Atualizada às 16h01 |
Thais Bilenky/Terra Magazine
"As pessoas estão lá, enlouquecidas, à procura de futuro. Elas querem fazer o bem, mas não têm competência", diz Coutinho sobre personagens anônimas
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Thais Bilenky
Os documentários de Eduardo Coutinho aos poucos se aproximam da ficção. A estreia do novo filme, Moscou, no festival "É tudo verdade", no Rio de Janeiro e em São Paulo, deixa clara a proposta do cineasta. Discutir o sentido de vidas aparentemente sem sentito nenhum.
A habilidade para conversar afasta Coutinho de figuras públicas. "Odeia" falar com quem "tem muito a perder". Os anônimos crescem diante das câmeras, mas não por piedade do cineasta:
- As pessoas estão lá, enlouquecidas, à procura de futuro. Elas são boas, querem fazer o bem, mas não têm competência, são infelizes em tudo. São fracas, entende?, as personagens - analisa Coutinho.Veja também
» Coutinho: "Pirataria é um escândalo"; assista 
A peça As Três Irmãs, de Tchekhov, é encenada pelo mineiro Grupo Galpão e dirigida a convite dos atores por Enrique Diaz. Em três semanas, Coutinho não fala com ninguém, apenas observa e filma um processo de criação. Para ele, uma tortura ficar calado. Para o documentário, válido:
- O papel do documentário é esse. Examinar em que condições a gente pode discutir a verdade, a mentira, o mundo, a divisão entre as pessoas - diz Coutinho.

O elenco
Pontos de vista
O documentarista mantém seu olhar cético nas questões extra-câmera. Para ele, a pirataria é um "escândalo": "A questão no Brasil é o que não é pirata. Tem senador pirata, tem bolsa pirata... Eu não ganho nada com direito autoral. É bom para quem faz show. Quem não faz show está perdido. Vai viver de quê?", indigna-se.
Coutinho avalia que leis de incentivo cultural não podem servir como alpinismo de piedade. "O folclore se protege a si mesmo. Você não precisa dar verba para o bumba-meu-boi. Enquanto tiver força, vai existir", acredita.
Quanto ao cinema, porém, Coutinho muda o discurso:
- Só existe porque tem subsídio do Estado.

Trajetos
Eduardo Coutinho fez sete filmes em dez anos. "Seis deles baseados em conversas, não entrevistas. Conversas", enfatiza. Edifício Master (2002) impressionou o público com histórias muito bem contadas por pessoas absolutamente desconhecidas. Peões (2004) trouxe depoimentos de companheiros de Lula, no movimento sindical dos anos 1980, durante a campanha que o faria presidente.
Jogo de Cena (2007) pôs lado a lado a mesma história contada por quem a viveu e por quem a interpretou. Sem avisar ao espectador, Coutinho aos poucos liberava a informação de que aquela mulher a contar um caso podia estar atuando. E muitas vezes estava.
"Depois de Jogo de Cena, eu vou entrevistar alguém? Eu não sei o que fazer. Não tem mais sentido. Se a mesma história pode ser contada por duas mães... O Jogo tirou a mágica. A mágica é outra, é essa de quem é o dono da história, quem fala?", reflete o cineasta.
Anos antes, Coutinho filmou Cabra marcado para morrer (1964-1984). O clássico inaugurou a carreira do documentarista. Coutinho saía da televisão - trabalhava no Globo Repórter - e aprofundava uma linguagem que se tornaria aos poucos sua marca: "filmes baseados em conversas".
Fumante contumaz, ele se diz descrente da política, e desconfiado do papel do cinema daqui a cem anos. Mas seu olhar tem firmeza, e brilho, ao falar de arte, do que lhe encanta e fascina. Tchekhov, no caso de Moscou, deixa sua voz embargada.
