truculência dos seus procedimentos. Além do mais, na maturidade ele havia se fixado em São Paulo para negociar café, e seus experimentos com máquinas datilógrafas tornaram-se nada mais do que um passatempo. Ao longo dos anos, ele acompanhou os avanços do campo, importando Underwoods, Royals, Hammonds, Smiths e pouco conhecidos modelos europeus.
A maioria das máquinas disponíveis no mercado possuía teclas que obedeciam ao padrão QWERTY - as primeiras seis letras da terceira fileira de baixo para cima; ou ASDFGH, as seis primeiras da fileira do centro, da esquerda para a direita. Não é um padrão particularmente produtivo: fora concebido para retardar o ritmo e assim dificultar que as teclas se encavalassem. Mesmo considerando o alfabeto da língua inglesa, ele exige muitos movimentos para se alcançar as letras mais freqüentes dessa língua, e força os dedos mais fracos (o mindinho, especialmente). Era ainda mais inadequado para a escrita do português. Difícil determinar por que esse padrão tornou-se o mais difundido. O mais importante, para Olegário, foram os resultados de seu projeto de encontrar um padrão mais natural, mais fácil, menos cansativo.
No padrão usual, a mão esquerda, a mais fraca para a maioria absoluta dos seres humanos, é a mais solicitada. Em seus experimentos, chegou a disposições de teclas não apenas mais adequadas à língua portuguesa, como dotadas de um melhor equilíbrio entre mão esquerda e direita, levando inclusive a uma maior velocidade da datilografia. O ideal.
Olegário, porém, persistiu na experiência. Sua mulher e seus três filhos reclamavam do ruído e da confusão de sua oficina, que tomava todo o andar de cima do sobrado onde viviam, mas ele foi irredutível. Sentia que esse primeiro triunfo abrira trilhas para outras combinações que favoreceriam não apenas a agilidade das mãos, mas da mente. Afinal, a habilidade das mãos reflete e impele a pujança do raciocínio. Uma geometria das teclas e uma disposição que espelhasse algum desenho íntimo e incógnito da mente, no qual se costurava a apreensão e o desenvolvimento da linguagem, era o que ele buscava. E o que alcançou, com sua máquina N.º 28. A disposição do teclado em leque foi a chave, assim como certa correspondência entre letras e símbolos.
A mente desabrocha. O pensamento fica mais claro, seus processos melhor aparados. Por causa disso, Olegário se tornou extremamente bem-sucedido em sua profissão. E enfim, o outro elemento envolvido no escrever à máquina também foi afetado: pode-se certamente escrever sem olhar as teclas, mas na base da datilografia há uma coordenação de mãos, mente e olhos. Com a prática, seu olhar aguçou-se, assim como a percepção do mundo que ele incorpora.
Olegário passou a enxergar um mundo de seres invisíveis, que se entrelaça com o nosso. Formas etéreas, esgarçadas, que se movem incógnitas entre e através de nós nas ruas, nas construções. Salvo por visualizar seus vultos portentosos ainda que indistintos, eles lhes eram inacessíveis, porém.
Passou igualmente a enxergar formas radiosas e coloridas a envolver as pessoas, animais e plantas. Auras muito sutis, mas que ele via com clareza e que, com o tempo, aprendeu a ler como testemunhos de personalidade, estados de espírito e até mesmo de condições de saúde física e mental. As pessoas assumiram para ele a semelhança de livros volumosos, abertos, e sua vida tornou-se livre da mentira, pois conseguia sempre ver a verdade por trás da farsa e da enganação.
Pois um dia, em visita à recém-inaugurada Bolsa do Café na Rua XV de Novembro, Olegário deparou-se com uma jovem de beleza simples, pele morena e cabelos escuros, e olhos de pupilas castanho-avermelhadas. Uma secretária de nome Júlia, cuja aura pulsava com uma cor inédita, espalhando-se por metros à sua volta. Sentia-a como a emanação de um ente superior, um anjo entre os homens; ou um ser de outro orbe instalado entre nós para aprender como conduzimos nossas vidas, nossos negócios, nossos avanços na ciência e na técnica.
Um dia, com a desculpa de pedir-lhe orientações sobre a burocracia da Bolsa, Olegário contou a ela o que via, e como conquistara essa habilidade. Júlia tomou suas palavras como um galanteio senil, mas ele soube de pronto que a atitude dela era um fingimento. Insistiu, lembrando-a de que sabia quando mentiam para ele, e por quê. Asseverou-lhe que com ele o segredo de Júlia - e de outros como ela, que, suspeitava ele, viviam incógnitos entre nós - estava seguro. Júlia preferiu manter a farsa. Decepcionado, Olegário deixou-a perguntando-se se na verdade não estaria vendo coisas, nutrindo um delírio resultante de décadas mergulhado em si mesmo, buscando um Graal inatingível.
Mas dois dias depois do seu encontro com Júlia, ao regressar à casa depois do trabalho, Olegário encontrou sua oficina empastelada. Sua mulher, seus filhos e a empregada, acometidos de estranha sonolência, nada ouviram.
Teclas, rolos, alavancas e revestimentos em frangalhos. O torno e o aparato de fundição em chumbo também. Chapas de aço rasgadas ao meio como se fossem de papelão, numa demonstração de força que constituía ameaça implícita. Mas nenhum sinal da N.º 28.
Eles não a queriam destruída, mas intacta. Porque também eles, os seres superiores infiltrados em meio à humanidade, desejavam os seus efeitos sobre a mente e o olhar. Olegário, observando a destruição de sua oficina, surpreendeu-se a sorrir.
Ele deixaria Júlia e os seus comparsas em paz, por ora. Montaria uma nova oficina noutra parte da cidade, para proteger a família. E reconstruiria a N.º 28, talvez com aperfeiçoamentos. E ensinaria outros a usá-la e a treinar suas mentes por meio dela. E um dia, se lhe coubessem mais alguns anos de vida, Olegário Vidal - não enlouquecido, apenas ciente de uma outra ordem do ser - voltaria a confrontar Júlia e seus semelhantes, armado de mais perguntas e de uma nova mirada.
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Reprodução
"Afinal, a habilidade das mãos reflete e impele a pujança do raciocínio..."
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