
Amilcar Bettega
De Paris
Imaginemos alguém que se coloca diante do branco de uma página inteiramente disponível e se propõe a preencher essa ausência com algo que ele próprio ainda desconhece. Imaginemos um quarto delimitado por paredes que se fecham em ângulos retos criando e oferecendo o espaço para uns poucos móveis: uma prateleira que pode ter livros ou porta-retratos ou objetos quaisquer à espera de sua função; um armário com inúmeras gavetas que podem estar cheias de papéis que repousam soltos; uma escrivaninha de arestas firmes e superfície retangular: o plano horizontal onde está essa página de papel ainda não percorrida, adormecida no seu próprio vazio entre as margens.
É aquela hora em que a noite vem crescendo de lado, borrando as formas claras e precisas, despertando sua condição de sombra sobre o dia. E nessa hora ambígua o quadro da janela recorta a paisagem da cidade: a silhueta indecisa dos edifícios contra um céu anêmico, um plano fincado de tijolo e concreto, parede de espaço, um verdadeiro muro que se antepõe ao rio fácil de adivinhar (e intensamente desejado). O bulício nervoso de um fim de jornada oito andares abaixo chega como murmúrio na quietude do quarto.
É assim, a música concebida pelo compositor só se constrói no silêncio, a peça idealizada pelo escultor se sustém no vazio que a conforma, a paisagem, sob o olhar imaginativo do pintor, começa a existir a partir de uma ausência real.
Imaginemos. Podemos, por exemplo, desalinhar o tempo, descer sete linhas e entrar de cheio na Avenida Independência de madrugada, engolir com os sapatos as calçadas e os asfaltos, aspirar a noite e essa espécie de rumor de fundo que a cidade faz quando dorme. E andar, juntar nos olhos as fachadas de todos os prédios da Avenida Independência, cruzar à frente da Beneficência Portuguesa, deixar-se escorregar pela escadaria da Conceição, enfiar-se pela Alberto Bins num trajeto descoberto a cada passo, a cada esquina que reparte e oferece os caminhos, a cada galeria que se apresenta como uma garganta escura onde se movem lentas e cúmplices brasas de cigarro. E andar, descobrir nos vãos das paredes, por trás das grades arriadas das lojas de comércio, sob as tampas dos bueiros uma possível Porto Alegre percorrida por baudelaires, cortázares e calvinos, seguindo o rastro dessas passadas e construindo um novo rastro que já não é o mesmo para quem vem logo atrás mas percorre as mesmas ruas e as mesmas linhas inscritas como manchas no mapa da cidade no momento dessa caminhada noturna até o Mercado Público, o Largo da Prefeitura, a Rua Uruguai. E andar, dobrar na Siqueira Campos e escolher uma entre tantas ruas que se abrem à direita como pequenas bocas de silêncio e noite, mergulhar nesse espaço franco, atravessar a Mauá, passar sob o portão do Cais do Porto e só se deter diante da imagem líquida e espraiada do rio. Estuário, onde chegam as diversas águas que se misturam numa espécie de lagoa ampla, águas de superfície mansa mas que batem com fúria na caixa do rio como que recriando permanentemente o seu espaço.
Olhamos para cima e o céu está negro. A madrugada é totalmente escura mas o rio se faz sentir por sua respiração, ele ressona ali, a um passo. Olhamos para trás e já não há página em branco, mas o traçado de um percurso pelas vias de uma cidade aberta, o arranjo de palavras que conformam uma mancha sobre o vazio do papel, a construção de uma imagem pela destruição da ausência.
Terra Magazine