O diretor Enrique Diaz afirma que o trabalho com Coutinho é "muito prazeroso". A postura do cineasta faz com que ninguém se intimide, segundo conta Diaz. "A câmara não era desligada quase nunca. Ela passou a integrar o trabalho de maneira muito orgânica, em muito pouco tempo", relata o diretor teatral.

Cena de Moscou
"Coutinho deixava claro que o filme surgiria ali. Isso deixava a dica para a gente se jogar no trabalho", conclui Diaz.
Leia entrevista com o cineasta.
Terra Magazine - Enrique Diaz pergunta se os seus dois últimos filmes acenam para uma aproximação com a ficção? Ambos tratam dos limites entre ficção e realidade.
Eduardo Coutinho - Primeiro, quando você pensa em fazer um filme, você imagina como vai ser. Depois o filme pode ser completamente diferente. Depois de Jogo de Cena, eu vou entrevistar alguém? Eu não sei o que fazer. Não tem mais sentido. Se a mesma história pode ser contada por duas mães... O Jogo tirou a mágica. A mágica é outra, (a mágica) é essa de quem é o dono da história? Quem fala? E aí você pensa o seguinte: não vou mais fazer cinema. Vou fazer o quê agora? Aí eu imaginei um troço que seria um pouco o contrário. Você parte de um texto e vê o que as pessoas fazem.
Em Moscou?
O trabalho de montar uma peça é o processo de você construir a ficção. E é quase fatal, em quase todos os teatros que existem, que elementos do ator entrem no personagem. Ainda mais em Tchekhov. Tem momentos em que eles (os atores) contam alguma coisa sobre sua história, que pode ser verdadeira ou não. As três (atrizes) começam a falar da vida delas, como se fossem as irmãs de Moscou e termina em Divinópolis (interior de Minas Gerais, cidade natal de uma das atrizes). Foi puro improviso delas e é extraordinário.
O diretor teatral, Enrique Diaz, tem participação nisso?
O Enrique quando bota aquelas questões da vida (em proposta de exercício aos atores), ele bota talvez porque Tchekhov é tão ligado ao tempo. O futuro nunca chega e o passado nunca volta. É um presente esvaziado, mas o passado é lembrado todo tempo. Mas todo o material dos exercícios deu sete horas, e tiramos tudo, porque achamos que ia ficar previsível.
Andam dizendo que seus filmes perderam a simplicidade. Ficaram complexos, eruditos.
Não. Jogo de Cena foi visto por 40 mil pessoas porque tem simplicidade absoluta. Se mostrar Jogo de Cena no Globo Repórter vai dar audiência porque é impossível não bater nas pessoas.
Mas é uma proposta complexa.
Você pode dizer que erudita é uma palavra pejorativa. Se você disser complexa, é diferente. Está ficando mais complicada (a obra de Coutinho), mais voltada para si mesma. Acho que o papel do documentário é esse. Examinar em que condições a gente pode discutir a verdade, a mentira, o mundo, a divisão entre as pessoas.
Sim...
O que o Tchekhov está dizendo me importa. Porque as pessoas ficam sonhando daqui a 300 anos e não fazem nada. E a vida em geral é um fracasso. Se você considerar o sonho que você tem, você nunca atinge seu sonho. Porque se você diz: quero morar em Nova York, você fica dois anos lá, você vê que NY não é NY. Porque NY tem que estar dentro de você. E não está. Dentro de você é o seguinte: você nasce, vive e morre. Você tenta fazer as coisas que puder. Nova York, Socialismo, Paraíso, Jesus Cristo... Tem que encontrar como viver uma vida que não tem sentido aparentemente. Como vou dar sentido a ela? Sei lá... Ajudando pobres, colecionando selo, não importa. Mas tem que ser tudo com a sua cara.
E a sua vida?
Faço filme porque faço. Tem significado e é útil? Não sei. Por isso eu vou passar, eu espero que haja 10 mil pessoas que gostem do filme. Se houver, está bom, está ótimo.
Nas filmagens, o que faz o senhor crer que conseguiu extrair o que queria? O que te emociona?
Eu não fiz nada nesse filme (Moscou). Não fiz nenhuma entrevista, eu não dirigi nenhuma cena. A única coisa que eu posso ter feito neste filme é, quando tinha que evocar alguma coisa do passado, eu botei a Jovem Guarda. Eu estava só preocupado com isso. (Nota da redação: em determinada passagem do filme, os personagens interpretam música da Jovem Guarda)
Como assim?
Porque eu acho que folclore é uma tolice. Hoje em dia a indústria cultural é folclore. A Jovem Guarda, a Wanderléia, fazem parte do folclore, é mais legítimo do que ficar procurando alguém cantando lá no sertão... Sou contra separar museu, proteger o folclore. O folclore se protege a si mesmo. Você não precisa dar verba para o bumba-meu-boi. Enquanto tiver força, vai existir. E vai existir porque vai influenciar a música popular industrial e vice-versa.
O Ministério da Cultura acaba de reformular a lei de incentivo cultural. Como o senhor vê a iniciativa?
Sabe esse negócio de que samba virou patrimônio da humanidade? Isso é totalmente secundário. O samba vai existir enquanto tiver força para existir. Agora, (dizer que) virou patrimônio cultural, vamos criar um museu. Samba não precisa disso. Precisa de palcos, financiamentos de shows, ajuda para os novos. Os velhos não precisam de nada. Zeca Pagodinho não precisa de nada! Os craques não precisam de nada! Agora, (dizer) vamos proteger aquele cara que faz cerâmica lá... salvo casos especiais, não tem que proteger, eles se viram.
Mas podem não conseguir atingir o público.
Mas vai existir o crítico, vão existir exposições. Mas não precisa tratar o cara como coitadinho. Vamos ajudar aquele folclore que está acabando. Se está mudando, é porque está vivo.
Qual deve ser o papel do estado?
Tem gente que precisa (de apoio estatal). O Cirque du Soleil? Não, tem gente que não precisa. A Orquestra Sinfônica só existe porque o Estado ajuda. Cinema no mundo? Só existe porque tem subsídio do Estado. Estados Unidos e Índia, fora disso todos existem porque têm subsídio do Estado. Na França, então, nem se fale. Se não tivesse Estado francês, não tinha cinema francês. Não existe possibilidade de existir cinema sem apoio estatal.
A televisão ajuda a propagação do cinema?
As televisões vivem caindo aos pedaços no Brasil, tirando a Globo, porque são (mal) administradas... uma vergonha, nem quero falar da televisão. A televisão que ganha dinheiro no horário nobre aluga para pastor. É patético. O cara não consegue ganhar dinheiro sem isso? Cassa a licença e dá para outro.
A linguagem do cinema se transforma com a internet, com a "revolução digital"? Até mesmo por conta das câmeras, antes pesadas, agora leves e ágeis?
Não sei, não tenho internet. Claro que para os caras formados agora ( a internet) vai transformar (o cinema). Aquele treco do youtube, um monte de programa que você bota coisa. Isso vai mudar, vai criar produto para internet, celular vai filmar. Cinema é uma coisa muito simples, é uma coisa filmada com câmera - pode ser película, fita analógica, digital, amanhã pode filmar com pente, não importa. Há cem anos cinema é uma atividade que se passa em uma sala escura, depois retransmitida na televisão, depois em DVD. Daqui 50 anos vai continuar a passar em sala escura? Talvez fique como o teatro, só uma elite vai ver. Para mim, cinema é isso: o desafio de falar com o público.
A pirataria parece um caminho incontornável. O que o senhor pensa?
Eu não penso. Se nem o cara da Warner Brothers sabe, imagine eu? No mundo todo é assim, no Brasil é um escândalo, porque você tem até companhia de distribuidor de vídeo que é pirata. A questão no Brasil é o que não é pirata. Tem senador pirata, tem bolsa (de valores) pirata. É um tal nível de ilegalidade que o que você vai fazer? E tem o lado do "é bom pirata porque o cara não tem dinheiro". Meu filho, pegue um chinês, não o camelô, o cara que ganha uma nota e que não está pagando imposto nem coisa nenhuma. Eu não ganho nada com direito autoral. Acho engraçado (dizerem que) pirataria é bom, vamos liberar. É bom para quem faz show. Quem não faz show está perdido. Vai viver de quê?
O senhor acha que, por ter encontrado tanto talento ao extrair depoimentos impressionantes das pessoas, acabou se acomodando em uma fórmula?
Aí a crítica é que vai dizer. Eu fiz sete filmes em dez anos, seis deles se baseavam em conversas. Não entrevistas, conversas. O último tinha atrizes no meio, já mudou. Nenhum filme é igual ao outro. Este que eu fiz agora não tem nenhuma entrevista. Aí cabe à crítica. Eu acho que cada filme que eu fiz é igual ao outro e é diferente. São todos feitos por mim e têm que ser iguais, mas são diferentes também. Um tem pesquisa, outro não tem... No último não tem nada. Não entrevisto ninguém, estou lá observando. Sofri para burro por causa disso. Não tinha que perguntar nada para ninguém, mas fiz.
O resultado do filme, da encenação da peça, fez jus ao fascínio que o senhor tinha pelo texto de Tchekhov?
Não tem nada a ver com o que eu vi na peça. Mas sei lá, acho que dá uma ideia do que é o universo do Tchekhov. E não falo de antigamente. O filme é hoje. Não mudou muito, não mudou nada. As pessoas estão lá, enlouquecidas, à procura de futuro. Elas são boas, querem fazer o bem, mas não têm competência, são infelizes em tudo. São fracas, entende?, as personagens.
E o filme dá força às personagens?
Não sei. Só acho apenas que, como disse o Tchekhov uma vez, a lei da natureza é a sobrevivência dos mais fortes. E a lei mais admirável da natureza é a sobrevivência dos mais fracos. É maravilhoso.
O senhor, quando filmou Peões, esteve bem próximo do universo de Lula quando metalúrgico...
...No caso do Tchekhov, os mais fracos são todos, é a elite, mas não importa, são tão fracos quanto os outros. No caso de Peões, são fracos socialmente. O que eu odeio são as figuras públicas.
Odeia?
É.Odeio. Não tenho nada para falar com o (cirurgião plástico, Ivo) Pitanguy. Com o Pelé. Não quero falar com o Pelé, com pessoas que têm muito a perder. Não quero.
Consegue ver uma ligação forte entre o Lula que está no Planalto há dois mandatos e o Lula dos Peões?
Sempre tem. Ninguém muda totalmente. A questão é que são outras circunstâncias, passou-se trinta anos, ele é presidente, envelheceu trinta anos. Ele entendeu o papel histórico dele nos anos 1980, queria ser presidente de qualquer jeito e na campanha de 2002, resolveu ser eleito, fez uma campanha para ser eleito, o "Lulinha paz e amor". E está tentando governar, o "Lulinha paz e amor", mas na verdade é muito difícil. Cometeu mil erros o partido dele, mas... Existe outro caminho? Não sei. Acho que não tem nem perspectiva histórica, daqui dois ou três anos talvez haja.
Sim...
Mas eu em geral não gosto de política mais. Não muda nada, política partidária, Congresso... Política simbólica é importante, a eleição de Lula, aquele operário, eleição de Obama, que é negro. Mas na prática, um é presidente de um império, Lula é presidente de um país que 500 congressistas querem se vender ou se comprar. É difícil, Aí o sonho esbarra no real, e o que me interessa é o que é real.
Serviço: Moscou
Direção: Eduardo Coutinho
Quando: Em SP, dia 1º às 15h e dia 2 à 17h no Cinesesc, no Rio dia 1º, às 20h e dia 2 às 14h e às 22h, no Unibanc Arteplex.
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